A arte amazônica de Maria Oiticica

Agora em julho a designer de biojoias amazonense Maria Oiticica terá suas peças colocadas à venda num dos centros culturais mais visitados de Nova Iorque, o Whitney Museum. Na Europa, desde o início deste ano, suas peças já estão sendo comercializadas em Lisboa, na Casa Pau Brasil. “E tudo começou aí em Manaus”, lembrou Maria ao Jornal do Commercio, falando do Rio de Janeiro, onde mora há 15 anos.
Nascida em Manaus, desde que se mudou para a ‘cidade maravilhosa’, Maria se dedica a transformar resíduos naturais em peças elegantes, mesclando o moderno e o clássico, com materiais naturais da Amazônia e de outras áreas do país. Os colares, pulseiras, brincos, anéis e bolsas são criados, artesanalmente, com sementes, cipós, casca de árvores, folhas, madeiras, peles e escamas de peixes, por vezes, com acabamento em prata ou ouro.

“Comecei por brincadeira a fazer as biojoias, pois havia me formado em jornalismo, e exercia a profissão, mas as peças foram fazendo sucesso e deixei aflorar a designer. Mas diria que minhas habilidades com o artesanato começaram bem antes, quando eu era criança, observando meus pais”, contou.

Tendo um pai regatão (comerciante dos rios da Amazônia), a artista sempre teve contato com a matéria-prima natural, trazida a cada retorno do senhor Sérgio Lopes da Silva. “Meu pai chegava a passar seis meses viajando pelos rios, longe de casa. Quando voltava, trazia tudo que se pode imaginar da floresta, sementes, borracha, cipós, frutos. Os nossos brinquedos era ele mesmo quem fazia: balanço com os cipós amarrados em pneus, tratores feitos com latas de leite. Tudo ele reciclava.

Dele herdei a criatividade. Já minha mãe, Diva Mitoso, era exímia costureira e fazia bolos maravilhosos. Dela herdei o refinamento nas peças que faço”, lembrou.

Ainda criança, como muitas meninas da época, Maria recortava bonecas que vinham em revistas, colava em cartolina e enchia com elas um grande corredor que tinha em casa. “Também fazia vários móveis recortados em papel”, disse. Pra completar, Maria casou com o pintor e arquiteto César Oiticica, irmão de ninguém menos que Hélio Oiticica (1937/1980), pintor, escultor, artista plástico e performático de aspirações anarquistas, considerado um dos maiores artistas da história da arte brasileira.

O começo, em 2002
“Um dia, em 2002, quando considero ter me tornado uma designer, o César me pediu para providenciar um presente para uma amiga dele, curadora do Museu de Houston. Eu pensei: uma pessoa dessas deve ter de tudo. Ainda morávamos em Manaus. Fui a uma loja da Funai e ao Mercadão e comprei várias peças para artesanato e fiz algumas biojoias depois dadas para a curadora. Qual não foi minha surpresa quando ela disse ter adorado as peças e pediu mais, para colocar à venda no Museu”, riu.

O reconhecimento internacional é causa de fortes emoções para a artista. “Ter minhas criações em Nova York, hoje, é muito significativo e emocionante para mim. Me remete àquele início do meu trabalho, quando, pela primeira vez, fui apresentada, formalmente, à imprensa e ao público em geral. As pessoas me perguntavam quando eu lançaria a próxima coleção. Respondia que eu ainda precisava mostrar minhas peças para o mundo. Agora, estar na loja do Whitney e em Lisboa, é parte disso”, comemorou.
No Brasil, Maria criou a marca Maria Oiticica Biojoias, e tem lojas no Shopping Leblon e no aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Desde o início, o conceito de sustentabilidade ou de desenvolvimento sustentável está atrelado à Maria Oiticica Biojoias. A marca trabalha com matéria-prima natural predominantemente encontrada nas regiões Norte e Sudeste, além de couros de peixe (matéria-prima que utiliza produtos orgânicos no lugar de metais pesados durante processo de curtimento e tingimento) fornecidos pela Nova Kaeru indústria e comércio de couros.

“A marca foca no desenvolvimento humano, seja a partir do despertar, nos consumidores, de um novo olhar a respeito da utilização (e do consumo) dos recursos naturais, seja a partir do resgate e da preservação da diversidade e das tradições culturais de comunidades indígenas e ribeirinhas da Amazônia”, garantiu.

O resíduo do Santo Daime
Além das diversas ações realizadas pela Maria Oiticica Biojoias, a designer desenvolve projetos como o Novos Caminhos (do Instituto Fernandes Filgueiras/Fiocruz) para capacitação e geração de renda entre mulheres que não tem acesso ao mercado de trabalho. No momento, ela desenvolve um trabalho com tramas e franjas inspiradas nas redes usadas pelos ribeirinhos e indígenas, além da utilização de palhas trançadas.

Na comunidade Vila Céu do Juruá (nas nascentes dos rio Amazonas), fez uma parceria com a Oficina Linha do Tucum que tem como fator agregador aos seus produtos o uso da bebida mágico-ritual do Santo Daime. Lá foi desenvolvida uma técnica de tingimento inovadora em diversos tons em degradê, utilizando o pignol que é o resíduo do chá sacramental. A linha do tucum, simbolicamente representa a lealdade, já que não se rompe, e a ligação entre o visível, o invisível e o espiritual.

Essa parceria vem reforçar a relevância da riqueza material e imaterial da cultura amazônica. A comunidade acredita que pode se tornar um importante meio de escoamento para a sua produção, trazendo benefício tanto pela geração de renda quanto pela troca de conhecimento e traz uma nova faceta ao conceito de biojoias: a união com o sagrado.

Maria Oiticica não apenas lança um olhar sobre a estética da natureza amazônica, sobre a beleza e as possibilidades de suas sementes e outras matérias-primas. Na alma de suas criações também estão as questões sociais das populações indígenas e ribeirinhas, sua ancestralidade e outras questões subliminares.

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