“Manaus é um caos, Amazonino é nota 5”

Eleito com pouco mais de 100 mil votos nas eleições de 2010, o deputado federal Pauderney Avelino (DEM-AM) é mais um pré-candidato à Prefeitura de Manaus. Com 22 anos de vida pública, ele diz que o governador Omar Aziz (PSD) surpreende com ações positivas como o programa Ronda no Bairro, que melhorou a segurança na zona leste. O parlamentar adverte sobre os gargalos que podem levar ao fracasso os projetos visando a Copa do Mundo de 2014 e sustenta que a capital “é um caos urbano, precisando resgatar o sorriso perdido”. Ele também vê com preocupação projeto do senador José Sarney (PMDB-AP) tentando criar uma Zona Franca Industrial no Estado do Amapá, uma ameaça a ZFM.

Jornal do Commercio – Deputado, vai andar o processo nacional da fusão do DEM com o PSDB, podendo originar uma nova legenda?

Deputado Pauderney Avelino – Não tem nada de concreto, não fui comunicado sobre esse respeito. No nosso partido nunca discutimos essa questão com o PSDB nem com outro partido. Mas, é notório que recebemos um duro golpe com a formação do PSD, perdemos 17 deputados federais e realmente deixou-nos bastante vulneráveis no Congresso Nacional. Então, mesmo com essa ação, estamos sobrevivendo no Amazonas e vamos para a eleição municipal mais forte do que entramos nela. E depois, em 2014, a gente vai ver como ficará esse processo. Há mais de uma tendência dentro do DEM, mas acredito que tudo ficará para 2014.

JC – O senhor já foi parceiro do governo do Estado e transita hoje entre os partidos de oposição. Como é o seu relacionamento com o governador Omar Aziz, principal estrela do PSD, com o senador Eduardo Braga (PMDB) e com o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes?

Pauderney – Tenho uma relação muito boa com todos eles. Aliás, tenho uma relação muito boa com todo o staff político do nosso Estado no Congresso Nacional. Converso com tranquilidade com a senadora Vanessa Grazziotin, converso com o senador Eduardo Braga e tenho uma boa relação com o governador Omar Aziz, uma relação antiga, afetiva, e tenho também uma relação bem afetiva com o prefeito Amazonino Mendes.

JC – Que nota o senhor daria para um ano de Omar Aziz à frente do Estado?

Pauderney – Ele tem surpreendido a muita gente, tem feito um governo com muita direção, tem atacado alguns pontos vulneráveis como a segurança pública. O programa Ronda no Bairro é um ponto alto na zona norte e será, com certeza, também um sucesso na zona leste e depois no centro de Manaus. Isso dá segurança e confiança. A segurança hoje é um problema no país inteiro. Mas, o Omar surpreende também positivamente no campo educacional, enfatizando o ensino técnico. Ele surpreende na área da saúde com a construção de novos hospitais e a formalização de convênios com entidades paulistas que vêm trabalhar com especialização em Manaus. Há a questão do Hospital Francisca Mendes, que deverá transformar-se em Instituto do Coração. A questão do atendimento básico de saúde, que é obrigação da prefeitura, mas quem faz é o governo do Estado, o atendimento é bastante caro. Além disso, o Omar tem lutado muito em Brasília na defesa do Polo Industrial de Manaus e ajudado sobremodo os deficientes físicos.

JC – Entre um e dez, que nota merece o prefeito Amazonino Mendes?

Pauderney – Eu dou nota 5 para ele. Acho que o prefeito Amazonino Mendes andou patinando muito nos três anos de governo dele. O prefeito tem muita dificuldade para lidar com as questões municipais, ele que já foi governador três vezes. Às vezes, parece que lhe falta paciência pra lidar com a cidade, com a Câmara de Vereadores. Ele perdeu a paciência com a micropolítica que tem refletido nos problemas de Manaus. Temos aí um centro da cidade entregue às baratas há bastante tempo, o que não é culpa só do Amazonino, mas também do prefeito que o antecedeu. Manaus é um caos. Temos o problema da mobilidade urbana, a deficiência do transporte coletivo em uma cidade que transporta mais de 1 milhão de passageiros por dia. É uma vergonha uma cidade assim ficar dependente de ônibus.

JC – A Fifa já anunciou que 20 milhões de turistas já manifestaram desejo de conhecer o Brasil e a Amazônia durante a Copa do Mundo de 2014, ou seja, turistas que visitarão Manaus. A cidade tem infraestrutura para recepcionar essa imensa quantidade de turistas? Já não seria tarde demais para se construir BRT e monotrilho?

Pauderney – Eu acho que está tarde, sim. A Fifa fala em 20 milhões de turistas e eu digo que o Brasil recebe anualmente 7 milhões de turistas. Então, em 2014 vamos receber três vezes mais turistas do que recebemos durante um ano. Imaginem o caos em que se transformarão os aeroportos do país. O nosso Aeroporto Eduardo Gomes, por exemplo, inaugurado entre 1977 e 1978, somente agora será reformado. Mas, vão manter o mesmo número de fingers, pontes, uma situação complicada. Vão fazer uma reforma, uma espécie de ampliação meia-boca. O país não tem planejamento e Manaus segue na direção do país, não tem planejamento. Precisamos planejar. A Copa do Mundo de 2014 foi confirmada para o Brasil em 2007, mas só agora em 2012 é que atentaram para a coisa. As providências, que deveriam ter sido tomadas, não aconteceram. A Fifa diz que nenhum estádio brasileiro estará pronto para a Copa das Confederações em 2013. Isso é uma vergonha. Não temos portos, aeroportos, nem mobilidade urbana, nem nada.

JC – O senhor também inclui nisso tudo a administração passada do ex-prefeito Serafim Corrêa, seu ex-aliado? Ele também ofereceu pouco em termos de mobilidade urbana?

Pauderney – O Serafim produziu realmente muito pouco, poderia ter feito muito mais.

JC – Outro gargalo da cidade de Manaus é o Mercado Adolpho Lisboa. A reforma já dura uma década segundo o senador Eduardo Braga. Por que a reforma não anda?

Pauderney – Em 2000 eu arranjei recursos federais para a reforma do Mercado Adolpho Lisboa, recursos da ordem de R$ 2 milhões junto à Suframa. Estamos em 2012 e a reforma desse mercado continua a passos de cágado. As obras foram iniciadas em 2003 e o dinheiro tava na conta da Prefeitura de Manaus no ano de 2000, dinheiro que dava pra fazer a reforma e o entorno do mercado.

JC – A prefeitura, desde Serafim Corrêa, culpa o Iphan pela paralisação da obra. O senhor também culpa o Iphan?

Pauderney – Não, de forma alguma, a questão é saber resolver as coisas de forma franca e não adianta deixar que o tempo resolva. Se há problema, vamos atacar o problema. Em administração as coisas não se resolvem por si. Os problemas vão virando uma bola de neve, e foi numa bola de neve de problemas que transformaram a cidade de Manaus.

JC – Também o problema do Porto de Manaus não se resolve há uma década.

Pauderney – Certo, aquela região toda precisa ser revitalizada de modo a resgatar a beleza arquitetônica da época da borracha. Temos que revitalizar o Centro Histórico de Manaus, temos que resolver o problema das calçadas para os pedestres. Um deficiente físico não pode andar nas calçadas da cidade, tem que disputar espaço com os automóveis nas ruas afogadas pelo trânsito louco. Os estacionamentos de toda ordem sobre as calçadas são absurdos. Os “puxadinhos” sobre as calçadas são vícios que precisam acabar.

JC – Manaus não vai mais crescer para dentro do rio Negro. O senhor acha que ainda é tempo para se planejar o contexto urbano de Manaus?

Pauderney – Manaus é uma cidade com 300 anos de história. A verdade é que temos que salvar o que é possível e trazer de volta o sorriso perdido da cidade. O que temos que fazer é um Plano Diretor com a coragem que o saudoso coronel Jorge Teixeira teve e trabalhou no final da década de 70. Se tivéssemos seguido o Plano Diretor do Teixeirão, Manaus seria uma outra cidade.

JC – Por tudo isso, o senhor é mesmo candidato à Prefeitura de Manaus?

Pauderney – Sou pré-candidato à Prefeitura de Manaus, exatamente para poder enfrentar toda essa imensa gama de problemas, com transparência e conversando com todos os atores do processo.

JC – Deputado, e a questão da Zona Franca de Manaus ? Vivemos hoje a convergência digital. Como fazermos para o modelo ZFM sobreviver do jeito que está, já que o desenvolvimento tecnológico é dinâmico demais, ele se modifica em segundos. Como repensar e reciclar a ZFM?

Pauderney – Inegavelmente, vivemos a convergência digital, mas temos outros problemas como a nossa tributação. Enquanto o Brasil tem uma tributação excessiva, nós temos uma carga tributária absurda para as empresas que produzem aqui. A convergência digital, aliada aos problemas tributários, é uma questão que requer perseverança e conhecimento. Eu tenho um radar e tudo o que acontece em termos de legislação tributária eu pego a tempo, eu me antecipo e estudo muito, converso com a cúpula da Receita Federal todo mês, assim é que eu trabalho. Vamos fazendo as coisas pontuais quanto a ZFM. Agora, com a Medida Provisória do Brasil Maior, a presidente da República, Dilma Rousseff, dá benefícios fiscais para as telas de LCD, o que significa matar o polo de televisores do PIM. Ela iria nos tirar o tablet e o televisor. Então, o que eu fiz? Numa medida cirúrgica, eu limitei o benefício tributário no tamanho do tablet. Espero aprovar essa emenda, limitando o benefício tributário para a tela de LCD. Ninguém se lembra mais, no entanto em 2000 eu criei uma lista de coisas que não seriam mais objetos para a Lei de Informática, o que salvou o PIM, o polo de duas rodas etc. Nós fizemos uma lista enorme, que se chama Lista Negativa, uma lista de produtos que não recebem benefícios da Lei de Informática, ou seja, produtos que só podem ser fabricados no âmbito da Zona Franca de Manaus. Não fosse isso, a gente não tinha mais PIM. Aí, quando veio em 2003 a transformação do PIS/Cofins em não cumulativo foi outro Deus nos acuda, pois as empresas de Manaus passaram a ter um tributo excessivo, que saiu de 3.65 pra 9.25, e as empresas aqui estavam pagando impostos demais sem levar crédito. O que aconteceu? Eu entrei de novo no processo e conseguimos uma vantagem. Se pagávamos os 3.65, em compensação levávamos um crédito de 5,2. Isso resolveu alguns problemas e depois fomos resolvendo problemas pontuais. Cada segmento tem um tipo de tributação diferente, e saímos resolvendo esses problemas. A nossa ZFM vai ter futuro, mas precisamos estar atentos, estudando muito.

JC – O senhor é relator do projeto de lei que expande os benefícios da ZFM para a Região Metropolitana de Manaus. Como seria o sistema de tributação para que esse polo industrial funcione com efetividade?

Pauderney – Não temos certeza se os benefícios da ZFM irão realmente para a RMM, uma batata quente em minhas mãos, até porque há um projeto do senador José Sarney criando uma Zona Franca Industrial no Estado do Amapá, uma outra bronca pra gente resolver. Estou estudando tudo isso com bastante cuidado, de maneira a defender os interesses do nosso Estado. Mas o modelo ZFM tem que continuar, e com o CBA (Centro de Biotecnologia da Amazônia) funcionando, deixando de ser simplesmente um elefante branco, ajudando a gente a transformar a nossa biodiversidade em riqueza, pois hoje 80% dos produtos fármacos vendidos no Amazonas são originários da nossa flora, mas sem que o Estado lucre com isso. O modelo tem que ajudar a crescer a RMM aproveitando a ponte sobre o rio Negro de maneira inteligente, como o governador Omar Aziz começa a fazer, construindo uma cidade universitária em Iranduba e criando uma boa infraestrutura de desenvolvimento na RMM.

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