‘O Brasil tem um grande desafio’

No dia em que se comemora mundialmente a água, o geólogo e atual secretário da SEMGRH (Secretaria de Estado de Mineração, Geodiversidade e Recursos Hídricos), Daniel Nava, fala sobre a falta de saneamento básico que compromete o ciclo de consumo e tratamento do produto comum à humanidade. Segundo ele o desafio é tão grande que nas vésperas da Rio+20 a OMC (Organização Mundial de Saúde) lança um dado que é alarmante: 1,5 milhão de crianças morrem por ano, pela falta de acesso a água ou a falta de acesso à condições de saneamento mínimas. A situação piora se somar os 20 anos que se passaram da Rio 92, o número sobe para 30 milhões o mesmo registrado na Segunda Guerra Mundial. Nava afirma que essa é uma guerra silenciosa, que os habitantes de uma maneira geral desse planeta, tem responsabilidade comum. Principalmente os habitantes da Amazônia pelo fato do Brasil ser hoje responsável por 20% da água doce disponível, a mais próxima de rios e lagos. O Bioma Amazônia detém 12% considerando a Pan Amazônia onde habitam 38 milhões de pessoas que moram sobre esse bioma que tem característica única em desenvolver uma economia forte compensando com relações de conservações da natureza. “Nenhuma parte do mundo fez isso”, segundo Nava, em entrevista exclusiva concedida a equipe de reportagem, durante a realização do Seminário Água, Saneamento e Energia – Perspectivas para o Amazonas, no período de 19 a 22 de março, no auditório da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), zona Sul da cidade.

Jornal do Commercio – Secretário qual a importância da comemoração do Dia Mundial da Água, aqui no Amazonas?
Daniel Nava – Nós estamos comemorando discutindo com a sociedade através desse seminário, dois temas que são estratégicos não somente para o Estado do Amazonas, mas para o Bioma Amazônia e para o Brasil e talvez até para o mundo. Água e Saneamento e Água e Energia são dois temas que precisam ser discutidos e que são temas recorrentes, porque a população mundial saiu das zonas rurais e foram morar nas áreas urbanas. Esse acontecimento traz para as cidades o desafio do urbanismo ou da recuperação daquilo que era para nossos pais e avós, balneários ou igarapés.

JC – Qual a responsabilidade do Estado, da Concessionária e da sociedade nas questões que envolvam a água servida?
Nava – Então, certamente quando estamos falando em água e saneamento nós estamos discutindo a qualidade da água que chega e a responsabilidade de cada um de nós no armazenamento dessa água nos reservatórios e nas caixas d’águas domésticas, que é comum a todos: sociedade que é a principal usuária e dos órgãos públicos que tem a responsabilidade da gestão. E no nosso caso que temos uma empresa privada concessionária existe essa responsabilidade que esse sistema comece a funcionar. O Brasil tem um grande desafio. Ele está dentro de um patamar que 50% a 75% da nossa região e dos nossos municípios não possuem sistema de esgoto na forma ideal. Seja de origem industrial ou doméstica, existe a necessidade de nós devolvermos a água ao corpo hídrico o mais próxima da qualidade que temos na natureza.

JC – Qual orçamento é destinado a Secretaria e de que forma é aplicado?
Nava – Nós trabalhamos com orçamento direcionado ao pessoal e investimentos na ordem dos quatro a cinco milhões. Como é uma secretaria nova, ela está buscando na parceria com o governo federal, trazer recursos outros e buscando através do Fundo Estadual receber doações, investimentos e outros tipos de ações. Porque outros órgãos como a Seinfra (Secretaria de Estado de Infraestrutura), a SDS (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) possuem programas que atendem recursos hídricos, por exemplo, Pró-Chuva e Água para Todos. A água neste caso não é tratada exclusivamente na secretaria, nós somos responsáveis pela gestão e pela política. A execução de obras públicas é diferenciada: temos obras sendo executadas pela Seinfra nos valores de quarenta a sessenta milhões de reais. São obras feitas inclusive com recursos do Ministério da Integração Nacional, do Ministério do Desenvolvimento Social, entre outros ministérios que atuam em convênios com o governo do Estado trazendo suportes e levando alternativas para o acesso público dos municípios do interior do Estado.

JC – Existe risco dos poços artesianos domésticos, já em grande número instalados na capital e nos municípios do interior, contaminar os mananciais subterrâneos?
Nava – Eu sempre falo que é como se você oferecesse algum ente da sua família fazer uma cirurgia com um açougueiro. Porque um açougueiro ele é hábil em cortar a carne, mas ele não é hábil em suturar e fazer os procedimentos todos. Então furar um poço de forma artesanal é a mesma coisa que você fazer uma cirurgia com um açougueiro. Não é o técnico responsável. Por isso as pessoas tem que procurar um geólogo, que é um técnico especialista nesse tipo de perfuração porque não existe tecnologia hoje para limpar um aquífero (formação ou grupo de formações geológicas que pode armazenar água subterrânea). Se houver algum contaminante que entre pelo posso e vá até o aquífero não há como purificá-lo.

JC – Há registro de algum aquífero que tenha sido contaminado de forma irreversível?
Nava – Há casos, por exemplo, de aquíferos nos Estados Unidos, que por eles utilizarem em época de nevada muito sal nas estradas; esse sal derretia a neve e essa água entrava com sal para dentro do aquífero e salgou muito desses aquíferos. Então a água que antes era boa ficou uma água salobra. A mesma coisa é um poço aberto sem a responsabilidade técnica, pode-se estar abrindo uma ferida onde um contaminante qualquer que entre por aquele poço fique no aquífero e nós não temos hoje tecnologia no mundo para fazer uma limpeza de um aquífero. No Amazonas, muito desses poços são rasos, mal construídos e se estão perto de fossas, de igarapés, que já são fontes contaminantes a céu aberto, o que vai acontecer se furar sem amparo técnico, essa água muito provavelmente pode estar vindo da própria relação com o igarapé e da fossa próxima. E a pessoa e familiares podem estar tomando água de aparência cristalina, mas com coliformes fecais, trazendo doenças e consequências graves para a saúde pública.

JC – Como a Secretaria de Recursos Hídricos age nesses casos e como alertar a população?
Nava – Este é um exercício de fiscalização e muito mais de responsabilidade da sociedade em saber o quê ela está fazendo: perfurar poço é uma obra de engenharia por isso há um controle pelo Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Amazonas) dessas obras. Existe uma RT (responsabilidade técnica) que o profissional tem que elaborar para essa obra de engenharia. Esse é nosso alerta: não contratem o Disk Poço, primeiro procurem um bom profissional, credenciado e qualquer dúvida ligue para a secretaria através do número (92) 3642-4544, ou ligue no Crea (92) 2125-7124 que também é órgão de fiscalização para essa obra de engenharia, para que nós tenhamos realmente uma diminuição dessa grande quantidade de poços que são alternativas baratas, mas que podem sair muito caras para toda a sociedade.

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