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Um século para Kissinger

Breno Rodrigo de Messias Leite*

O século XX foi o tempo das mais radicais e profundas experiências da história humana. De início, o século viu a Paz Armada converter-se, em algumas décadas, na Grande Guerra no coração do velho continente; os subjugados pelo esquema colonial pegarem em armas contra os senhores imperiais; as utopias transformarem-se em regimes políticos, deificados em formas de ideologia e, assim, convertidos em tiranias que aniquilaram o próximo em nome do bem da própria humanidade. O século XX, por outro lado, trouxe abundância material e prosperidade econômica para uma população cada vez maior. A universalização da acumulação de capital permitiu um acelerado desenvolvimento tecnológico; aumento da expectativa de vida; e bem-estar social para determinada parte do mundo. O regime democrático produziu uma megaconversão, transformando indivíduos em eleitores; expandiu, enfim, os pilares da ordem jurídica, das liberdades públicas e individuais. 

Este século, cheio de ambiguidades e paradoxos, “problemático y febril”, foi o século de Kissinger.

  1. O homem

Nascido na aldeia bávara de Fürth, no dia 27 de maio de 1923, Heinz Alfred Kissinger, ainda criança, por conta da crescente radicalização dos nazistas contra a comunidade judaica na Alemanha, foge com a sua família para os EUA. Só na América foi que o Heinz bávaro virou o Henry nova-iorquino. As antigas angústias e inseguranças da Alemanha enlouquecida do Terceiro Reich foram substituídas pela esperança cosmopolita e pela integração à vida comunitária em Manhattan. Em 1943, na Carolina do Norte, realiza treinamento básico, um curso militar intensivo e torna-se finalmente cidadão norte-americano naturalizado. Incorporado às Forças Armadas, o soldado Kissinger participou dos esforços militares norte-americanos no continente europeu, sobretudo na sua terra natal, onde fora intérprete e agente de inteligência. Kissinger encerra a sua aventura militar na Europa e volta para os EUA em 1947.   

  1. O acadêmico

Kissinger teve uma bem-sucedida carreira acadêmica como estudante e professor. Iniciou a sua carreira universitária em Harvard em 1947, ano de seu retorno da guerra. Diplomou-se em três anos, obteve seu mestrado em dois anos e o seu doutorado em outros dois. Nas palavras de William Yandell Elliott, seu mestre, Kissinger era “uma inteligência incomum e original”. Afinal, “ele tinha queda por filosofia política. Não era como esses estúpidos behavioristas que transformam tudo numa questão de e/ou… Não era cego diante da natureza épica da História. Não era cego diante da Bíblia. Compreendia os fundamentos da História.” É daí que nasce a preocupação acadêmica de Kissinger pela História como ferramenta de análise e como instrumento de poder. A sua visão de mundo é inteiramente moldada pelos imperativos da realpolitik bismarckiana, ou seja, o poder como força e base da história das nações. No exame de Kissinger, o poder não é bom nem mal, mas fundamentalmente neutro, afinal ele pode ser usado tanto para causar catástrofes como para evitá-las; tanto para edificar nações como para destruí-las. Esta é a grande lição da História.

Como estudioso da política internacional, dos seus conflitos e dos seus processos de paz, Kissinger concentrou a sua atenção na história europeia, sobretudo no “período de paz que durou quase cem anos.” O Congresso de Viena (1814/1815) foi uma realização histórica sem precedentes, pois produziu uma ordem internacional europeia equilibrada, uma política de estabilidade hegemônica e um efetivo controle das guerras e das revoluções que por tanto tempo abalaram a Europa. A Razão de Sistema iniciada na Europa mudou profundamente os fundamentos da diplomacia. E tal mudança foi promovida pelos estadistas, imbuídos pelos ideais da paz europeia, da razão humana e da ordem restauradora. A história da diplomacia pode ser dividida, portanto, num antes e depois do austríaco Klemens von Metternich e do britânico Robert Stewart, o visconde de Castlereagh.   

Foi com nos seus estudos acadêmicos que Kissinger deu um retoque especial à doutrina realista das Relações Internacional. Kissinger reformulou as premissas do realismo político nos seus próprios termos, na qual implicações psicológicas e racionais tomam forma e conteúdo na concretização dos eventos históricos. Em outras palavras, estadistas fazem a história e a história forja os estadistas. Este é certamente o substrato do realismo neoclássico de Kissinger.

O acadêmico Henry Kissinger foi um autor prolífico e suas obras sempre estiveram entre as mais lidas pelos estudiosos da política internacional. Da extensa lista, destaco: O Mundo Restaurado: Metternich, Castlereagh e os problemas da paz (1957), Armas Nucleares e Política Exterior (1957), A Necessidade da Escolha: prospectos da política externa americana (1961), A Parceria Difícil: uma reavaliação da Aliança Atlântica (1965), Política Externa America: três ensaios (1969), Diplomacia (1994), América precisa de uma Política Externa? Uma diplomacia para o século XXI (2001), Sobre a China (2011), Ordem Mundial (2014) e Liderança: seis estudos sobre estratégia mundial (2022).

Dos meus estudos da obra de Kissinger, duas em especial impactaram a minha formação: Diplomacia e Sobre a China.

Diplomacia, obra de 1994, é um estudo clássico da evolução da política internacional nos últimos duzentos anos. A obra contempla o período de formação do Concerto Europeu através do Congresso de Viena, logo após as tragédias causadas pelas guerras napoleônicas, até o começo da década de 1990, com o fim da União Soviética e início da hegemonia norte-americana. O exame histórico abarca os conflitos armados, as resoluções de paz, as estratégias aplicadas pelos estadistas. O realismo histórico de Kissinger não ignora o fator humano, a psicologia dos homens de Estado, o mindset do processo decisório na definição da guerra e da paz. De modo que a Diplomacia de Kissinger segue os passos de O Príncipe de Maquiavel e faz um verdadeiro mergulho na alma dos estadistas.

Sobre a China, obra publicada em 2011, é um livro não só sobre a China, a sua história e a sua ascensão na política internacional, mas também sobre quem negociou olhos nos olhos com Mao Tsé-tung, Zhou Enlai, Deng Xiaoping, os arquitetos da China contemporânea. A história e a memória se confundem numa das melhores obras já escritas sobre a China no ocidente. Kissinger mostra como a civilização chinesa conseguiu se reerguer e ganhar protagonismo na política internacional depois de ter sido retalhada e subjugada pelas potências imperiais durante mais cem anos.

  1. O estadista

Na peça teatral As Mãos Sujas, Jean-Paul Sartre expõe com muita clareza as contradições e a natureza do poder. No diálogo entre um personagem idealista e outro pragmático, assinala um dos personagens da dramaturgia existencialista de Sartre: “Como tu prezas a tua pureza, meu filho! Que medo que tens de sujar as mãos! Pois bem, fica puro! Quem é que aproveitará com isso, e porque é que vem então meter-te conosco? A pureza é uma ideia de faquir e de monge. Vocês, os intelectuais, os anarquistas, utilizam-na como um pretexto para não fazer nada. Não fazer nada, ficar imóvel, apertar os cotovelos ao corpo, usar luvas. Pois eu tenho as mãos sujas. Até aos cotovelos. Mergulhei-as na merda e no sangue. E depois? Imaginas que se pode governar inocentemente?

O estadista Kissinger indiscutivelmente precisou colocar as suas mãos na “merda e no sangue”. E Kissinger deve ser entendido como um estadista no sentido estrito do termo: um homem de Estado. Não buscava votos ou popularidade como os políticos convencionais. Buscava, isto sim, o poder e a glória no teatro da história. Kissinger serviu a dois presidentes norte-americanos, Richard Nixon e Gerald Ford, de 1973 até 1977, como secretário de Estado, o equivalente no Brasil ao cargo de ministro das Relações Exteriores. O republicano Kissinger jamais deixou de ser um conselheiro público ou particular de outros tantos presidentes, quer de seu partido, quer dos presidentes democratas.

Durante a sua gestão, ele foi o principal arquiteto do fim das hostilidades e início das negociações para os acordos de paz que colocaram um fim na Guerra do Vietnã. Por conta de seus esforços na agenda diplomática, foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 1973. Kissinger também ajudou a promover e a aprofundar a política de détente com a União Soviética. A construção de uma coexistência pacífica entre as duas superpotências nucleares afastou, até aquele momento Guerra Fria, o risco de agressão mútua com armas estratégicas. Além do mais, Kissinger foi o homem por trás da diplomacia do ping-pong e, posteriormente, da reaproximação dos EUA com a China, consagrada no Comunicado de Xangai de 1972. Política de abertura com a China de Mao Tsé-tung tinha como foco explorar a rivalidade geopolítica entre a China e a URSS e tensão ideológica no interior do bloco comunista para, assim, isolar ainda mais a URSS na Ásia.

Kissinger também usou o poder como fator de desestabilização em outras regiões do mundo. A sua política no Oriente Médio ajudou a aprofundar as contradições e violência sectária entre as nações árabes e o governo de Israel. O apoio norte-americano ao Paquistão durante a Guerra de Independência de Bangladesh colaborou para o acirramento das tensões entre grupos muçulmanos e hindus dos dois lados da fronteira — Bangladesh e Índia, aliada da URSS. Na América do Sul, Kissinger optou pela linha-dura ao apoiar o golpe militar do general Pinochet no Chile e a Guerra Suja da Junta Militar na Argentina de modo a conter qualquer ameaça revolucionária no subcontinente. Kissinger via o Brasil como um país estratégico e fator de estabilização no corredor sul-americano. Ao lado de outras nações, o Brasil era visto como um key-country, ou seja, um país estratégico para a estabilidade regional e para os interesses norte-americanos. (Em outro momento e em outro artigo, aprofundarei a relação entre Kissinger e o Brasil).    

  1. O legado

O legado de Henry Kissinger explicita as contradições de todos os estadistas em qualquer tempo histórico. É certo que Kissinger encarnou as potencialidades e os paradoxos do assim chamado “século americano”. Vê-lo como vilão ou mocinho não faz sentido, tampouco o faz julgá-lo num tipo de tribunal da história. Kissinger foi o que foi por ter sido um homem de Estado que encarou as suas responsabilidades políticas, o seu destino e os seus demônios com consciência e altivez.

*é cientista político

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