Um Conto de Ano Novo

Na véspera de Natal recordei o belo e inesquecível Conto de Natal, do grande escritor inglês Charles Dickens. Neste texto, o autor descreve o sonho que transforma o velho rabugento, rico e avarento Scrooger em um homem generoso, humilde e fraterno. Essa estória ainda hoje é inspiradora de gestos solidários e mudanças pessoais significativas dentro do que se convenciona chamar de Espírito de Natal.

Hoje gostaria de dividir com vocês um outro sonho, imaginário, diferente, parecido. Cujo poder transformador poderia ser bem maior que o do Conto de Natal de Dickens. Uma ficção de realidade que poderia tornar-se fraternidade.

Depois das festas de Réveillon, na madrugada, o mago misterioso de nossas infâncias, apareceria em sonho com sua varinha de condão e mostraria para cada um de nós as misérias do nosso país e a fortuna e as benesses que uma minúscula minoria de menos de 10 brasileiros detém, superior aos bens materiais de cerca de 100 milhões de compatriotas. Isso mesmo, este sonho-pesadelo mostraria para todos e, de modo especial, para esta diminuta casta… A imensa desigualdade deste país tão sofrido. O contraste entre as mansões, iates, jatos, helicópteros, veículos, roupas, viagens, alimentos e bebidas de luxo… E as precaríssimas condições de moradia, saneamento, saúde, educação, alimentação, transporte, segurança e lazer dos cem milhões mais pobres do país.

Este sonho serviria não apenas para essa ínfima casta de nababos, mas para todos os demais bilionários e milionários, e também para a classe média e a parte dos pobres não miseráveis ainda um pouco acima da situação de calamidade absoluta dos mais vulneráveis. Um sonho-pesadelo para causar um verdadeiro choque de consciência coletiva de quem vive num país tão belo e, ao mesmo tempo, tão horrorosamente injusto e desumano. Neste paradigmático onírico, todos veríamos a violência da miséria exposta de modo nu e cru diante da opulência dos bilionários, da vida fastigiosa dos mais aquinhoados, do relativo conforto da classe média e do alívio dos pobres não miseráveis. Neste sonho coletivo, a aparição de um Anjo Celeste iluminando os cenários físicos e os conflitos de vida e morte por territórios do crime, das doenças, das calamidades e todas as tragédias potencializadas por estarem dentro do contexto dos excluídos.

 Ao acordarmos deste pesadelo, despertaríamos dentro do próprio estado de consciência revelador de nossas profundas e indecentes marcas de um país tão injusto e desigual. Teríamos a certeza real deste cenário de horror e maldade muitas vezes disfarçado pela propaganda que esconde e camufla a dor das crianças com fome, das mães desesperadas, dos pais humilhados, dos idosos abandonados, dos moradores de rua, dos conviventes com os esgotos à céu aberto, dos mendicantes por um teto, por um emprego, por um prato de comida… Diante de tantos desperdícios e da falta de compaixão dos mais poderosos.

 Caso este sonho de Ano Novo ocorra, é provável o ressurgimento do Espírito de Natal no concreto das nossas vidas…Detentores de cargos públicos de remunerações elevadíssimas propondo o congelamento ou até a diminuição de suas vantagens pecuniárias e o fim dos privilégios; rentistas usufruidores das vantagens dos altos juros decidindo investir de verdade em empreendimentos geradores de emprego e renda; bilionários e milionários doando parte de suas fortunas para atividades efetivas de impulsionamento do bem estar social, da geração de empregos e do desenvolvimento sustentável; governantes e políticos deixando de colocar em primeiro lugar seus próprios interesses e elegendo os interesses coletivos como prioridade.

 Estou sonhando de olhos abertos agora. Mas não perco a Esperança de que a maioria dos brasileiros desperte para a ignomínia predominante no nosso país. E os verdadeiros patriotas e cristãos não se deixem enganar mais pelos lobos em pele de cordeiro, sejam de esquerda, de direita, do centrão. Assumam-se como verdadeiros cidadãos e não se omitam diante de Deus e do próximo.

 Desejo a todos um 2022 abençoado de amor, saúde, justiça, fraternidade e verdadeira alegria.

Compartilhe:​

Qual sua opinião? Deixe seu comentário