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         “Tragédia no Javari: lições para um verdadeiro patriotismo”

Bruno Pereira e Dom Phillips foram assassinados barbaramente. O indigenista da Funai e o jornalista inglês foram vítimas de bandidos que se instalaram no Alto Solimões, mais precisamente na Tríplice Fronteira. Bandidos travestidos de madeireiros, pescadores, extratores, provavelmente associados ao tráfico de drogas. Vítimas indefesas de pessoas gananciosas e cruéis, sem escrúpulos, sem limites morais. Seus executores estão presos, resta a suspeita de mais um comparsa e a grande indagação sobre quem seriam os mandantes. Eles eram dois homens a serviço da humanidade, com valores éticos que os aproximavam. Bruno Pereira, focado nas questões indigenistas, na defesa dos povos indígenas do Vale do Javari. Dom Phillips, respeitado jornalista investigativo, se ocupava da vida e dos problemas dos chamados “povos da floresta”: além dos indígenas, os extrativistas, os  garimpeiros, os agricultores… 

Bruno Pereira e Dom Phillips passam a compor uma trágica lista de mártires da Amazônia, como Chico Mendes e Irmã Dorothy, dentre tantos outros. Pessoas que ousaram contrariar os interesses de gente graúda e não se submeteram ao poder de quem coloca o desejo de lucro acima do respeito à vida, dos homens e da natureza. Essa ganância assassina tem sido acobertada por autoridades públicas que deveriam proteger os mais vulneráveis –e seus defensores -, mas preferem se deixar cooptar pelos poderosos da ilegalidade. Alguns desses episódios obtiveram repercussão internacional e, nestes casos, autoridades policiais se empenharam para desvendar os crimes e apontar os culpados. Nesse sentido, o  assassinato de Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, foi emblemático, por sua expressiva repercussão e a pressão internacional para descobrir e punir os culpados, o que acabou acontecendo. Mas há muitas mortes de “heróis” da floresta que nunca foram elucidadas, por conta de sua menor repercussão e menor pressão da opinião pública sobre as autoridades responsáveis por investigações e julgamentos de criminosos.

Em 6 de setembro de 2019, por exemplo, o colaborador da Funai, Maxciel Pereira dos Santos, foi assassinado à queima roupa, em plena luz do dia, numa avenida de Tabatinga. Este crime teve uma repercussão relativamente pequena e até hoje não foi elucidado. É provável que se a Polícia Federal tivesse obtido um desempenho melhor nesse episódio, isso tivesse inibido os criminosos que deram cabo das vidas de Bruno Pereira e Dom Phillips.

Fico impressionado com a miopia –para não dizer cegueira – de quem tenta culpar as vítimas por terem sido capturadas, torturadas, mortas, esquartejadas. Como se fossem culpados da barbárie que lhes vitimou. Trata-se de uma ignorância torpe desconhecer a importância de coibir as atividades predatórias do meio ambiente, especialmente na Amazônia, ainda mais quando ameaçam e atingem nossos irmãos indígenas, como no Vale do Javari, onde vivem tantas tribos de povos originários e, mais próximo da cidade de Atalaia do Norte, ribeirinhos humildes e sofridos, acossados pelo tráfico e outras atividades ilícitas, à exemplo do que ocorre em outros munícipios da região do Alto Solimões.

Ser patriota, para mim, não é fazer bravatas desprovidas de bom senso e de amor aos brasileiros da Amazônia. Ser patriota significa, para começar, reconhecer o valor e os direitos dos povos originários do Brasil, aqueles que já habitavam nossas florestas antes da chegada dos portugueses e outros europeus… Significa menos ufanismo de “fachada” e mais ação efetiva para desenvolver de modo sustentável a Amazônia, promovendo o bem-estar, a segurança e a cidadania dos indígenas e não indígenas que habitam a Hileia, ao invés de estimular sua opressão, degradação e destruição. E não se trata da intocabilidade da Amazônia, até mesmo porque os próprios indígenas sempre utilizaram seus recursos naturais, mas de modo inteligente e regenerativo. 

Ser patriota na Amazônia é cobrar a recuperação do espírito indigenista de brasilidade que, a partir da primeira etapa liderada por Marechal Rondon, derivou na saga dos irmãos Villas Boas, na sua parceria exitosa com os povos indígenas do Xingu, resultante num significativo exemplo de preservação do meio ambiente e dos direitos dessas populações. Ser patriota é defender o reaparelhamento e dinamização, com novos quadros e instrumentos adequados de trabalho, não apenas da Funai, mas também da Polícia Federal e do Ibama na área de fronteira. Ser patriota é lutar pela soberania, liberdade e dignidade dos brasileiros que vivem na faixa de fronteira com outros países, protegendo-os e defendendo-os da violência promovida ou patrocinada por estrangeiros e maus brasileiros.

Bruno Pereira morreu como herói dos bons brasileiros, os que realmente amam e trabalham para tornar nosso país uma verdadeira Nação e não uma “república de bananas”. Dom Phillips, mesmo tendo nascido num país estrangeiro, acaba se tornando também um herói da nossa Pátria, por seu amor e dedicação aos brasileiros mais vulneráveis da Amazônia, indígenas e não indígenas.

Eles partiram para a Eternidade. Para que sua morte não seja em vão, é necessário que os brasileiros de bom caráter e valores éticos, lutem por um país que respeite seu povo, principalmente a camada mais pobre e fragilizada da população. 

Amor, Verdade, Liberdade e Dignidade acima –e para -todos nós. Deus não compactua com o crime, com as mentiras, a hipocrisia e o falso moralismo de quem prefere defender os criminosos ao invés de suas vítimas. 

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