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Soltar papagaios uma prática global

É verão, o céu azul, poucas nuvens, um vento generoso. De repente lá em cima os papagaios flechando, trançando, quedando. Cá em baixo a molecada empinando, correndo a pegar os quedandos, ou a estender a linha, zero, um, dois zeros, ou finas até oito ou dezesseis, entre os postes lambuzando cerol e enrolando o fio nas maçarocas depois de secar. Pronto, eis mais um dia de botar papagaio, não sendo raro terminar em conflito, basta alguém traiçoeiramente “dar na mão” do outro que ainda não estava pronto pra trançar, ou mesmo um acidente com cerol o que tem sido coibido peças autoridades                              

O vidro moído, colhido dos trilhos donde se colocava vidraria e se esperava o bonde passar, recolhendo tipo pó depois. Mas havia um ou outro motorneiro implicante que quando via os cacos nos trilhos reduzia a marcha do bonde, pegava a lança, apetrecho dos bondes, e ia devargarzinho afastando os vidros do trilho. Uns chatos, mas não contavam com a esperteza dos moleques que já sabiam quem eram os caras e aí punham os cacos nos dois trilhos de uma só vez, de modo que os ranzinzas não podiam fazer a maldade total.  Alguns desistiam e passavam direto, até que deixaram em paz de vez, conquanto o uso do cerol tenha sido questionado, como se antecipou linhas acima.                                    

Irresistível não lembrar algo da cultura em torno da prática de soltar papagaios, sobremodo a nomenclatura, a saber: trançar, rabiola, curica, banda-de-asa; tala najá e de buriti; barrigueira; peitoral; vidro moído; cola branca; famão; xambêta; discair; rabiola de papel ou de trapos; maçaroca; carretel; dar na mão; cortar e aparar etc.

Os conflitos, melhor dizer logo as porradas, se davam com as turmas das diversas ruas da cidade. No caso, visto a posição do vento leste/oeste, a propósito quando o pessoal da Jonatas Pedroza, origem do vento, atrás da Major Gabriel, traiçoeiramente dava na mão destes, que por sua vez faziam o mesmo com os empinadores da Joaquim Nabuco, que também alcançavam os da Getúlio Vargas. Pronto. Formavam-se turbas que se encontravam na Sete de Setembro, cujo palco da luta era a Primeira Ponte até chegarem reforços para ajudar a guarda do Palácio Negro que não dava conta de apartar, sobrando sopapos também para estes 4 ou 5 soldados.

Mas é hora de justificar o porquê da brincadeira de papagaio ter esse caráter global, como anotado. É que embora seja uma prática presente em países do mundo ocidental, supõe-se, chamou a atenção o que se passa no distante Afeganistão como palco de um livro consagrado tratando do assunto, da autoria de Khaled Hosseini, intitulado o Caçador de Pipas, em que o autor relata todas as violências ocorridas nos seu país, mas dando como a salvo a cultura das pipas. “Grande sucesso da literatura mundial, aclamado pela crítica e pelo público … teve seus direitos de edição vendidos para 29 países …”

Relata: “O campeonato de pipas era uma velha tradição de inverno no Afeganistão. O torneio começava de manhã cedo e só acabava quando a pia vencedora fosse a única ainda voando no céu … as pessoas se amontoavam pelas calçadas e pelos telhados, torcendo pelos filhos. As ruas ficavam repletas de competidores, tentando ficar em condições de cortar a pipa do adversário. Todo pipeiro tinha um assistente que ficava segurando o carretel (a maçaroca) e controlando a linha. As regras eram simples: não havia regras. Empine a sua pipa. Corte a dos adversários. E sorte.” Isso sem o poder do regime Talibã na cultura das pipas. (Conclusão).

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