REDAÇÃO CIENTÍFICA: ALÉM DAS FRONTEIRAS

Daniel Nascimento-e-Silva, PhD

Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

Temos falado que a ciência tem dois tipos de desafios bem básicos. Um é o preenchimento de lacunas; e o outro é a expansão de suas fronteiras. Não há necessariamente primazia de um sobre o outro, de maneira que é tão importante uma pequena contribuição para o preenchimento de lacunas quanto grandes e ousadas expansões de fronteiras. Se esses são os dois desafios fundamentais da ciência, nada mais natural de que as redações científicas focassem especificamente um ou outro deles. Disso advém o fato de que toda redação científica ou é o relato de preenchimento de lacunas ou de comunicação de expansão de fronteiras. Mas o que é um lacuna científica? O que é uma fronteira científica? Não há uma forma consensual tanto sobre a identificação de uma ou de outra quanto na forma de apresentá-la. O método científico-tecnológico tem maneiras diferentes de lidar com cada uma dessa situações. Por essa razão, os formatos de redações aqui recomendados seguirão os ditames desse método, começando pelo desafio de comunicar expansões de fronteiras do conhecimento.

A ciência expande suas fronteiras, de forma geral, de duas maneiras. A primeira é relativa a uma teoria em particular. Uma teoria é um conjunto de explicações, proposições, definições conceituais e operacionais, princípios e hipóteses acerca de um determinado fenômeno. Note que uma teoria, portanto, é quase que um pequeno universo, com diversos aspectos que se conectam, que conversam entre si. A aprendizagem humana, por exemplo, é um fenômeno. Há várias teorias sobre a aprendizagem humana. Uma delas é a teoria da carga cognitiva, proposta por John Sweller, cujo desafio é a construção de arquiteturas cognitivas humanas. Essa teoria abarca explicações sobre design instrucional, o uso de recursos digitais para provocar a aprendizagem humana, ambientes de aprendizagem, quantidade de informações passíveis de serem aprendidas, memória de trabalho, memória de longo prazo, esquemas cognitivos, cargas de armazenamento (intrínseca, irrelevante e relevante), dentre inúmeras outras. A expansão de fronteiras, nas teorias, quase sempre se dá com a “descoberta” de um novo aspecto considerado fundamental para que a teoria se conforme ainda mais com o que acontece com a realidade. Dito de outra forma, a expansão é a incorporação de novas realidades aos elementos do conjunto que a teoria já tem mapeado.

A segunda é relativa a um campo teórico. Grosso modo, pode-se considerar um campo como um espaço constituído por um determinado fenômeno. Tome-se o caso da aprendizagem. Há o caso da aprendizagem humana, mas também há a aprendizagem de máquina e a aprendizagem animal. Há inúmeras teorias sobre a aprendizagem humana, assim como há diversas outras sobre a aprendizagem de máquina e a aprendizagem animal. Podemos tomar todo o campo da aprendizagem como um campo teórico, da mesma forma que podemos fazê-lo em relação à aprendizagem de máquina e aprendizagem animal. Quem estuda aprendizagem como um fenômeno global, está interessado em todo tipo de aprendizagem e seu campo de estudo é maior. Quem se dedica à aprendizagem de máquina tem seu foco mais especificado, seu campo é menor.

Nas comunicações científicas, portanto, deve estar claro, primeiro na introdução, se a expansão vai ser comunicada em relação a uma teoria ou a um campo teórico (amplo ou menor). Em seguida, essa contribuição é confirmada na revisão da literatura, que é o local onde deve ser demonstrada a fronteira atualmente existente naquela teoria ou campo teórico, e onde vai ser dada a expansão. A terceira parte onde a expansão vai aparecer é na metodologia, que sempre deve apresentar as questões norteadoras e hipóteses centradas justamente nos principais meandros da expansão. Nos resultados são apresentadas as evidências empíricas coletadas para as questões norteadoras e hipóteses, que depois serão comparadas com o quadro teórico, para confirmar que realmente a fronteira foi expandida e que a nova incorporação ajuda a compreender com mais adequação a teoria ou o campo teórico. Na conclusão, por sua vez, haverá a redação reversa que se dá na introdução, que começa apresentando a descoberta, prossegue com os impactos nos principais aspectos da teoria ou do campo teórico e termina com a recontextualização apresentada na redação da introdução. Na verdade, primeiro é redigida a conclusão e somente depois, a introdução.

O método científico-tecnológico apresenta uma maneira relativamente menos complexa de marcar a expansão de fronteiras. E ela se dá de forma mais precisa nos termos de equivalência, que compõem as estruturas das questões conceituais. Esses termos, somados, configuram todo o espectro “visível” do fenômeno sob investigação. Por exemplo, quando se diz que planejamento é um método, sistema, mecanismo, processo, estrutura e adequação está-se dizendo que aquele fenômeno é percebido dessa forma. Como consequência, quem o vê como sistema vai apresentar entradas, transformações, saídas e retroalimentações como seus elementos componentes. Eles compõem o todo do fenômeno sob esse prisma. Uma forma de expansão seria demonstrar, por exemplo, que o “ambiente de operação” é um componente sistêmico de planejamento. A teoria de planejamento se expandiu porque incorporou mais um elemento ao seu campo explicativo – e, naturalmente, novos conceitos, hipóteses, proposições, princípios etc.

A redação das expansões do conhecimento têm o desafio de mostrar que coisa nova foi acrescentada para além das fronteiras do que é conhecido em relação a uma teoria ou campo teórico. Quando Einstein elaborou o efeito fotoelétrico uniu duas coisas que aparentemente impossível para a época: ondas e partículas. A criação desse campo teórico foi a consequência natural das expansões de fronteiras de ambas as teorias da época. Em termos de ensino tecnológico, por exemplo, uma das fronteiras que clama por expansão é a incorporação das descobertas das neurociências na configuração de um novo campo.

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