Que país é esse?

*Augusto Bernardo Cecílio

   Pichação e pichadores destoam das boas práticas, mas existem os que gostam, toleram ou que não tomam nenhuma atitude para acabar com essa prática nociva à sociedade, tão deplorável quanto às falcatruas que fazem sumir o dinheiro público.

   Em anos anteriores, foi impossível não ver que alguém sujou a parede de um prédio público com a frase “Que país é esse?”, além de palavrões não publicáveis. Esse texto é dedicado a esse vândalo, tentando responder à sua indagação.

   Esse é o país onde pessoas como esse sujeito ajudam a destruir, sem saber que para recuperar os prédios e logradouros públicos se gasta dinheiro do povo, e que para se promover as mudanças necessárias não precisamos de nenhuma destruição, e sim do voto consciente e responsável, além de respeitar o resultado das urnas. 

   Observe que cada vez mais estão emporcalhando Manaus, com tinta, cartazes com propaganda, sem nenhuma punição tornada pública. Os viadutos são os mais visados, bastando filmar ou ficar de tocaia para pegar os malfeitores. Por lá encontramos colagens que oferecem até empréstimos e “serviços espirituais” que prometem trazer o seu amor de volta. Basta ver o entorno do antigo Detran ou o viaduto próximo ao Olímpico, só pra ficarmos em dois exemplos.

   Esse é o país onde os poderosos das finanças e da política conseguem contratar as melhores bancas de advogados para suas defesas, e onde a população fica descrente do desfecho final de uma investigação. Tornozeleira eletrônica é até muito leve para muitos casos.

    Esse é o país onde a demagogia e o populismo imperam, onde as “peixadas” valem mais do que o mérito e a competência. Onde o que uma autoridade fala em campanha se desfaz depois da vitória. Onde o descrédito da classe política interfere na decisão dos jovens, que assumirão os destinos da nação já envelhecida.

   Esse é o país onde, talvez, a Copa do Mundo e as Olimpíadas tenham deixado o menor legado em termos de instalações, infraestrutura básica, mobilidade urbana e segurança pública, com assustadores custos na construção de estádios, em contraste com hospitais Brasil afora, quando gestantes percorrem vários locais em busca de leitos, por exemplo, ou com o que presenciamos durante a pandemia.

   Esse é o país que toma como referência práticas políticas ultrapassadas, de países que prezam pela ditadura, pelo endurecimento no trato com ideias diferentes, pela tentativa de calar a imprensa ou aparelhar o judiciário e o legislativo, como ocorre em alguns pontos do mundo.

   Esse é o país onde os professores precisam se envolver em greves – basta ver nos noticiários – para fazer valer ou salvar alguns direitos, mesmo quando a educação foi uma das palavras mais repetidas pelos candidatos. E eles são a base para a verdadeira transformação do Brasil. 

   Em muitos casos, moradores expressam indignação por meio de manifestações públicas após alguma tragédia e são reprimidos agressivamente. Trabalhadores que fazem passeatas, também.

   Em contrapartida, pessoas, empresários e movimentos atrelados politicamente se movimentam com desenvoltura entre os que detêm o poder, extrapolam em vários aspectos, cometem crimes e não são punidos por nada. Agora vá você, isoladamente, quebrar uma janela de um prédio público para ver o que acontece: será preso, indiciado e terá o seu nome estampado em todos os jornais. Esse é o Brasil. Falta punição exemplar.

*Auditor fiscal e professor. E-mail: [email protected]

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