“Princípios e valores inegociáveis”

Numa reunião em Nova Olinda do Norte, Carol Braz observou uma moça vestindo uma camiseta com a seguinte frase: princípios e valores inegociáveis. Foi marcante para nós que aquela jovem humilde do interior estivesse portando a mensagem essencial para qualquer pessoa de bom caráter ter como lema na sua existência. Ou seja, há coisas muito importantes, imateriais, que podem e devem nos diferenciar como seres humanos: nem tudo pode estar à venda, como se a própria dignidade se tornasse uma mera mercadoria. Acredito que a moça portando os dizeres de um comportamento digno possa inspirar a nossa reflexão de hoje.

Os princípios éticos e valores morais insculpidos no nosso caráter devem nos distinguir, para o bem. Se efetivamente fazem parte da nossa capacidade de decidir e de agir, podem ser nossa garantia de que não nos permitiremos fazer qualquer coisa por mero interesse de obter vantagens. Haverá um limitador direto aos desejos hedonistas, à ganância por bens materiais, às aspirações do luxo e da luxúria, à sede de prestígio e de poder… Se no nosso ser consciente vivenciamos princípios e valores inegociáveis, certamente eles nos influenciarão nas nossas atitudes pessoais, familiares e sociais. E subentende-se aqui se tratar de uma ética de conduta para o bem, para a verdade, para a solidariedade, para o respeito e o amor com nosso próximo, seja ele quem for. Uma capacidade de pensar e agir com sentido no que é correto, ainda que desagrade aos outros, ainda que nos desagrade no afã de satisfazer um desejo pessoal.

Penso que cabe aqui uma contextualização do que pode significar uma ética de conduta voltada para o Bem e não para o mal. De fato, as primeiras lições vêm – ou deveriam vir – da família. Em seguida, de um ambiente social mais amplo: professores, amigos, colegas de estudo ou de trabalho, parceiros em outras atividades sociais, como esportes, artes e cultura, lazer, etc. Além disso, leituras de livros e outros textos e a contribuição, que pode ser positiva ou negativa, dos meios de comunicação e da ambiência social comunitária mais ampla. Acrescente-se as práticas religiosas, espirituais, filosóficas e ideológicas.  Todos esses fatores são importantes na formação de caráter de um ser humano. Mas a intensidade de sua influência irá variar de pessoa para pessoa, face às diferenças biológicas e psíquicas de cada um, bem como os acontecimentos externos que podem ser decisivos: doenças, acidentes, agressões e, ainda, as oportunidades advindas de pessoas e/ou instituições e outras contingências do “destino”. No entanto, acredito que as maiores influências na formação dos nossos princípios e valores estão mesmo na família, nos amigos verdadeiros, nos bons professores, nas práticas sociais mais ou menos saudáveis, nas vivências religiosas ou espirituais, nos relacionamentos com o Amor que nos habita, por Deus ou por uma fé filosófica humanista, nos nossos semelhantes e na própria Natureza. No caldinho de nossa formação ética e moral, os pais, demais familiares e outras pessoas especiais, como os professores vocacionados para a verdadeira Educação, costumam ser os mais decisivos. Ou pelo menos eram, antes do advento maciço e avassalador do uso da internet, que suplanta até a influência dos meios de comunicação tradicional junto aos mais jovens. Mesmo assim os pais, a família e a escola não devem se permitir perder a liderança na formação do caráter de nossas crianças e adolescentes.

No entanto, a frase expressa na camiseta da moça do interior, para mim remete muito, muito mais, ao que aprendemos das pessoas que mais nos amam ou nos amaram: os nossos pais. E alguns outros seres humanos especiais que nos guiam espiritualmente na vida, com suas lições, como Jesus Cristo, o personagem mais impressionante da História da Humanidade, que ensinou a Boa Nova do Amor como Caminho de Salvação. Pena que as lições de casa, da escola e da Igreja, podem ser esquecidas pela ganância, o egoísmo e a vaidade, que nos retiram a essencialidade de viver bons relacionamentos e nos remetem à vontade de possuir, de ter, de dominar, de impor, de tentar inutilmente comprar a felicidade, que não está na posse utilitária dos bens materiais. 

Na esfera pública, em qualquer segmento, parece indispensável que as pessoas que agem com honestidade de propósitos se unam pelo bem comum. Servidores públicos desonestos, que enriquecem à custa de práticas ilícitas e imorais, parecem ter esquecido os princípios e valores que deveriam nortear e limitar suas condutas. Políticos, ainda mais, porque devem ser servidores públicos essenciais, não somente por sua responsabilidade de influenciar a gestão das políticas públicas e as normas sociais e econômicas da sociedade, mas também porque são portadores de um dever representativo de defender a justiça, a solidariedade, os direitos humanos, a probidade, a coerência ideológica e o primado da ética sobre as próprias ambições.

E não adianta aqui reclamar de novo das lamentáveis práticas do “Centrão” fisiológico, corrupto e corruptor, que predominam no cenário político brasileiro há décadas. Enquanto “direita” e “esquerda” se digladiam, são esses políticos eleitos para o Congresso Nacional que de fato controlam o modelo de gestão pública e as verbas orçamentárias, inclusive pelo uso e abuso das famigeradas emendas secretas. Sim, de que adianta reclamar desses que são os falsos representantes do povo brasileiro, se o próprio povo não se libertar do voto comprado por dinheiro, outras vantagens e promessas ilusórias? Essa escravidão política terminará quando a absoluta maioria de nossa população observar que há princípios e valores inegociáveis, dentre eles não vender sua dignidade e entregar sua própria liberdade nas mãos de quem não possui mais princípios e valores para o bem comum.

Que os dizeres da camiseta da jovem do interior nos inspirem a honrar pai e mãe, a honrar nossa fé cristã, e não nos permitirmos ser moeda de troca de poderosos líderes farisaicos, astuciosos e sem escrúpulos… Que nossos princípios e valores sejam mesmo, de verdade, inegociáveis.

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