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Parasita vampiresco

Num reduto feudal bem longe da Transilvânia habitava uma comunidade dividida por dois espécimes emblemáticos. No centro do território havia uma cidadela guarnecida por uma robusta muralha que conferia segurança e distinção aos privilegiados moradores, que, aliás, nutriam-se exclusivamente do sangue das pessoas que viviam do lado de fora da fortificação. O sangue dos pobres coitados fornecia energia e poder aos senhores feudais que criavam, executavam e julgavam as leis. As sanguessugas não plantavam nem colhiam nem fabricavam nem transportavam nem nada; suas atribuições eram focadas no inchaço da máquina burocrática para justificar a existência de tanta gente sugando o sangue dos verdadeiros trabalhadores. Esse pessoal no topo do poder institucional era ávido por mais e mais sangue. Eles estocavam sangue, desviavam sangue, desperdiçavam sangue, aumentando assim a demanda pela vitalidade retirada das pessoas que verdadeiramente trabalhavam nessa comunidade. Curiosamente, o povo explorado era vinte vezes mais numeroso e esparramado por uma área gigantesca que circundava a fortaleza vampiresca. Semanalmente, cada morador adulto era obrigado a fornecer um litro de sangue para os senhores feudais. Essa era a lei. 

A rotina seguia num ritmo sacrificante, mas suportável, até que um terremoto destruiu os casebres do entorno da cidadela, mas não provocou nenhum arranhão nas fortíssimas construções vampirescas. E para completar a desgraceira, uma densa chuva de granizo dizimou as plantações, acabando assim com toda fonte de sustento de muitas famílias. As sanguessugas sentiram o tremor e viram do alto das suas torres a população pobre gritando em meio ao desespero por tantas perdas. Como não comiam frutas, nem verduras, nem cereais nem nada de origem vegetal, os vampiros não se preocuparam com a catástrofe alimentar dos pobres escravizados. O governo parasita ignorou a fome dos servos vegetarianos e assim não diminuiu a demanda de sangue que deveria ingressar nos tanques (cofres) públicos. Ou seja, o povo pálido de fome continuou obrigado a retirar das veias o pouco de sangue que os mantinha vivos. Essa lei draconiana provocou um morticínio generalizado e, como resultado, o governador Wladevilzon exigiu que os sobreviventes compensassem o desfalque com mais sangue por habitante.

Apesar do poder opressivo, os vampiros possuíam uma fragilidade notória. Ou seja, alho, crucifixo e água-benta dissolviam os vampiros e até mesmo os portões da cidadela. Mas, curiosamente, ninguém era capaz de organizar um levante popular que desse fim a tanto sofrimento. E os vampiros sabiam desse bloqueio psicológico dos explorados. Por tal motivo continuavam implacáveis nas extorsões sanguinárias (fiscais) para manter suas mordomias e suas depravações. 

Pois é. Continuamos abalados pelo furacão apocalíptico que parece se dissipar com o incremento da vacinação. Mesmo assim, levaremos muito tempo para reconstruir patrimônios a partir dos escombros. Aparentemente, voltamos à rotina normal de trabalho, onde observamos trânsito intenso e agitação no centro da cidade. Na verdade, o clima de normalidade é fruto de esforços hercúleos para manter o entusiasmo diante dum cenário nebuloso e preocupante. As pessoas do ramo de eventos continuam no olho do furacão, sem trabalho e sem perspectiva nenhuma. A pandemia prejudicou seriamente as estruturas do setor privado, que vem fazendo das tripas coração para se manter vivo e para pagar os altíssimos impostos que são impiedosamente cobrados pela Sefaz. É bom lembrar que a Sefaz se manteve implacável até mesmo no auge da pandemia, onde não aliviou pra ninguém. Prova disso, foi a taxação de 18% sobre o ovo de galinha, que era isento desde 1975. O empresariado amazonense sacrificou o próprio negócio para pagar ICMS. O que não poderia acontecer de forma nenhuma era reduzir minimamente os salários astronômicos do funcionalismo amazonense e nem também poderia ser reduzido os gastos com extravagâncias e com esquemas de corrupção. Afinal de contas, o papel do contribuinte é se matar pra garantir o luxo e a depravação do alto funcionalismo. 

Por outro lado, o poder público inteiro toca sua rotina completamente alheio à chuva de calamidades que desabaram no setor privado. Enquanto pessoas morreram de fome impedidas de trabalhar pelos lockdowns, o funcionalismo não foi minimamente abalado pela Covid-19. Na verdade, os órgãos públicos ficaram fechados por muitos meses, mas o salário dos servidores estava todo mês na conta de quem estava em casa no bem bom. Esse pessoal que acordava tarde não tem a mínima noção do desespero vivido pelos trabalhadores do setor privado. Mesmo por que, esse pessoal vive numa outra galáxia. 

Enquanto o trabalhador do setor produtivo perdeu renda e patrimônio, ninguém do setor público perdeu absolutamente nada; nem mesmo os super salários foram diminuídos, como por exemplo, o salário do corregedor-geral do Ministério Público de Mato Grosso, Hélio Faust (R$ 173.703,94) e do procurador-geral de Justiça, José Antônio Borges, (R$ 167.834,55). (Gazeta Digital 17/01/2020). 

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