O aumento do acúmulo de lixo nas ruas e igarapés (parte1)

Você sabia que o Brasil é 4o maior gerador de lixo do planeta, cuja taxa de reciclagem está abaixo da média global? Você tem sentido o aumento de acúmulo de lixo em Manaus, tanto nas ruas quanto nos igarapés? Por que isso ocorre? 

Segundo o dicionário Michaelis, uma das definições da palavra lixo é “resíduo resultante das atividades comerciais, domésticas, industriais, etc que não presta e é jogado fora”. Além disso, ele pode ser classificado quanto à sua fonte: domiciliar, comercial, industrial, de serviço de saúde, radioativo, espacial, etc. Também pode-se classificá-lo quanto ao tipo: orgânico que tem origem animal e rapidamente se decompõe; e o inorgânico, cuja origem é intrinsecamente humana e demora muito mais tempo para se decompor, tais como os eletrônicos (pilhas, celulares, computadores) ou sólidos (os plásticos, metais, vidro, pneus, lâmpadas, etc…).

O lixo, especialmente o inorgânico, é resultado da atividade humana, intensificado desde a Revolução Industrial. Segundo um relatório publicado em 2018 pelo Banco Mundial <https://bit.ly/3LLP05k>, se medidas urgentes não forem tomadas, o lixo global sólido aumentará em 69%, saltando de 2,01 bilhões de toneladas em 2016 para 3,4 bilhões de toneladas em 2050. Para se ter ideia, apenas os plásticos representaram em 2016 cerca de 242 milhões de toneladas, 12% de todo lixo sólido municipal.

Outro estudo divulgado em 2019 pela WWF <https://bit.ly/3p4tkI9> revelou que nosso país é o quarto maior produtor de lixo no planeta (11,3 milhões de toneladas; apenas 1,28% foram reciclados), perdendo apenas para EUA, China, e Índia. Além disso, este relatório relembrou que segundo o Banco Mundial, na nossa pátria, mais de 2,4 milhões de toneladas de plásticos são descartadas sem tratamento, em muitos casos a céu aberto ou em lixões.

Localmente, para tentar entender o nível de conhecimento e interesse dos moradores de Manaus sobre cidades inteligentes, bem como sobre sua percepção em relação aos principais problemas ambientais da cidade, do dia 8/12/21 até 31/1/22, foi aplicado eletronicamente, via redes sociais, um questionário com várias perguntas, o qual foi corretamente respondido por 1060 moradores de vários bairros da cidade. Em relação aos principais problemas ambientais, dentre 17 alternativas oferecidas, os três que mais incomodam são: 1o) Aumento da poluição dos igarapés/rios (818 respondentes; 77,2%); 2o) Aumento do acúmulo do lixo nas ruas (654; 61,7%) e 3o) Arborização urbana insuficiente (523; 49,3%).

Em relação aos dois primeiros problemas, por que eles ocorrem? De uma forma bem simples, diria que é uma questão comportamental, pois em nossa cidade, diariamente testemunhamos atitudes incorretas, do mais pobre ao mais rico, que contribuem para o aumento do acúmulo do lixo, tanto nas ruas, quanto nos igarapés.  As atitudes mais comuns são: 

1) os responsáveis das casas, mercadinhos, ou outros tipos de empreendimentos não instalam caixa externa coletora de lixo. Ora cada residência é uma fábrica de lixo, especialmente na cozinha, onde se processam os alimentos no dia a dia. Além disso, cada empreendimento, independente do seu tamanho ou atividade, gera impactos sociais, econômicos e ambientais na comunidade. Por conta disso, cada empreendedor ou chefe da residência deveria ter uma caixa coletora no lado externo para descartar o lixo corretamente em no máximo uma hora antes do carro coletor passar;

2) em plena luz do dia, por preguiça, parcela dos moradores e dos empreendedores que não possui caixa coletora externa, simplesmente joga o lixo diretamente na caixa dos outros, nas calçadas, ruas, postes, nos esgotos ou nos igarapés. Se nada for feito, teremos alagações mais intensas, aumento da poluição dos mananciais, mais fedor e potenciais surtos de dengue, disenteria, leptospirose, cólera, febre amarela, etc. Além de criar inimizades, também afugenta clientes, turistas e investidores ao longo do tempo, e dificilmente eles dirão aos sujões porque perderam o interesse pelo empreendimento ou cidade;

3) o descarte, tanto na lixeira externa quanto nas lixeiras viciadas, é feito em horário totalmente distante do momento em que o carro coletor passa;

4) moradores abandonam seus gatos e cachorros nas ruas, os quais junto com ratos, moscas e até humanos, ficam mexendo no lixo, espalhando-os no local;

5) há também motoqueiros e motoristas que sem a menor vergonha jogam o lixo pelas janelas de seus veículos, sem contar transeuntes que consomem qualquer coisa e jogam no chão, desde cascas de bombom até garrafas de cachaça;

6) o coletor de lixo quando passa nem sempre coleta todo o lixo que foi deixado, tanto na caixa coletora quanto nas lixeiras viciadas;

7) há os furtos das caixas coletoras com ladrões impunes;

8) somando tudo isso, as águas das chuvas arrastam todo o lixo descartado irregularmente, deixando rastros de muita sujeira e fedor pelas ruas e até nas casas. E o pior de tudo, é o morador se acostumar passivamente com a sujeira, como se fosse algo aceitável, normal. 

Para ilustrar, no domingo (20) fiz uma amostragem em uma das ruas mais antigas de Petrópolis, R. Raquel, de ponta a outra, foi contabilizado o número de lixeiras existentes em frente das residências ou dos empreendimentos (posto de gasolina, drogarias, lojas, mercearias, padarias, restaurantes, dentista, lava jato, etc). O resultado é vergonhoso, foram identificados 104 imóveis, dos quais 54 (52%) são residências e 50 (48%) são empreendimentos. Entre os 104 imóveis, a maioria (88; 84,6%) não tinha lixeira externa, apenas 16 (15,4%) as colocaram: 4 pertencentes aos empreendimentos (8%) e 12 (22%) das residências. 

Além disso, foram identificados quatro pontos de lixeiras viciadas, perto de posto de gasolina, dos órgãos do governo, os quais deixam a rua muito desleixada por conta de receber boa parte do lixo desses moradores, bem como dos que vivem nos becos por onde o coletor de lixo não passa. Particularmente, creio que essa realidade não seja muito diferente em muitas ruas periféricas de Manaus.

Finalmente, há tantas formas de enfrentar esses problemas, mas individualmente é preciso mudar de atitude. No próximo artigo abordarei sobre boas práticas que transformam o lixo e beneficiam a população, o município, o meio ambiente, geram energia, melhoram a alimentação, o bem-estar, a arborização, o emprego e renda. Até lá o(a) convido a assistir  “O lixo nosso de cada dia”  <https://bit.ly/3sRLZYJ>, uma reflexão sobre a relação da sociedade com o lixo produzido.

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