O Melô do Cara Coroa (1)

Os serviços jurídicos do escritório voltam-se para causas empresariais. Mas por indicação irrecusável calhou de obrigar-se certa vez a atender questão de separação matrimonial de cunho judicial, do interesse de marido insatisfeito com a vida conjugal rotineira que vinha levando já há mais de vinte anos e tomado por irresistível paixão que lhe apareceu sem que o procurasse, chegou a confidenciar.

Não custa creditar-se no rico empresário, digo cliente, seguido de um abraço solidário, ora ora, venha a nós o vosso reino. Quer dizer, a bem de reforçar os laços do contrato de prestação de serviços com a fábrica de sua propriedade, a propósito de notável faturamento com as exportações, além de valiosas vendas no mercado interno.

Sucede, que não passe daqui, mas parece que está havendo uma notória epidemia dessa ordem, quem sabe provinda do sex appeal que grassa por aí já há algum tempo e que tem se acentuado por conta de toda sorte de apelos que se derramam por todo lado, não? Se bem que o queixoso sempre pareceu a alheio às tentações do gênero, a começar pele indiferença única em direção a uma secretária que se mostra no expediente de trabalho trajando uma minissaia “daquelas”.

Geralmente o desarranjo acontece por volta acima dos 40 anos, ou seja exatamente na chamada idade da razão. Aí, brota uma insatisfação generalizada que alcança as coisas e pessoas compondo a rotina que costuma modificar-se. Disso vem um questionamento também amplo que se pode debruçar sobre os manejos da profissão, seus almejos, o modo de se vestir, o comer, o lazer e, se não for “uma vez flamengo…”, até mesmo sobre a preferência esportiva. É sério, acredite-se…

Vivendo essa emocionalidade toda, acontece que a auto-indagação mais importante que começou a acometer nosso consulente é se vale ou não a pena continuar casado, dada a rotina que se instalou. Em geral essa crítica resulta na escolha do não. Dá-se que vitorioso o “não”, começa então toda a sorte de terrorismo para desmontar o lar que costuma ser substituído pelo “bar doce bar”, ou locais festivos equivalentes e tudo o mais que ali se oferece, como bem se sabe.

Para amparar a decisão separatista o cara coroa costuma esgrimar em casa com o que lhe parecer conveniente nesse sentido em busca de um desfecho amigável. Cita o exemplos das novelas e seus temas no que for interessante à sua causa, bem entendido, sem esquecer de acenar com o que seria o valor da divisão de bens, mais uma valiosa pensão. Adicionalmente aconselha a leitura de uma literatura do tipo “Arte de Separar-se”, um best-seller de certo escritor italiano. Não tem como esse livro!

Já se sabe que amparando essa onda toda esteja alguém de plantão bem ali, na expectativa do desfecho com o coração na mão… ou outro órgão do corpo. Paciência, tinha que acabar acontecendo se não há previdência e providências a respeito. A esse frenesi todo os estudiosos dizem que o ocorrido atende como climatério que corresponde mais menos a menopausa no sexo feminino. Não se garante se os sexos do meio tem suas inquietações típicas. Alguma coisa como climapausa ou quem sabe menotério. Não vem ao caso, não há propósito de citar nenhum despropósito. Separado, de fato ou de direito, o cara coroa experimenta então uma especial de fase de liberdade. A princípio não sabe bem o que fazer com essa espécie de leveza, mas consumista já que é elo da sociedade de consumo (Continua).

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