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Língua mãe e língua madrasta II

Todas as línguas vivas sofrem mutações pelos mais diversos motivos. A língua de origem é muitas vezes invadida por vocábulos alheios que com o tempo vão sendo incorporados e acaba-se aceitando como se sempre estivessem aí. Com a comunicação acelerada e a oportunidade de assistirmos programas de outros países, isto fica mais saliente. Nas regiões de fronteira, onde a influência externa está mais próxima, cria-se uma linguagem própria que os visitantes estranham.  Onde há muitos imigrantes de outras línguas, a conversa diária inclui palavras que não se encontram na língua de origem, nem na local. Nem falemos das traduções errôneas que colocam “justificar” como sinônimo de “ajustar”, mas daqueles vocábulos que são introduzidos pelo uso constante e modificam a língua local.

Os imigrantes de língua alemã que vieram da Alemanha, Áustria, Suíça e até de alguma região da Bélgica ou Itália não aprenderam os vocábulos e expressões que surgiram na terra natal depois de sua saída. Registre-se que na língua mãe já havia dialetos muito diferentes entre si. Lembremos também que nem todos os imigrantes eram letrados, portanto muitos ignoravam a maneira gramatical de se comunicar. A isto tudo junta-se o fato que aqueles que aqui aportaram tiveram de lidar com imigrantes de outras regiões, com o português oficial e com muitos vocábulos indígenas. O mesmo aconteceu com os portugueses, que no início da colonização procuraram se manter fiéis à matriz e, com isso, implantaram a linguagem. Embora houvesse uma época em que se ventilou a possibilidade de adotar a língua tupi como segundo idioma. No Paraguai ainda está sendo usado o espanhol e o guarani. 

Existem algumas pessoas que levianamente afirmam que diferenças regionais acontecem apenas no Brasil. No velho mundo, a Suíça ainda faz questão de manter quatro idiomas oficiais, sendo predominantes o alemão, italiano e francês. O reto-romanche, também de origem latina, é falado por poucos, mas faz parte. Situação parecida existe na Bélgica. Nos Montes Tiroleses, na Itália, a língua falada é a alemã. Nos Estados Unidos as influências do alemão, espanhol e francês foram deixadas de lado e se elegeu o  inglês e ponto final.

No sul do Brasil, onde se estima que seis milhões de pessoas ainda falem ou entendem o que convencionou-se chamar de hunriquiano, referência a Hunsrüek (Renânia e Palatinado) de onde veio grande parte dos imigrantes alemães. Interessante é verificar que na região da Pensilvânia, Estados Unidos, também esta língua (nunca oficializada em nenhum país) é muito falada. Lá, com introdução de palavras e sotaque inglês e aqui, com palavras e sotaque português. Muitos falantes desta língua acreditam ser alemão. Embora alguém de língua alemã possa entendê-los, as variações são enormes.

Voltemos às variações do português europeu e do brasileiro. As diferenças não são apenas de pronúncia ou na troca do gerúndio pelo infinitivo. O termo camisola, que para os portugueses é qualquer camiseta, no Brasil é o vestiário feminino para dormir. No Brasil ninguém fica “pedrado”, mas com ressaca. Também não nos metemos em “sarilhos”, mas em problemas. Nesta linha de pensamento, os que se distanciaram da sua origem, têm mais fidelidade com a língua mãe do que aqueles que ficaram. Por que? Porque aqueles que ficaram se sentem donos dela e a modificam a bel prazer. Por outro lado, nós fazemos adaptações baseados na nossa maneira de falar. Isso é fato, ou facto? (Luiz Lauschner)

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