La Niña e a cheia de grande magnitude

Tenho acompanhado o monitoramento do La Niña pelo NOAA-CPC (National Oceanic and Atmospheric Administration, Climate Prediction Center). No manifesto divulgado em 09 de dezembro último, há 95% de chance de seus efeitos (fenômeno climático) continuarem influenciando o trimestre (dezembro-janeiro-fevereiro) e, 60%, de permanecer até maio de 2022.

Isso implica que no ciclo das águas, nossa natural estação das chuvas, já vigorosa, deverá receber uma quantidade de chuva acima das médias registradas, que implicará em 2022, na perspectiva de uma cheia de grande magnitude, inclusive, e, possivelmente, maior que 2021. 

Somos controlados pelas águas em nosso território. Então, é tempo de somar esforços para que produções nas várzeas não se percam, marombas sejam planejadas e levantadas, populações atingidas sejam assistidas… ações públicas e privadas, coordenadas, previnam antes de remediar.

La Niña e El Niño são expressões naturais climáticas resultantes de combinações entre o oceano e a atmosfera, onde anomalias das temperaturas da superfície do oceano e da circulação atmosférica, podem resultar em extremos climáticos no Brasil e em partes do mundo.  

Na bacia amazônica brasileira, com a baixa das temperaturas da superfície das águas do Oceano Pacífico (La Niña), ocorrem mudanças significativas nos padrões de precipitação, que, ampliados, mantêm, para cima, os valores médios das cotas dos rios no período de sua enchente, que, em Manaus, finda no mês de maio/junho/julho de cada ano.

Se 22 no bingo é “cantado” como “dois patinhos na lagoa”, não faltará água em 2022 nos ecossistemas lacustres amazônicos, na calha do “rio mar” e em seus tributários.

Se a logística fluvial é favorecida, importante será o trabalho das defesas civis municipais e estadual no mapeamento das áreas de risco ocupadas; das secretarias municipais e estadual da produção, nas atividades de extensão rural ao enfrentamento de mais um evento crítico; das secretarias municipais e estadual de planejamento e da fazenda, no provimento de recursos orçamentários dedicados à cheia de 2022 que se avizinha.

Se a tendência nos acredita a força das mudanças climáticas, ainda não resolvemos como tratar o tema água no Brasil. Transversal às atividades produtivas diversas, atualmente, tratamos a Meteorologia dentro do ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; água e saneamento, no ministério do Desenvolvimento Regional; recursos hídricos, no ministério de Minas e Energia. Já foi pior… quando a Política Nacional de Recursos Hídricos era um apêndice do Meio Ambiente.

A governança das águas nos estados e municípios espelha a mesma dispersão de investimentos, conhecimento e resultados do modelo federal, muito pela fragmentação gerencial do Ciclo da Água que vige, em todas as suas fases, processos, aspectos e impactos. 

Falta-nos um Pacto Federativo e Social que incorpore ações coordenadas, compreendidas no conceito da transversalidade dos recursos hídricos. 

Se as cidades (pequenas ou metrópoles) e suas populações sofrem cada vez mais, indefesas (os casos recentes na Bahia e Minas Gerais, no passado, em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro…), os riscos mapeados ou mapeáveis devem conjugar muito mais que o sentimento de solidariedade e assistencialismo.

Se reconhecemos, cientificamente, que mananciais/reservatórios enchem, secam ou podem secar; que, tempestades se formam, caem e são previsíveis, até que ponto nossas populações têm tido acesso a esse conhecimento?

Não seria bom receber em seu celular uma mensagem instantânea informando que uma tempestade se aproxima? Ou, um alerta prevendo uma cheia de magnitude elevada, então, se prepare…

O agronegócio, os bancos de financiamento fazem deste conhecimento parte de seus lucros. Nossa UEA produz conhecimento e forma recursos humanos…

Até quando vamos continuar “não olhando para cima”?

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