Facilidades da cozinha

Aquele que tem 50 anos ou mais deve lembrar-se que a classificação de carnes e outros alimentos sempre está mais detalhada e prática. Peças de carne bovina eram separadas no açougue a pedido do cliente. Não era mais a classificação simplória do “com osso ou sem osso” mas estava longe das facilidades de hoje. O frango já tinha uma separação de “com ou sem miúdos”. Aliás, os únicos itens que eram possíveis de serem comprados separados eram o coração e a moela.  Hoje em dia, além da coxa e sobrecoxa, pode-se comprar o dorso, peito,  coxinha de asa e meio de asa. Isso é bom para o abatedouro e para o consumidor. Não é raro encontrar partes que custam o dobro em quilo que do frango comprado inteiro.

Se descobrirem uma utilidade para a pele de frango, em pouco tempo estaremos comprando estas mesmas partes sem ela, com uma tremenda propaganda de como elas são mais saudáveis. Antigamente se usava a gordura do frango (tirada também da pele) para manutenção sem ferrugem de ferramentas e armas. Quando você toma um café sem cafeína, que é vendido como o mais saudável, não se iluda. A indústria farmacêutica paga bom preço pela cafeína pura. A torrefadora lucra mais com a cafeína que com o próprio café. Da mesma forma que certos miúdos de frango, como o coração, são vendidos pelo dobro do preço da própria galinha. 

Porém não é apenas na proteína que existem as facilidades. A safra de muitos produtos comestíveis é sazonal, de outros, não. Ainda existem aqueles que a tecnologia tornou possíveis de serem plantados em qualquer época do ano. Isso é possível com os legumes, mas não com a maioria das frutas. Tubérculos e raízes também podem ser “colhidos” durante todo o ano. Claro que existem algumas diferenças na quantidade de oferta. A batata, conhecida como portuguesa ou inglesa, que na verdade teve sua origem no Peru, tem uma variedade tão grande que mal se nota a sazonalidade dela. 

As consequências dessas facilidades são vistas em todo mundo. Hoje, o número de pessoas que faz regime ou tratamento para comer menos é maior que aqueles para quem faltam alimentos. Em tese, ninguém mais precisaria passar fome no mundo. Mas a distribuição de alimentos não é homogênea. Matematicamente pode-se dizer que as frutas que apodrecem na Amazônia poderiam acabar com a fome do mundo. Porém não existe possibilidade de colher, manter e transportar essas frutas. 

Temos tantas facilidades em nossa cozinha que nos esquecemos de que muitos não têm o básico. As discussões em torno de comidas, pratos sofisticados, saudáveis etc  só acontece onde existe fartura e se pode variar. Nesse ambiente prosperam os modos de preparo e até de economia. Felizmente o mundo está produzindo alimentos com rapidez maior que a população cresce. Enquanto uns discutem a maneira mais gostosa de preparar um filé, outros ficariam felizes com uma sopa de ossos. Isso se aplica igualmente à vestimenta, agasalho e moradia. 

 Quem sabe, não possamos diminuir a dificuldade dos que hoje não têm possibilidade de escolha?(Luiz Lauschner)

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