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Experiências com a culinária indígena

Minha primeira experiência com a culinária indígena foi em uma comunidade colombiana na fronteira com o Brasil, em maio de 2011. 

Acompanhava um encontro internacional de representações indígenas colombianas, brasileiras, canadenses e norte-americanas que discutiam experiências internacionais de diversos arranjos produtivos (indústria pesqueira, de geração de energia, infraestrutura, de mineração, etc) em Terras Indígenas, no momento em que se debatia a criação do Parque Nacional YAIGOJÉ-APAPORIS naquela região da Amazônia colombiana.

A reunião teve apoio do exército colombiano, considerando a segurança dos participantes frente ao domínio local das atividades das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC.

Foi um marco profissional pessoal, acompanhar diversos relatos e debates de parentes e ancestrais ameríndios, como a do líder indígena Pete Esquiro (CEO de uma importante indústria do pescado no Alaska – EUA); Jerry Asp, representante de comunidades indígenas da região canadense de Yukon, presidente de uma associação que reúne indústrias de mineração e energia no Canadá; da líder Sharon Mc Leod, que dirigia uma instituição de ensino especializada na formação indígena profissionalizante e superior, na região da British Columbia (Canadá)… todos dotados de legislações em seus países que garantem o pleno direito ao exercício do trabalho e de suas produções, tradicionais, ou capitalistas.

Após o encontro, fomos brindados por um “brunch” indígena preparado pela comunidade anfitriã, uma iguaria de ‘peixe puquecado e beiju’, servido a todos de forma justa.

Naquela margem direita do rio Traraira-Apaporis, reconheci que o tempero indígena trazia mais que sabor… a tradição, ancestralidade e cultura tinham gosto de excelência e simplicidade no prato.

No último sábado (12), revivi a experiência das boas lembranças da culinária tradicional, indo almoçar na Casa de Cozinha Indígena Biatüwi, localizada na rua Bernardo Ramos 97, centro antigo de Manaus. 

O prédio histórico da época áurea da borracha foi revitalizado pelo trabalho do casal Clarinda Maria Ramos, representante indígena do povo Sateré-Mawé (região do rio Andirá, município de Barreirinha), e de seu esposo, João Paulo Lima Barreto, da etnia Tukano (São Gabriel da Cachoeira). 

João Paulo é antropólogo e gestor do projeto do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, que funciona no mesmo espaço.

Lendo a história do nascimento do projeto, que oferece consultas de saúde a partir do trabalho dos Kumuã (pajés), são reconhecidos o conflito e o preconceito existente entre a medicina formal e a tradicional… a menina indígena do Alto Rio Negro, picada por uma jararaca, trazida à Manaus e condenada pela medicina formal ao procedimento de amputação de uma das pernas… seu avô, Ovídio Lemos Barreto, também Kumu (pajé), solicitou autorização para usar medicina indígena em apoio ao tratamento e evitar que sua neta de 12 anos perdesse um dos seus membros.

A resposta contundente do médico responsável deu o tom da negativa, justificada: “eu estudei oito anos para decidir o que era melhor à paciente, enquanto o avô, pajé, não tinha estudado nenhum dia”.

A rebeldia familiar garantiu que a jovem fosse transferida para outro hospital e o tratamento, conjunto, permitiu que a jovem guerreira, hoje com 25 anos, voltasse para a comunidade em São Gabriel da Cachoeira, com os dois pés e, naturalmente, com sequelas naturais do acidente ofídio. 

Assim, nascia o Centro de Medicina Indígena Bahserikowi.

O ambiente acolhedor da Casa de Cozinha Indígena dá o toque do atendimento quase que particular. O velho casarão, pé direito alto, arejado e ventilado, banheiros confortáveis, acessíveis e limpos, nos fazem experimentar os temperos indígenas com aquele sabor de “casa da gente”.

Como havia reservado com antecedência, em poucos minutos, degustava uma banda de tambaqui assado, acompanhado de fatias de beiju, farofa de formiga, farinha, molho, limão e banana assada. 

O prato serve bem uma família de três pessoas. Minha sugestão: acrescente ao pedido algum caldo apimentado (‘Biatu’ de tambaqui, ‘Biatu’ vegana, ou ‘Mujeca”) e/ou porções extras de formigas torradas – ‘Sahai’ (formiga saúva inteira) e ‘Maniwara’ (formiga maniwara inteira).

Mesmo com a casa cheia tive a sorte de receber em minha mesa a chef Clarinda. Ela nos explicou, detalhadamente, sobre os temperos usados, o modo de preparo, seus fornecedores e cuidados com a higiene e manutenção predial, deixando ainda mais arrebatadora minha experiência.

Se você ficou com ‘água na boca’, segue o contato para reservas: (92) 98832-8408. A Casa da Cozinha Indígena funciona para almoço, de quinta-feira a sábado, com os cuidados naturais do período pandêmico.

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