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Esquerda e direita

Foram raros os momentos da história política do Brasil em que se presenciou um acirramento tão forte no debate entre esquerda e direita.

Estas duas classificações políticas nasceram do dia seguinte a queda da Bastilha, na França, nos idos de 1789. Na grande Assembleia Nacional, jacobinos e girondinos rivalizavam projetos para o futuro da Revolução Francesa. À esquerda, os jacobinos defendiam o aprofundamento e a radicalização do processo revolucionário recém inaugurado. Já à esquerda, os girondinos e outros grupos minoritários defendiam a cautela e os princípios de ordem.

A luta entre jacobinos (liberais radicais) e girondinos (conservadores), décadas depois, converteu-se em incontáveis mutações políticas em luta entre comunistas e anarquistas, liberal-conservadores e comunistas, comunistas e fascistas, liberais e social-democratas e tutti quanti, que perduram até o século XXI.

O filósofo político italiano Norberto Bobbio, em seu clássico Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política, aponta para a seguinte taxionomia: a esquerda prioriza a igualdade, a sociedade e as revolução, ao passo que a direita defenda a liberdade, o indivíduo e a ordem.

A bandeira da igualdade é cara à Revolução Francesa, pois filósofos como Jean-Jacques Rousseau, Michel de Montaigne, Erasmo de Roterdã e Thomas More, além dos românticos franceses e alemães, bem como os cristãos naturalistas (como Bartolomeu de Las Casas), já sinalizavam a necessidade dos ideais de justiça igualitária entre os homens.

A defesa da sociedade ou dos grupos que a constituem, não o agregado de indivíduos (uma multidão), e sim a massa, os grupos e as classes sociais constitutivas, torna-se um dogma na lógica esquerdista. O homem-coletivo, o homem-massa, o homem social, agora, são importantes para se repensar os dilemas do egoísmo, da vontade geral e da produção e reprodução da base material da sociedade.

A revolução é a catarse coletiva no vocabulário da esquerda. É o ápice da purificação de toda a sociedade e do homem. O propósito de toda revolução é sempre recriar o cosmos, transformando toda a ordem existente. Uma nova sociedade para um novo homem, e vice-versa.

O catecismo da direita versa por outros valores e princípios de sociedade. Quando os direitistas falam em liberdade assumem necessariamente um conceito polissêmico. O liberalismo clássico, inaugurado por John Locke, expressa os desígnios de uma liberdade do indivíduo. Os republicanos, por sua vez, falam em liberdades públicas. Séculos mais tarde, Isaiah Berlin expressara a diferença entre liberdades negativas (não coação do Estado) e liberdades positivas (livre participação do indivíduo na produção da ordem pública).

A própria ideia burguesa de indivíduo e de individualidade só podem ser assegurados pelo princípio de ordem constitucional e jurídica. O sentido de ordem aqui expresso é o de ordem legal, ou seja, de um Estado de Direito coeso e universalmente legitimado. O Estado de Direito e extensão e aplicação de suas leis inibem os conflitos sociais, políticos e econômicos. Daí a necessidade vital de uma ordem jurídica estável.

Conceitualmente, estabelecer uma diferença entre esquerda e direita não é um empreendimento fácil. No artigo da semana que vem, pretendo usar experiências históricas para tentar explicar melhor a aplicação histórica destas duas palavrinhas: esquerda e direita.

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