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Efeitos climáticos: Cheias, Secas, Calor e Fumaças

Manaus volta a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas com mais uma seca histórica, dias quentes e enfumaçados, com a qualidade do ar em níveis prejudiciais à saúde. O artigo apresenta estatísticas sobre nossas secas e enchentes, as ações humanas agravantes e convida o(a) leitor(a) a conhecer as possíveis localizações dos focos de calor que estão tornando o ar irrespirável na capital amazônica.

Nos últimos anos, a população que vive no Amazonas tem testemunhado eventos climáticos severos, sofrendo com as ações predatórias do homem, bem como com os efeitos das enchentes ou das secas.

Do ponto de vista histórico, de longo prazo, se analisarmos os valores de cada cota (metro) máxima (enchente) e cota mínima (vazante) do nível do Rio Negro medidos desde 1902 até os dias atuais pela equipe do Porto de Manaus <https://tinyurl.com/3w4uwh3t>, chegaremos aos seguintes números:

a) Os valores médios e medianos da cota máxima são 27,93m (desvio padrão da população Sp= 1,16) e 28,11 (Sp=1,88), respectivamente.

b) Em relação ao comportamento das enchentes, o nível médio mais alto ocorreu nas décadas mais recentes, de 2010 e 2020, com 28,90 e 29,43 metros, respectivamente.

Até o momento, o ano de 2021 foi o que registrou o maior valor histórico de enchente do Rio Negro (30,02m). Após 2021, as dez maiores cheias foram em 2012 (29,97m), 2009 (29,77m), 2022 (29,75m), 1953 (29,69m), 2015 (29,66m), 1976 (29,61m), 2014 (29,5m) e 2019 (29,42m).

Houve uma tendência geral de aumento no nível médio ao longo do período, com algumas flutuações. A média dos níveis na década de 2010 (2010 a 2019) está quase um metro (0,97m) acima da média geral e está cerca de 1,24 metros mais alta do que no início do século 20.

E pelo visto, teremos mais enchentes severas pela frente, pois a média (29,43m) dos anos iniciais da década de 2020 (2020, 2021 e 2022) está 1,49m acima da média geral, bem como 0,53 metros acima da média dos anos de 2010 e 1,76m acima dos anos de 1900. Assim, os níveis mais altos nas últimas décadas sugerem que pode estar havendo impactos das mudanças climáticas sobre nossa região, com mais chuvas na bacia amazônica levando a níveis mais altos do Rio Negro.

c) Em relação ao comportamento das secas, o nível mínimo mais baixo ocorreu na década mais recente, de 2020, com uma média de 16,23 metros, cerca de 1,38 metros abaixo da média geral (17,6m) e 0,27 metros abaixo dos anos 1900 (16,5m), cujo período foi o segundo com menor média ao longo das décadas.

Até o momento, o ano de 2023 foi o que registrou o menor valor histórico de vazante do rio (12,7m) e depois de 2023, as dez maiores secas foram nos anos 2010 (13,63m), 1963 (13,64m), 1906 (14,2m), 1997 (14,34m), 1916 (14,42m), 1926 (14,54), 1958 (14,74), 2005 (14,75m), 1936 (19,97m) e 1998 (15,03m).

O nível mínimo mais alto ocorreu na década de 1970, atingindo 19,80 metros. Após o pico em 1970, houve uma tendência geral de queda nos níveis mínimos nas décadas seguintes, culminando nos níveis muito baixos de 2020.

A diferença entre o pico de 1970 e o mínimo de 2020 é de mais de 3 metros no nível mínimo do rio. Isso destaca o quão severas estão sendo as secas recentes.

No caso das secas, não há um padrão claro de tendência de longo prazo nos níveis médios mínimos como há para o caso médio dos níveis máximos das enchentes. Mas a queda acentuada desde 1970 até 2020 sugere um agravamento das secas na região.

c) nos anos das décadas de 2010 e 2020, têm ocorrido com mais frequência cheias extremas do Rio Negro, com 8 das onze maiores cheias acontecidas entre 2009 e 2022. Isso reforça a tese de que as enchentes excepcionais estão se tornando mais comuns. Já no mesmo período, ocorreram 3 das onze maiores secas, sendo que duas (2023 e 2010) foram as piores vazantes ao longo dos registros.

Nos últimos 20 anos houve tanto eventos de cheias extremas quanto de estiagens intensas. Isso demonstra uma tendência à irregularidade mais acentuada no regime hídrico da bacia.

Sabemos que enchentes e secas são fenômenos que acontecem há milênios, porém é preciso parar de jogar a culpa apenas no El Niño, pois há fatores relacionados à ação humana que podem agravar as enchentes e as secas, tais como:

F1) desmatamento irracional: o desmatamento reduz a absorção da água da chuva pelo solo, aumentando o escoamento superficial e a vazão dos rios durante as chuvas, piorando enchentes. Além disso, o desmatamento diminui a umidade do solo, gerando alto nível de desconforto térmico e de poluição do ar, os quais acabam agravando os períodos secos.

F2) urbanização sem planejamento sustentável: nossa cidade e seu entorno estão se expandindo de forma desordenada, sem planejamento urbano sustentável. Do pequeno ao grande empreendimento, vemos o corte das árvores, sendo substituídas por muito cimento e asfalto, gerando áreas impermeabilizadas que impedem a infiltração da água no solo, aumentando o escoamento superficial e picos de alagamentos e enchentes.

F3) descarte incorreto dos lixos: poluição das ruas e, consequentemente, dos rios, gera riscos tanto nas enchentes quanto nas secas.

F4) barragens e represamentos: podem alterar o regime hídrico dos rios, às vezes agravando inundações a jusante durante períodos chuvosos.

F5) queimadas: a queima da vegetação, para os mais diversos fins (produção de carvão, limpar terreno para agropecuária ou agricultura, renovar pastagens, extração de madeira, especulação de terras, preparo de cultivos ilícitos, expulsar animais ou populações tradicionais etc), lícitos ou ilícitos, contribui para desequilibrar o ciclo hidrológico regional, bem como para o aumento da poluição do ar.

F6) mineração: a remoção da vegetação e camada superficial do solo durante a exploração mineral aumenta a erosão. Isso resulta em maior assoreamento dos rios durante as chuvas, o que pode piorar enchentes. Além disso, grandes volumes de água são usados em alguns tipos de mineração, o que pode reduzir a vazão dos rios numa bacia, afetando a seca.

Em conclusão, há uma tendência de aumento nas enchentes extremas e de agravamento das secas históricas na região de Manaus nas últimas décadas. Além de fatores climáticos naturais, o texto aponta diversas ações humanas que estão contribuindo para intensificar esses fenômenos, como o desmatamento, a urbanização desordenada, a poluição e as queimadas. Diante desse cenário alarmante, é urgente que a sociedade, os governos e setores econômicos adotem um planejamento sustentável de longo prazo, baseado em soluções verdes, eficiência energética, reciclagem, e na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.

Por fim, convido o(a) leitor(a) a acompanhar os próximos artigos, nos quais serão reveladas as possíveis localizações de origem de toda essa fumaça que tem tornado o ar de Manaus irrespirável nos períodos de seca.

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