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Dona Marietta e o Itamaraty

A segunda década do começo do século XX trouxe à tona transformações na ordem internacional e no Brasil. A Primeira Grande Guerra (1914-1918), nas palavras do historiador Eric Hobsbawn, foi o fenômeno que deu início ao século – o “curto século XX” –, pois apresentou ao mundo todo poder militar da guerra de segunda geração, o desmoronamento dos antigos regimes europeu e otomano (monarquias absolutas e pré-constitucionais) e o surgimento de nossas potências, como o Japão, os EUA e a Rússia (URSS). O fim da grande guerra entre as nações (a maior guerra até então) e o começo da nova ordem sob a batuta da Liga das Nações apontariam as tendências gerais do que viria pela frente.

No Brasil, os desafios não seriam diferentes. A estabilização da Primeira República e a modernização econômica e política foram marcas importantes da nossa Belle Époque. A morte do barão do Rio Branco, nosso chanceler-estadista, o principal responsável pela definição das fronteiras nacionais, depois de uma década a frente da chancelaria brasileira (1910-1912), consolidou duas tendências na orientação da diplomacia brasileira. Por um lado, o legado riobranquino da tradição diplomática. Por outro, a necessidade da mudança, da inovação para os novos tempos da inserção internacional do Brasil.

A Casa de Rio Branco, o Itamaraty, é uma instituição que ao longo do tempo soube conservar a sua história em defesa dos interesses internacionais do Brasil sem, contudo, deixar de modernizar-se. E foi justamente nessa tensão entre o tradicional e o moderno que, em 1918, a instituição aceitou a primeira mulher nas suas fileiras. A história de Maria José de Castro Rebello Mendes (1891-1936), a dona Marietta Mendes, é digna de cinema. Nascida em Salvador, filha de professora, logo se interessou pelos estudos no Colégio Alemão. Foi no colégio que obteve fluência nas línguas alemã, francesa, inglesa e italiana. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, iniciou os estudos na Escola do Comércio. A afinidade com as línguas estrangeiras e os conhecimentos comerciais foram importantes na decisão de Marietta de fazer parte do corpo diplomático brasileiro. 

O segundo desafio estaria por vir. Até então, o Itamaraty não havia tido candidatas para o terceiro secretariado – a primeira classe da hierarquia diplomática. O ineditismo foi tamanho que houve a necessidade de requerer de Ruy Barbosa, conterrâneo de Marietta, um parecer jurídico. Nas palavras do iminente jurista e diplomata, a nossa Águia de Haia: reconhece “não haver na legislação patria dispositivo algum que incapacitasse as mulheres para o exercício de funções administrativas, e acrescentou estar prompto a lhe encaminhar os papeis do concurso, como realmente o fez”.

O deferimento da candidatura de Maria de Castro Mendes repercutiu nos principais órgãos de imprensa. O Jornal do Commercio carioca, agosto de 1918, assim se pronunciou: “Entre os concurrentes inscriptos foi admitida uma senhorinha que assim foi a primeira moça que obteve no Brasil o direito de participar de um concurso official para preenchimento de um cargo publico de secretaria de Estado”. A nota do periódico reproduzia a decisão favorável do chanceler Nilo Peçanha a inscrição da candidata. Nas palavras do jornal, “Sr. Ministro do Exterior estudou o assumpto em face da Constituição e do Codigo Civil e concluio, mandando inscrever a senhorinha entre os candidatos que terão de ser submettidos a concurso”. Deferimento de Nilo Peçanha aponta as qualidades técnicas e intelectuais da pioneira: “Dizem que é instruida, sabe diversas linguas, é excellente dactilographa… O concurso vai ser assim sensacional”.

O feminismo já era um movimento político relativamente forte no início do século XX, sobretudo por causa das suffragettes e da sua luta pelo direito ao voto. Todavia, Maria José de Castro Rebello Mendes não era uma adepta do feminismo. Sua vontade de fazer parte do corpo diplomático brasileira era muito mais um desafio pessoal do que uma bandeira política. Segundo um jornal da época, “não tem Mlle Maria José sympathias feministas. Confessa que não cogita de emancipação do sexo, nem jámais se preoccupou de semelhante literatura. Quer apenas trabalhar e viver, sem preferencia por este ou aquelle logar, e sim pela sua remuneração”. Em entrevista para A Revista Feminina, a nossa diplomata fez jus ao cargo ao empregar as palavras: “os jornaes dizem tanta coisa quando entrevistam uma pessoa. Aprecio immensamente a Revista e não posso ser indifferente aos problemas que interessam á nós mulheres. Ponderava, contudo: “Effectivamente meu acto, inscrevendo-me para o concurso no Ministerio do Exterior não obedece a nenhum proposito reaccionario, e muito menos o de chamar para meu nome a publicidade, que tanto me tem vexado, mas contra a qual nada posso fazer”.

O exemplo e a força de vontade de Maria José de Castro Rebello Mendes mostram que o Itamaraty é uma casa tradicional, mas não indiferentes às mudanças e transformações. É justamente a compreensão da dinâmica da permanência e da mudança que faz da casa do barão uma instituição única na história nacional e responsável pelos grandes feitos do Estado nacional vis-à-vis às suas relações exteriores. A chegada de Marietta ao ministério em 1918 foi uma conquista para toda uma geração de mulheres que sonham com a carreira diplomática.

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