Desafios na Amazônia: Hora de Acordar

O Lago de Tefé secou, os rios do Amazonas ficando intrafegáveis. A maior bacia hidrográfica do planeta minguando sob o sol, como se fosse o Nordeste árido em tempos de seca. Milhares de pessoas isoladas, sem água, sem comida. Peixes mortos, botos agonizantes, pirarucus moribundos. Fumaça cobrindo as cidades, Manaus, Rio Preto, Iranduba, Itacoatiara, às vezes impedindo os próprios moradores de saírem da própria casa. Focos de queimada e de incêndio espalhados em roçados, descampados, florestas. E ainda há quem duvide das mudanças climáticas e de seus efeitos nefastos para a Natureza e para a Humanidade. Hora de acordar e sair do negacionismo atrasado de quem não acredita na Ciência, não respeita a Criação e se ocupa apenas de ganhar dinheiro, sem se preocupar com as consequências.

Parece que a maioria dos governantes e governados não percebe o Holocausto da Natureza, que está se aproximando, pela ação ou omissão criminosa dos seres humanos. Aqui na Amazônia se evidencia uma das mais sérias e perigosas crises climáticas do planeta. A Pátria das Águas, como denominada pelo saudoso poeta Thiago de Melo, está ameaçada. Os rios que “comandam a vida” – como afirmava Leandro Tocantins- parecem agora conduzidos para o destino de secura inexorável. E a nossa gloriosa Floresta sob o risco de progressivamente se tornar uma savana… Toda imensa biodiversidade pode ser perder em poucas décadas.

Mas nesta temporada, o que vale para muitos é procurar culpados. A ministra do meio ambiente é o alvo mais fácil e equivocado, pois não há nexo causal entre sua atuação, antes e depois de ministra, como responsável por ignorar os efeitos deletérios dos gases estufa. Tampouco ela pode ser responsabilizada isoladamente pela não pavimentação da BR 319, pois sucessivos governos e ministros se sucederam e esta questão ainda está pendente de ser resolvida. É claro que a culpa é coletiva, muito mais de quem possui fartos bens e/ou posições de poder e quase nada fez ou faz para enfrentar de fato esta situação dramática, na Amazônia e em todos os países, mas com prejuízos certamente maiores para África, Ásia e América Latina. 

Os antigos sábios da natureza, pajés indígenas, curandeiros ribeirinhos, homens e mulheres de larga experiência ancestral, dizem não saber mais como prever a época das chuvas e enchentes, das estiagens e vazantes, do momento certo para preparar e semear os roçados. Esta sabedoria milenar está sendo dizimada, assim como outros valiosos saberes e bens culturais, da mesma forma que os recursos naturais. O alarme está soando, mas a maioria não percebe. Ou faz de conta porque não tem compromisso efetivo com os mais vulneráveis e com as futuras gerações. Mas ainda é tempo de acordar… Podemos sim ter desenvolvimento, emprego e renda, mas dentro de um outro modelo, de sustentabilidade. Estradas podem ser pavimentadas, madeira extraída, plantios semeados, animais criados, mas com uma nova e vigorosa forma de associar tecnologia e conservação dos recursos naturais.

Este é um tema complexo. Não serão presidente, governadores, prefeitos, empresários, juristas, cientistas, indígenas e não indígenas que isoladamente farão as mudanças de rumo necessárias na Amazônia, no Brasil e no mundo. Haverá de ser uma nova consciência política ambiental, em que a defesa da Humanidade esteja acima da ganância, da ignorância e da insensibilidade. Hora de despertar e começar a construir concretamente uma mudança estrutural da economia, fundamentada em novos comportamentos.

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