Cenários indeléveis a incorporar nos projetos de desenvolvimento e de ajuda humanitária do Amazonas

Por Juarez Baldoino da Costa(*)

Que desenvolvimento se pode esperar de uma região que anualmente se imobiliza por meses em razão de tragédias evitáveis?   

Identificadas os barrancos habitados que podem ser transformados em Terras Caídas, porque não remover esta população de imediato?

59 dos 62 municípios do Amazonas concentram população à beira de algum rio, único meio de acesso não aéreo para 50 deles a partir da capital.

Os planos e as ações para desenvolver o estado nem sempre consideram a ciclicidade hídrica da região, e por isso retardam seu avanço econômico. A agenda do poder público historicamente, raramente conseguiu ser mais rápida do que a mesmo lenta e previsível cadência das subidas e descidas das águas, para minimizar os efeitos.

Noutras regiões do país, ocorrem tragédias porque as ações da chuva e deslizamentos causam estragos em alguns minutos ou horas.

No Amazonas, no caso dos fenômenos naturais de subida e descida das águas fluviais, são necessários dias e semanas para que se transformem em problemas graves.

Da mesma forma, o resultado final do planejamento estratégico para suporte humanitário para enfrentamento destes fenômenos no estado ocorre invariavelmente sempre depois que o sofrimento da população já foi instalado, e a “emergência” passou a ser uma declaração já costumeira.

O fluxo de mercadorias em geral que permite a efetivação do que denominamos desenvolvimento, geração e distribuição de renda, tem tido interrupções que poderiam ter sido minimizadas. 

Como já são conhecidos os períodos nos quais os fenômenos ocorrerão, haveria de se prover  locais estratégicos com os suprimentos necessários e possíveis para vencer os ciclos. Esta prática não é observada, com raras exceções, como é o caso de combustíveis para os sistemas de geração de energia.

Alimentos não perecíveis, gás, medicamentos, água e congelados, entre outros, incluindo as ajudas institucionais de cestas básicas, poderiam ser estocadas preventivamente, inclusive materiais de construção e afins.

O poder público pode assegurar capital de giro para a atividade comercial tratar dos estoques.  

Com este mecanismo pode ser garantido um fluxo financeiro básico, com reflexos nas ações humanitárias, até mais importantes. 

Embora as dinâmicas da vazão das águas tenham certa autonomia entre as principais calhas dos rios do estado, elas têm relação entre si. O indicativo da cota do Rio Negro em Manaus tem relação com as demais cotas dos demais rios e pode também ser um indicativo.

Quando das cheias, a cota em Manaus pode ir a 30 m acima do nível do mar, como foi em 2021. Já em 1963, há 60 anos atrás, numa das grandes secas, esta cota atingiu 13,64 m.

A cota de ontem, 06/10, estava em 14,79 m, mas embora ainda esteja em processo de descida, desde 28/09 o nível de descida caiu de 30 cm para 11 cm por dia, indicando ter iniciada a fase de final de estiagem. 

Se são conhecidos os limites mínimos e máximos, porque não trabalhar com estas cotas para as ações estratégicas a partir de cotas preventivas que podem ser definidas pela ANA – Agencia Nacional de Águas, entre outros organismos? 

Decretos de calamidade municipais ou estaduais não precisariam ser editados a cada ocasião, atrasando as tratativas da gestão pública. Poderiam ser editados com as cotas preventivas que, se atingidas, podem ser validadas automaticamente pela própria ANA e legalizam as providencias a tomar de forma também automática.  

Quem tem fome e sede precisa comer e beber hoje! 

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(*) Amazonólogo, MSc em Sociedade e Cultura da Amazônia – UFAM, Economista, Professor de Pós-Graduação e Consultor de empresas especializado em ZFM.

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