ABORDAGEM HISTÓRICA SOBRE O PORVIR (VII)

Bosco Jackmonth*

Referindo-nos àquelas passagens trágicas postas no texto imediatamente anterior. Segue, no início de 2015 a epidemia tinha sido refreada e, em janeiro de 2016, a OMS a declarou erradicada. Sucede, o Ebola infectou 30 mil pessoas (e matou 11 mil), causou enormes perdas econômicas em toda a África Ocidental e enviou ondas de choque de ansiedade para o mundo, mas não se espalhou além daquela região da África, e sua taxa letal não chegou nem de longe à escala da gripe espanhola ou da epidemia de varíola mexicana.

O maior fracasso da medicina, aparentemente, até a tragédia da aids, nas últimas décadas pode vista como um sinal de progresso. É que desde sua primeira irrupção, no início da década de 1980, mais de 30 milhões de pessoas morreram de aids, e mais dezenas de milhões sofreram debilitação física e danos psicológicos. Significou uma epidemia difícil de entender e de tratar por ser uma doença singularmente tortuosa. Enquanto uma pessoa infectada com o vírus da varíola morre em alguns dias, um paciente HIV pode parecer perfeitamente saudável durante semanas e meses e continuar infectando outros sem saber.

Não bastasse, o próprio vírus HIV não mata. Em vez disso, destrói o sistema imunológico e, em decorrência, expõe o paciente a inúmeras outra doenças. São as doenças secundárias que efetivamente matam as vítimas da aids. Em consequência, quando essa síndrome começou a se espalhar, foi especialmente difícil compreender o que estava acontecendo. Em 1981, quando dois pacientes foram admitidos num hospital de Nova York, um ostensivamente morrendo de pneumonia, e o outro, de câncer, nada evidenciava que ambos eram vítimas do vírus do HIV, que pode tê-los infectado com meses, até mesmo anos, de antecedência.

Sucede, apesar dessas dificuldades, depois que a comunidade médica deparou-se com o novo e misterioso mal, só levou dois anos para que os cientistas o identificassem, compreendessem como o vírus de disseminava e sugerissem meios efetivos de desacelerar a epidemia. Após, mais dez anos e novos medicamentos fizeram com que a aids se transformasse, passando de uma sentença de morte para uma condição crônica (ao menos para aqueles saudáveis o bastante para serem tratados). 

Isso teria acontecido se a aids tivesse eclodido em 1581, e não em 1981? Muito provavelmente ninguém naquela época teria imaginado o que valsava a epidemia, como se transmitia de uma pessoa a outra, ou como poderia ser detida (muito menos como curá-la. Em tais condições, essa síndrome poderia ter matado proporções muito maiores da raça humana, igualando e talvez superando a Peste Negra.

Em que pese o horrendo dano causado pela aids, e a despeito dos milhões que morrem a cada ano de doenças infecciosas há muito estabelecidas, como a malária, as epidemias representam uma ameaça muito maior à saúde do homem do que representaram no milênio anterior. A imensa maioria das pessoas morre de enfermidades não infecciosas, como o câncer e doenças cardiovasculares, ou simplesmente de velhice. (A propósito, o câncer e as doenças cardiovasculares não são, é claro, doenças novas – elas remontam à Antiguidade. No passado, contudo, era relativamente reduzido o número de pessoas que viviam tempo bastante para morrer por causa delas). Teme-se, acentuadamente, que essas vitória seja apenas temporária, como se verá linhas a seguir e que algum primo desconhecido da Peste Negra esteja nos aguardando na próxima esquina.

Ninguém pode assegurar que pragas não tornarão a acontecer, mas há boas razões para acreditar que na corrida armamentista entre médicos e germes, os médicos estão na frente. Novas doenças infecciosas estão aparecendo principalmente como resultado de mutações eventuais nos genomas dos patógenos. Essas mutações permitem que os patógenos pulem dos animais para os humanos, superem o sistema imunológico humano, ou resistam a medicamentos como os antibióticos. É provável que no presente as mutações ocorram e se propaguem mais rapidamente do que no passado em face do impacto do homem sobre o meio ambiente. Mas na corrida contra a medicina, os patógenos, em última análise, dependam da mão cega da sorte. (Continua).

Advogado de empresas (OAB/AM 436). Ex funcionário do Banco do Brasil designado como Fiscal Cambial junto a agências bancárias locais, comissionado a ordem do Banco Central. Cursou Contabilidade, Comunicação Social/Jornalismo. Lecionou História. 

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