A realpolitik de Putin

Otto von Bismarck, o maior estadista do século 19, redefiniu toda política europeia nos seus próprios termos. Depois de sair vitorioso da guerra franco-prussiana, Bismarck aplicou uma sofisticada estratégia de manutenção de equilíbrio de poder no concerto europeu. A sua realpolitik consistia em combinar estratégia militar agressiva para derrotar ou conter os seus adversários (Dinamarca, Áustria e França) para depois, logrado o êxito no campo militar, adotar a via diplomática para estabelecer alianças com seus parceiros e vizinhos, a fim de tornar a Alemanha unificada o centro da diplomacia e da resolução dos conflitos no mundo europeu.

A realpolitik bismarckiana tinha como objetivo concreto a formação de um tratado de segurança mútua capaz de assegurar o equilíbrio europeu no contexto da hierarquia das grandes potências. A linha mestra da estratégia do Chanceler de Ferro foi combinar com inteligência os meios bélicos e a diplomacia, a guerra e a paz no jogo da política internacional de seu tempo. Grandes estadistas, em qualquer momento da história, tomaram decisões duras, que contrariam o senso comum e o status quo, isto é, a maneira como convencionalmente pensamos os destinos da política internacional.

A ação militar de Vladimir Putin na Ucrânia, num primeiro momento, soa irracional; aparenta ser uma decisão arbitrária, descabida e injustificável. Tal meditação tem seu fundo de verdade e os bons sentimentos humanos jamais devem ser desconsiderados no julgamento das decisões políticas. Todavia, a postura estratégica de Putin na confrontação armada contra a Ucrânia repete o modo como grandes estadistas movimentam seus países nas relações internacionais. E o movimento das potências no globo produz necessariamente turbulências, instabilidades e conflitos.

O mundo do pós-Guerra Fria nos condicionou a pensar erroneamente no esgotamento da história. A aposta liberal numa sociedade internacional orientada pelo direito, pela globalização e pelo cosmopolitismo –uma sociedade aberta, em termos popperianos –teve seu ápice no começo dos anos 90 do século passado. Uma década regida sob o signo da democratização das instituições políticas e da liberalização econômica. A via da paz perpétua pareceria caminhar a passos longos com as preocupações ambientais e a contenção da corrida nuclear; o florescimento dos direitos humanos e das identidades transformou-se em políticas de inclusão social de camadas historicamente excluídas. A utopia liberal parecia ter deixado de ser só uma utopia.

A invasão do território ucraniano por tropas russas não foi só mais uma investida militar –desprovida de senso histórico. É certo que se trata de uma linha divisória e um novo marco no jogo de alianças das potências nas relações internacionais. O declínio relativo dos EUA e a emergência do poderio chinês são movimentos que combinados dão forma e conteúdo ao mundo pós-ocidental. A pandemia de Covid-19 e este conflito armado certamente acentuam tendências e consolidam a parceria estratégica do bloco russo-chinês.

O emprego da força militar russa na Ucrânia impõe, de fato, um desafio extra para as grandes potências ocidentais, sobretudo para a superpotência vitoriosa da Guerra Fria: os EUA estarão preparados para enfrentar esse novo desafio? Os EUA serão capazes de liderar uma nova ordem internacional e os métodos da rivalidade emergente? Os EUA serão capazes de envolver o Brasil na sua parceria estratégica ou seremos vistos como uma potencial ameaça aos interesses hemisféricos da superpotência? 

A realpolitik de Putin foi uma jogada ousada no tabuleiro internacional. Aliás, foi um movimento decisivo para o futuro do sistema internacional como um todo. É possível que tal medida bélica, até o momento circunscrita na faixa leste da Europa, termine como uma guerra civil, com o esmagamento da identidade do povo ucraniano cada vez mais distante da Rússia e cada vez mais próximo do projeto europeu. Mas não podemos deixar de observar que o poderio militar russo mostrou-se, até o momento, bastante ameaçador e intimidador sem deixar de lado, contudo, o cálculo da diplomacia com as autoridades ucranianas.

*é cientista político e professor de política internacional do Diplô Manaus (curso preparatório para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, CACD). Email: [email protected]

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