As mudanças sociais e comportamentais nos últimos anos atiçadas pelo relativismo moral, o politicamente correto e o discurso da pós-modernidade, ajudaram a concretizar o que tenho chamado de psicologia dos mimados.
A psicologia dos mimados é um somatório de atitudes, comportamentos e ações que tem por objetivo privilegiar os grupos específicos em detrimento da coletividade, do bem estar geral. É um utilitarismo às avessas.
Além do mais, a psicologia dos mimados nega terminantemente a responsabilidade individual transferindo para os outros – o Estado, em geral – a responsabilidade intrínseca de cada um.
O que temos visto nos últimos anos é uma profunda alteração do comportamento dos indivíduos em sociedade provocado principalmente pela moral dos mimados.
A carta constitucional brasileira fala ilimitadamente em direitos, e muito pouco em deveres. A lei maior cria privilégios claros para os políticos, funcionários públicos, mulheres, índios, crianças, deficientes físicos e mentais, mas pouco ou nada fala do homem comum, daquele que vai pagar a conta de todos no fim do mês.
A concepção aristotélica segundo a qual se deve tratar de forma desigual os desiguais, a fim de se minimizar as desigualdades, é tratada agora à luz do lema marxista da luta de classes, ou seja, os explorados só estarão livres vis-à-vis a morte dos exploradores.
A anulação do outro para a garantia da minha existência é uma constante na imaginação revolucionária. O sacerdote materialista francês Jean Meslier assim cogita o futuro: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre“. O existencialista humanista Jean Paul Sartre, partidário de maoísmo, cuja prática política matou aproximadamente 60 milhões de pessoas, assim sentenciava: “o inferno são os outros”.
Este jogo de soma zero, onde a derrota de um implica na vitória do outro é uma trama social infindável e que tem produzido conflitos cada dia mais violentos.
A formação de grupos específicos para a demanda de privilégios específicos, muitas vezes confundidos com direitos de grupos, tem dia após dia ganhado espaço, ao passo que os direitos coletivos são marginalizados, esquecidos e transformados em arqueologia jurídica.
Uma legião de movimentos e até de partidos que reivindicam privilégios de grupo é espantoso. Haverá um tempo em que cada cidadão terá de se filiar a algum disponível no mercado dos grupos, pois só assim poderá gozar de seus direitos de, por exemplo, ingressar na universidade, nas escolas, no sistema de saúde etc.
A linguagem da psicologia dos mimados é o politicamente correto. Trata-se uma linguagem autoritária e perversa, orientada sempre para a censura moral do interlocutor. A despeito de se proteger privilégios, travestidos de “direitos” específicos, as minorias são alçadas à condição de inimputáveis, inquestionáveis, acima do bem e do mal, vítimas da sociedade, do capitalismo, ou das elites econômicas.
O politicamente correto censura o humor, a crítica, o sarcasmo ou qualquer outra forma de expressão livre de padrões pré-concebidos no cacoete mental ordinário.
O espírito religioso é outro front a ser destruído pelos mimados. A religião cristã (católica ou protestante) é vista agora como a manifestação do fanatismo. A destruição da religião tradicional e a sua substituição por prática ecumênicas é uma meta já bastante avançada.
Eric Voegelin, em seu exame da deterioração da ordem, atribui ao gnostismo, em especial as revoluções gnósticas, iniciadas pelos primeiros reformistas, a origem da revolta contra o Cosmo, à ordem espiritual e à estrutura da realidade.
O desejo incontrolado de tudo dominar e reinventar tudo a imagem e semelhança do próprio homem, deslocando o Criador para um segundo plano, é a expressão mais nítida desta manifestação que se projeta na pós-modernidade dos mimados.
O cerco moral da psicologia dos mimados já está perfeitamente montado. Agora só nos resta resistir o quanto for possível.