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110 anos de Carlos Lacerda

Aristóteles Drummond

É lamentável que com o tempo seja apagada da memória nacional a lembrança de brasileiros relevantes em seu tempo. Em parte, por culpa dos próprios que não souberam semear atos de lealdade e amizade, apagando seus feitos no egoísmo e egocentrismo de suas existências.

Um deles foi Carlos Lacerda, certamente o mais brilhante dos dez mais notáveis brasileiros do século. Superou os demais pela diversidade dos itens em que foi brilhante, admirável e importante. Orador cativante, jornalista maior em seu tempo – que reuniu outros como Hélio Fernandes, David Nasser e Paulo Francis –, parlamentar, editor, poeta, floricultor, tradutor, autor, dono de invejável cultura geral.

Em 40 anos de presença na vida nacional, construiu um caminho para chegar à Presidência da República. Emergiu para o primeiro plano da política, com liderança carismática que só veio a ser superada meio século após sua morte por Jair Bolsonaro, na oposição ao último mandato de Getúlio Vargas, de cujo final trágico foi ator decisivo. Perdeu-se pelo temperamento belicoso, alta capacidade e talento para agredir, ausência de fidelidade com a coerência e os compromissos. Diziam que tinha “instantes de amizade”. Ferrenho opositor de JK e de Jango, foi buscá-los para uma frente de oposição aos militares que não lhe entregaram o poder como achava de direito. 

Sua rica biografia e história, narrada no precioso livro “Depoimento”, mostra a riqueza de uma vida marcada pelo talento. Sua obra literária, discursos e artigos são preciosos e merecem ser lidos. Há alguma coisa sobre ele em livros como os de Mauro Magalhães e Lucas Berlanza. Teve, inclusive, a oportunidade de se revelar bom gestor ao governar o então Estado da Guanabara, tendo levado para a vida pública brasileiros de qualidade e desambição.

O Rio de Janeiro, aliás, é ingrato ao não dar destaque a seus dois grandes governantes recentres, Carlos Lacerda e Negrão de Lima. Este o superou muito em função da diplomacia, habilidade e sabedoria com que conviveu com o regime que chegou a ter sua primeira crise na tentativa de lhe roubar o mandato conquistado nas urnas. O mesmo AI-5 que cassou os direitos políticos de Lacerda, respeitou o mandato de Negrão.

Pena que nossas principais lideranças políticas sejam pouco chegadas à leitura de história, incluindo biografias e memórias de personagens marcantes. Poderiam evitar erros do passado e não repetir os próprios erros ao longo da caminhada. Mas certamente será útil para a classe política do futuro conhecer a trajetória de brasileiros como Carlos Lacerda.

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