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Selic pode baratear crédito ao consumidor

Bancos derrubam juros para acompanhar a Selic, mas pode não ser o suficiente

14 Nov 2019, 20h11

Crédito: Divulgação

Você já deve ter ouvido que a Selic impacta diretamente a economia. Recentemente, a taxa básica de juros caiu para 5% ao ano, e o corte foi recebido pelo mercado como uma boa notícia. Mas o que isso muda na sua vida? Entre os diversos impactos, o acesso ao crédito pode ficar mais barato.

O InfoMoney coletou dados do Banco Central e pediu um levantamento para a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) para mostrar quanto os juros dos bancos caíram ou subiram em relação a queda da Selic desde 2016 quando o ciclo de cortes começou.

O estudo considera o período entre setembro de 2016 (com a Selic em 14,25% ao ano) e setembro de 2019 (com a Selic a 5,5%), dados mais recentes disponibilizados pelo BC, e inclui os principais tipos de empréstimos para pessoas físicas: crédito pessoal, cheque especial, cartão de crédito rotativo e parcelado, e financiamento imobiliário.

Como as tabelas mostram, a taxa Selic caiu 61,4% de 2016 para cá em termos relativos. Nenhum tipo de empréstimo destinado a pessoa física caiu tanto quanto a taxa básica de juros. A primeira conclusão possível é que o consumidor não está sentindo os efeitos práticos da redução, já que nenhum crédito está ficando tão barato quanto poderia ficar. Mas é preciso ter bastante cautela para analisar as tabelas.

As taxas de juros dos empréstimos não são compostas apenas pela Selic, logo, não se pode afirmar que a redução seria proporcional e imediata, segundo Bruno Ponciano, assessor de investimentos do escritório Artigiano. Seria como dizer que, se o preço do aço cai 45%, o preço do automóvel também deveria cair 45% – o que não acontece porque o aço não é o único componente do preço final de um carro, assim como a Selic não é o único componente do preço final do crédito.

Considerando isso, Jackson Bittencourt, professor de economia da da PUC-PR, explica que, matematicamente, é mais acurado fazer a análise considerando a tabela de pontos percentuais. “É importante olhar para os valores absolutos. Quando olhamos para a Selic um ponto percentual é significativo porque a taxa é pequena. Se você considerar uma taxa de 300% ao ano, cair 5% não é nada. Mas se você pegar a mesma taxa e ver que ela caiu 17 pontos percentuais, mostra que há pelo menos uma tendência de queda – embora não seja suficiente” diz.

Frederico Gomes, professor de Economia do Ibmec de Brasília, concorda com Bittencourt e exemplifica: “se a Selic cair a zero, o spread não zera, nem as taxas das linhas de crédito. Ou se a Selic cair para 2,5% ao ano, um corte de 50% atualmente, as linhas de crédito não cairiam pela metade, mas sim diminuiriam em dois pontos percentuais e meio. Uma taxa de 30% cairia para 27,5%”, diz.

Segundo dados do Banco Central, entre os componentes do spread (a diferença entre o custo de captação do dinheiro emprestado e o valor cobrado de quem toma o empréstimo), 85% se devem aos custos da atividade de emprestar.

Entre eles estão os custos associados à inadimplência (37%), as despesas tributárias, regulatórias e fundo garantidor de créditos (23%) e os gastos administrativos (25%). Cerca de 15% do total representa a margem financeira, ou seja, o lucro dos bancos – mas não se engane, os valores são consideráveis.

Oligopólio
“O Banco Central não regula as taxas que os bancos cobram dos clientes, mas sinaliza o movimento que as instituições devem seguir. Hoje, o governo está aplicando uma política monetária expansionista, aumentando a liquidez e reduzindo juros para estimular o consumo e a retomada da economia”, explica Bittencourt. Segundo o professor da PUC-PR, os bancos formam um forte oligopólio, que joga a taxa para cima gerando um spread alto. “E as pessoas pagam porque precisam do crédito já que seus salários são baixos e ficam dependentes do sistema”, diz. Hoje existem cerca de 150 bancos no país, mas 80% do faturamento total está nas mãos dos cinco grandes e o controle das operações de crédito é uma das principais fontes.