Opinião

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O risco arriscado

Tivemos a taxação por parte dos bancos sobre o cheque especial, respingando para o cartão de crédito

Por Orígenes Martins

13 Jan 2020, 12h19

Crédito: Divulgação

Durante quase duas décadas entre tantos problemas que nossa economia enfrenta batendo recordes como a mais alta taxa de desemprego, mais alta taxa de impostos sobre a produção e outras coisinhas mais, tivemos a taxação por parte dos bancos sobre o cheque especial, respingando para o cartão de crédito e logicamente levando como consequência as taxas sobre os empréstimos.

Quando o atual governo trouxe o Ministro Paulo Guedes com uma economia de formato liberal, que muita gente combate sem mesmo saber o que significa, um dos fatores que seria combatido certamente seria este absurdo patamar de taxa de juros bancários. Entre as medidas tomadas pelo Ministério da Economia, tivemos uma diminuição da Taxa SELIC que chegou a um nível recorde em termos de baixa, na nossa economia em todos os tempos. 

Se a lógica funcionasse dentro do modelo bancário e financeiro brasileiro, a diminuição tão brusca da taxa SELIC por si só já seria suficiente para baixar os juros, tanto dos cartões de crédito e dos cheques especiais, quanto dos empréstimos em todos os tipos, embora isto não tenha acontecido. Os bancos alegam que a manutenção da taxa alta, que está entre as mais altas de todo o sistema mundial, deve-se ao risco provocado pela inadimplência existente no mercado brasileiro, que obriga os bancos a aumentar os juros para se defender.

O próprio governo, que vem tentando abrir o mercado bancário brasileiro para novas empresas, evitando o Oligopólio que domina este setor a séculos em nosso país, convocou um programa de negociação de dívidas jamais visto em nossa economia. Será que esta quantidade de negociações e eliminações de inadimplências não seria motivo para que os bancos tomassem a atitude de mostrar ao mercado que estão se adaptando ao juro oficial?

O governo foi obrigado a fazer então aquilo que a economia liberal não gostaria de fazer, que foi a determinação através de lei ou qualquer tipo de instrumento, para obrigar o sistema bancário a ter um LIMITE DE TAXA DE JUROS. Logicamente para a economia e principalmente para os usuários do sistema bancário brasileiro uma medida que limite para menos a taxa de juros é algo a ser comemorado. Em termos econômicos, fica um tanto negativo que o governo tenha sido obrigado a intervir, depois de ter tomado tantas medidas que ajudaram o mercado a ser mais lucrativo e a economia como um todo ser mais efetiva apesar de estar passando por momento tão difícil.

Não podemos deixar de comentar o ponto fundamental de toda esta situação, que é o lado cultural de um país que se acostumou a ter na intervenção do governo quase que uma necessidade obrigatória, tanto do ponto de vista dos consumidores quanto em relação aos produtores. Esta situação coloca nosso país em uma posição que exige muito cuidado principalmente em termos estratégicos no que se refere às mudanças que estão sendo implantadas em nosso país, tanto no que diz respeito à economia quanto em termos políticos e sociais. 

Nosso povo precisa aprender a entender como funcionam todos os mecanismos de nossa sociedade, tanto no que diz respeito à economia quanto à política e às relações sociais necessárias para o equilíbrio do país. Este aprendizado exige um conhecimento real, sem polarizações e sem radicalizações ideológicas como tem acontecido atualmente em nosso país. 

No que se refere ao empresariado, torna-se fundamental o entendimento de que cada vez mais o modelo antiquado e pouco rentável dos oligopólios e monopólios que durante tanto tempo dominaram nossa produção serão substituídos por mentalidades mais abertas e por modelos produtivos mais adequados a uma produção realmente globalizada. Nessa hora, mesmo que um grupo de bancos queira manter artificialmente patamares de juros acima do que o mercado exista, simplesmente não terão do próprio mercado condições para continuar funcionando. Vamos ver até que ponto estes supostos poderosos vão aguentar pegar o dinheiro do governo pagando 4% de juros e emprestar ao povo cobrando por este mesmo dinheiro mais de 200% de juros.

*Origenes Martins Jr é professor, economista, mestre em engenharia da produção, consultor econômico da empresa Sinérgio

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