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O gigante Ajuricaba de Turenko Beça

Por Evaldo Ferreira

11 Fev 2020, 10h17

Crédito: Evaldo Ferreira

Ajuricaba saltou nas águas do rio Negro, próximo ao encontro das águas, e entrou para a história. Era o ano de 1727 e até hoje o nome desse cacique manau é uma lenda para os amazonenses, agora mais do que nunca, pois o chefe indígena teve sua imagem retratada numa imensa escultura feita em aço pelo artista visual Turenko Beça.

A escultura, denominada ‘Ajuricaba no encontro das águas’, foi posicionada em um lugar de destaque há duas semanas, na frente do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, como a olhar para o rio, em posição de vitória, ou de ataque, segurando uma lança. Sob os pés da escultura, as ondas do encontro das águas.

“Ela ainda não está 100% acabada. Ainda vou pintá-la numa cor vermelho vivo, para chamar bem a atenção”, revelou Turenko.

Turenko começou a trabalhar nesta sua mais recente obra, ainda em 2018, numa lida metódica de artista, dividida com suas outras atividades na Secretaria de Cultura.

“Da concepção à execução tem uma longa caminhada. Primeiro eu faço um desenho da futura obra. Depois ela é transformada numa mini-maquete, aí eu analiso se ficou boa, ou não. Se não ficou, refaço tudo outra vez”, contou.

Turenko começou a se tornar um artista especialista em peças feitas em aço quase que por acaso.

“Em 1992 um empresário me encomendou uma cobra grande para decorar sua casa. Eu arrisquei fazê-la, gostei do resultado e não parei mais de idealizar outras obras da mesma maneira”, explicou.

Mestre da arte em aço

Desde então, as peças são executadas na Carboquímica da Amazônia, metalúrgica que atua em Manaus há mais de 30 anos.

“Nestes quase 30 anos de parceria entre eu e a Carboquímica, nosso trabalho só evoluiu. A primeira peça foi cortada com maçarico. Agora são cortadas a laser. Antes seguíamos um desenho feito à mão, agora o desenho é todo elaborado num programa de computador. O resto continua do mesmo jeito: o corte das chapas, as dobras, a soldagem”, revelou.

Depois da cobra grande as obras de Turenko em aço não pararam mais de ocupar lugares públicos. No Centro Cultural dos Povos da Amazônia estão 16 delas formando o ‘Bestiário Amazônico’, no mesmo Povos da Amazônia há um totem do artista. Na praça Aníbal Beça (homenagem ao seu pai), uma escultura de dois metros, além de outras menores em hotéis e galerias.

“Já fiz tantas, que nem lembro mais por onde estão”, afirmou.

A maior de todas, no entanto, está bem visível. Trata-se do tucano pendurado num dos tetos do Manauara Shopping. A escultura mede onze metros de comprimento, da ponta do bico às penas do rabo, e doze metros de envergadura, de uma ponta à outra das asas.

Apesar de ser a maior, com certeza não é a mais pesada, título este conquistado pelo Ajuricaba que pesa em torno de três toneladas distribuídas em seus 4m75 de altura por 4m de comprimento.

“Manaus precisa de mais esculturas para ocupar seus lugares públicos vazios, como o local onde escolhi para colocar o Ajuricaba: um belo espaço de frente para o rio, na frente de um dos prédios históricos mais icônicos de Manaus, visitado por turistas do mundo todo”, contou.

“Por que escolhi o Ajuricaba? Foi uma escolha natural porque busco sempre as nossas raízes, as ancestralidades e a antropologia na minha arte, depois, Ajuricaba é um mito da Amazônia, principalmente de nós, amazonenses”, destacou.

Quando o fotógrafo do Jornal do Commercio foi produzir as fotos desta matéria, um morador de rua dormia tranquilamente sobre as ondas de aço aos pés de Ajuricaba. Mas Turenko não se abalou ao ver a cena.

“Assim como os colonizadores chegaram às terras de Ajuricaba e impuseram sua força e vontade, fizemos o mesmo com essa população de desvalidos que mora nessa região. O Ajuricaba de aço invadiu a área que, há décadas, é deles”, brincou.

O fim de Ajuricaba

De acordo com o historiador Francisco Gomes, “Ajuricaba e seus guerreiros manaus lideravam uma coalisão de chefes de nações indígenas no enfrentamento à invasão e ocupação de seus territórios, por europeus, no saque aos seus recursos naturais e escravização de seu povo”, lembrou.

Todos esses fatos contrariavam os interesses do rei de Portugal e particularmente os interesses imediatos dos colonos portugueses que, irritados com os índios e incapazes de dar combate aos seus verdadeiros inimigos e concorrentes, os holandeses, ingleses, franceses e espanhóis, conseguiram do Conselho das Missões autorização para fazer uma ‘guerra justa’ contra os manaus e seus aliados.

Legitimado pelo Conselho, o governador do Pará, João Maya da Gama, recomendou ao capitão João Paes do Amaral “uma guerra dura”.

Ajuricaba viu seu filho Cucunaca ser assassinado pelos portugueses durante os combates sendo preso, posteriormente. Em setembro de 1727, na localidade conhecida como Ponta do Azabari, nas proximidades do encontro das águas, aprisionado, Ajuricaba teria tentado a fuga através do rio no que foi seguido pelos seus companheiros resultando na morte de todos, conforme relato de Maya da Gama: “Quando Ajuricaba estava vindo como prisioneiro para a cidade de Belém, e ainda estava navegando no rio, ele e outros homens levantaram-se na canoa onde estavam sendo conduzidos agrilhoados e tentaram matar os soldados”, escreveu. 

“Estes sacaram de suas armas e feriram alguns deles e mataram outros. Então, Ajuricaba saltou da canoa para a água com um outro chefe e jamais reapareceu vivo ou morto. Deixando de lado o sentimento pela perdição de sua alma, ele nos fez uma grande gentileza libertando-nos dos temores de sermos obrigados a guardá-lo”, concluiu. 

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