Cultura

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O entrudo na província do Amazonas

O Entrudo, folguedo popular de raízes ibéricas coloniais, era uma introdução à Quaresma

Por Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa

06 Fev 2020, 16h04

Crédito: Divulgação

O Entrudo, folguedo popular de raízes ibéricas coloniais, era uma introdução à Quaresma (introitu, introdução). Começava pela madrugada, As limas, laranjas e limões de cheiro, feitas com cera derretida em fôrmas e onde eram colocados diferentes tipos de líquidos, de água aromatizada a urina, eram previamente preparadas pelas donas de casa, escravas e agregados. Se a residência tivesse dois andares, seus moradores dirigiam-se para o segundo e, quem passasse pela rua, era atingido por esses objetos. Esse era o entrudo familiar, privado. Nas ruas ocorria o entrudo popular, uma verdadeira guerra em que participavam brancos, tapuios e escravos, arremessando uns nos outros pó de arroz, trigo, tinta, ovos podres e o que tivessem ao alcance.

Essa brincadeira, apesar de tolerada, era alvo constante de reclamações e repressão por parte das autoridades. Em 1867 o jornal A Voz do Amazonas pedia à polícia providências contra os mascarados que saiam pelas ruas das vilas da Província durante a realização do entrudo. A festa, ou jogo, como também era chamado, era realizada costumeiramente de segunda até quarta-feira, mas também poderia ocorrer em dias variados.

Se até aquele momento essa prática festiva era aceita, a introdução de novas práticas culturais consideradas mais refinadas, como os bailes mascarados, privados, realizados em estilo francês ou veneziano, fizeram os dirigentes da Província tomar medidas que combatessem o que passava a ser considerado impróprio e nocivo para os novos padrões. O entrudo foi proibido na Vila de Serpa (Itacoatiara) em 1870 e em 1872 na Vila de Silves e na cidade de Manaus.

Essas proibições já vinham ocorrendo há tempos em outras Províncias, tendo iniciado no Rio de Janeiro. O caráter privado e elitista ganhou cada vez mais espaço. Os jogos ficaram restritos ao ambiente familiar, impondo dessa forma a separação entre os grupos que antes festejavam entre si. Os que tivessem maior poder aquisitivo podiam recorrer às lojas especializadas na venda de artigos para a festa. O senhor Santos, no canto da rua Brasileira (Avenida Sete de Setembro), oferecia roupas à fantasia, tendo “23 costumes, tanto para homens como para senhoras […] feitas na França, algumas novas, outras com pouco uso”. Theresa Pereira Tavares, a Teté, em sua loja na rua da Instalação, tinha por volta de 1879 um rico e variado sortimento de máscaras, “fantasias de pierrôs, vivandeiras e chicard de cetim bordado”. Em um anúncio de 1881, a Loja Brinquinho, na então rua da Matriz (Lobo d’ Almada), anunciava a “Alta novidade para o carnaval”, pois acabara de receber “um grande sortimento de bisnagas com os mais finos extractos e pós de arroz, próprias para jogar o entrudo em casas de familia”.

Nos bailes, os que perturbassem a ordem ou não se portassem como pedia a ocasião seriam retirados do recinto, como ficou instituído em um antigo regulamento dos tempos da Comarca do Alto Amazonas, de N° 120 de 31 de Janeiro de 1842. A prática do entrudo continuaria nas décadas seguintes, assim como as investidas para a sua proibição e minimização, de forma a tornar o Carnaval uma festa popular sadia, ou, pelo menos, passar essa imagem. No grande Carnaval de 1905, retratado em pinturas, desenhos e fotografias, por exemplo, um cidadão foi multado em 50$000 réis por estar praticando, com um grupo de foliões, o entrudo em cima de um caminhão na Avenida Eduardo Ribeiro; e outro por “consentir que de sua casa se entrudasse os transeuntes com água suja”.

No Amazonas e no restante do Brasil, o Carnaval realizado desde o início do século XX guardou inúmeras práticas do antigo entrudo ibérico colonial, prevalecendo a tomada das ruas por foliões que realizam toda a ordem de brincadeiras, zombarias, sátiras e danças. Os Códigos de Posturas já não são mais uma ameaça aos brincantes, mas, assim como o entrudo foi mal visto no passado por parte dos dirigentes e das elites, o Carnaval é alvo da reprovação por parte de alguns paladinos da ‘moral e dos bons costumes’.

NOTAS:

Alta novidade para o carnaval. Loja Brinquinho na bandeira azul. Recebeu um grande sortimento de bisnagas com os mais finos extractos e pós de arroz, próprias para jogar o entrudo em casas de família. Na bandeira azul. Rua da Matriz, n, 4.(Amazonas, 18/02/1881).

FATOS HISTÓRICOS DA SEMANA:

No dia 01 de fevereiro de 1865 o Presidente Abraham Lincoln assina a 13° Emenda à Constituição dos Estados Unidos, abolindo a escravidão em todo o território Norte Americano.

No dia 04 de fevereiro de 2004 é criada, nos Estados Unidos, a rede social Facebook.

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