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O desrespeito ao sauim-de-coleira

Por Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com

18 Out 2018

Crédito: Diogo Lagroteria

O desrespeito com a natureza e o meio ambiente, em Manaus, é tão grande por parte de pessoas comuns, que invadem áreas de floresta; de empresários, que não param de desmatar para construir condomínios e mega empreendimentos; e a administração pública, que faz vista grossa a tudo isso, que o mascote, o símbolo vivo da cidade, o sauim-de-coleira, está desaparecendo dia após dia e pode ser completamente extinto nas próximas décadas.

Algumas iniciativas, como a que vai ocorrer neste final de semana, dias 20 e 21, sábado e domingo, na Comunidade Julião, no Tupé, o 1º Festival do Sauim-de-Coleira, visam chamar a atenção para a importância da conservação da espécie. Ainda é pouco. Mas pode ser o começo para que todos tenham a mesma atitude. A Comunidade Julião é uma das seis que integram a RDS (Reserva de Desenvolvimento Sustentável) do Tupé, gerida pela prefeitura de Manaus.

Na comunidade, o sauim-de-coleira é símbolo ecológico e dá nome a uma trilha de roteiro turístico, a Trilha do Sauim, que integra o Roteiro Tukorin e vai do Julião até a Colônia Central, outra comunidade da reserva. Durante a trilha, os grupos de sauins-de-coleira são facilmente avistados.

"O interessante é que os próprios moradores da comunidade nos procuraram para ajudá-los a organizar o evento, pois a região é um rico habitat do macaquinho e os moradores querem transformá-la num ambiente para atrair turistas", falou Diogo Lagroteria, veterinário e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.

O festival é uma iniciativa da Associação dos Produtores Rurais do Julião, em parceria com a Semmas, o ICMBio e o Pan Sauim. Na comunidade já foram realizados trabalhos de monitoramento de grupos de sauins-de-coleira, pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas). "O Julião fica situado na margem direita do Tarumã Mirim e o acesso é possível somente por lanchas que saem da Marina do Davi, na Ponta Negra. A viagem, de voadeira, demora uns 30 minutos", completou.

Desaparecendo, pouco a pouco
"A luta pela preservação do sauim-de-coleira é árdua. Procuramos realizar mobilizações sociais, como essa do Julião, para dar maior visibilidade para o problema a fim de que o máximo de pessoas o conheça e nos ajude, mas estamos sempre correndo atrás do prejuízo. Este ano a prefeitura de Manaus criou a APA (Área de Proteção Ambiental) Sauim-de-Manaus, onde vivem muitos sauins-de-coleira, mas as pessoas já estão invadindo o local, fazendo queimadas e desmatando", lamentou.

"O sauim-de-coleira foi escolhido como mascote símbolo de Manaus (Decreto 8101, de 2005) porque é uma espécie endêmica do entorno de nossa cidade. Eles vivem nas matas entre o rio Cuieiras até Itacoatiara. À primeira vista parece ser uma área imensa, mas não para macacos. No Brasil, o sauim-de-coleira é uma espécie de macaco que habita uma das menores áreas e essa área ainda está sendo reduzida a cada dia", informou.

"Dentro da cidade o sauim-de-coleira ainda pode ser observado nas ilhas de matas como as do campus da Ufam, Reserva Ducke, Parque do Mindu, e nas matas do entorno da cidade. Com o crescente desmatamento nos municípios da região metropolitana, pouco a pouco a espécie está sendo expulsa de seu habitat. Especialistas calculam que se não forem tomadas medidas enérgicas para a proteção da espécie, ela desaparecerá entre 50 e 100 anos", alertou. "Não temos dados de quantos indivíduos ainda poderiam existir nas áreas onde habitam, mas temos certeza que estão diminuindo porque em algumas áreas antes habitadas por eles, não existe mais nenhum", lamentou.



Agitação por dois dias
Durante a realização do 1º Festival do Sauim-de-Coleira haverá torneios de futebol (masculino e feminino), minicurso sobre turismo de natureza e barracas com comidas. A Federação de Ciclismo Amazonense promoverá, no dia 21, a Maratona da Reserva com 35 km de muita aventura e o maior desafio do ano de 2018 pelas matas da região.

A travessia dos atletas, equipes, amigos e familiares para a RDS Tupé será feita através de embarcação, com preço único de R$ 20, por pessoa (incluindo as bikes), pagos no momento do embarque, na Marina do David, a partir das 6h do dia 21.

A Marina do Davi fica localizada no final da estrada da Ponta Negra, rua lateral ao Tropical Hotel. Ao final dessa rua, virar à direita e descer até a beira do rio. Os automóveis devem ser deixados em estacionamento particulares, nas proximidades.

Inscrições realizadas pouco antes do evento custarão R$ 100. Medalhas aos primeiros 70 participantes do circuito, válido pela 6ª etapa do Campeonato Estadual 2018 de Mountain Bike, ranking amazonense. Informações: 9 9270-1514.