Cultura

COMPARTILHE

O Carnaval manauara através dos tempos

Por Evaldo Ferreira

14 Fev 2020, 10h27

Crédito: Arquivo

O manauara sempre foi um folião. É o que garante o pesquisador Geraldo dos Anjos, do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas), ele também um apaixonado pelo Carnaval. 

“Ainda na época da província, começam a aparecer os primeiros registros de manifestações de rua, como o entrudo, o Zé Pereira (os brincantes iam pelas ruas batendo bumbos, zabumbas e tambores), os mascarados avulsos que tomavam conta do centro antigo de Manaus nos três dias de Carnaval, principalmente nas ruas da Independência (atual Frei José dos Inocentes), de São Vicente, Taqueirinha, da Instalação, e dos Remédios (atual dos Andradas) e os bailes fechados, de máscaras, em residências ou clubes”, contou Geraldo.

Por toda a segunda metade do século 19 o Carnaval seria comemorado desta maneira, até o início do século seguinte, quando a cidade estava bastante enriquecida pelo comércio da borracha e essa riqueza foi mostrada logo no primeiro Carnaval organizado.

“Em 1905, com a avenida Eduardo Ribeiro aberta há poucos anos e sendo a mais ampla da cidade, o Club dos Terríveis, formado por políticos (entre eles o governador Constantino Nery e o prefeito Adolpho Lisboa) e intelectuais, resolveu organizar um Carnaval como acontecia em Paris e no Rio de Janeiro e a nova avenida foi escolhida para ser o palco do espetáculo”, falou.

Com dinheiro sobrando, o poder público mandou vir de Paris a ornamentação da avenida e os carros alegóricos sobre os quais iriam desfilar as famílias de dinheiro. Daquele ano até 1979 a Eduardo Ribeiro foi o principal centro do Carnaval da cidade.

Os blocos de sujos

Naquele Carnaval de 1905, desfilaram pela Eduardo Ribeiro e outras ruas, 15 carros alegóricos sendo saudados com confetes, serpentinas e flores. Esse tipo de desfile permaneceu até a década de 1970 quando o percurso se resumiu apenas a avenida, mas um tipo de brincadeira que sempre se destacou foi a dos mascarados, homens que saíam, geralmente vestidos de mulher, batendo latas e jogando talco ou maisena em quem estivesse, ou não, participando da brincadeira.

“Os mascarados, ou blocos de sujos, desde a época da província, e até hoje, são uma atração no Carnaval manauara. Já naquela época os jornais anunciavam a presença deste tipo de folião. Sua participação, batendo lata e se divertindo, sempre foi marcante”, destacou.

Transformados apenas em homens vestidos de mulher, em algumas bandas, sem as latas e a diversão de antigamente, aquele modelo de blocos de sujos praticamente deixou de existir a partir da mudança dos desfiles da Eduardo Ribeiro para a avenida Djalma Batista, em 1980.     

“A partir de 1976, com a organização da batucada do Rio Negro e o surgimento das primeiras escolas de samba, a Emamtur (Empresa Amazonense de Turismo) vê o evento como um chamariz para trazer turistas para Manaus e, em 1980, os desfiles são transferidos da Eduardo Ribeiro para a mais nova avenida da cidade, a João Alfredo, hoje Djalma Batista”, lembrou.

As bandas de rua

A nova década também fez surgir em Manaus um novo tipo de brincadeira carnavalesca: a banda de rua, que se concentrava num determinado lugar e depois saía pelas ruas do centro. A primeira delas foi a do Mandy’s Bar.    

“Com os desfiles da Eduardo Ribeiro passando para a Djalma Batista, o centro ficou sem um atrativo para o Carnaval. Foi assim que, em 1982, um grupo de frequentadores do  Mandy’s Bar, que ficava localizado no térreo do Hotel Amazonas, resolveu fundar uma banda nos moldes da Banda de Ipanema, do Rio, e assim Antenor Amazonas, José Oneti, Ademar Brito, Jorge e Carlos Vasques, e Elaine Ramos, fundaram a banda que existiu por 16 anos. A partir daí surgiram a Banda da Bica, da Baixa da Égua, do Jangadeiro, da Difusora, o Bloco das Piranhas, e tantas outras”, listou.

As bandas de rua se tornaram um evento tão forte entre os foliões, que praticamente ajudaram a acabar, ou reduzir de importância, os famosos bailes de máscaras e à fantasia, existentes desde a época da província.

“Ocorre que a cidade cresceu e os clubes ficaram pequenos para uma população que queria se divertir, depois, nos clubes os ingressos eram pagos, e nos da elite, como Ideal e Rio Negro, só entravam os associados, diferente das bandas de rua onde brincava qualquer um, com dinheiro ou sem dinheiro”, disse.

“Alguns hotéis, como o Tropical, até organizaram bailes, mas com tantas bandas surgindo por todos os bairros de Manaus, as pessoas perceberam que se divertiam da mesma forma, sem precisar gastar com ingressos ou fantasias”, concluiu.

1990 marcou o primeiro desfile de Carnaval no sambódromo somente com escolas de samba que tanto ficaram bonitas quanto acabaram com as demais formas de se brincar o Carnaval numa avenida.

“Ao longo desses mais de 150 anos de folia, o Carnaval em Manaus tomou várias formas, algumas mudaram, outras permanecem, e tem as que acabaram, mas o importante é que em todo esse tempo, milhares de pessoas extravasaram suas emoções ainda que por poucos dias”, finalizou.