Opinião

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Meditação judaica

Vale lembrar que a noção Tempo e Espaço só passam a existir a partir da Criação

Por Breno Rodrigo

20 Set 2019, 11h46

Crédito: Divulgação

(KAPLAN, Aryeh. Meditação Judaica: um guia prático. Tradução de Mônica Monte, Florianópolis: Editora Exodus, 1996, 209 p.)

A obra do rabino Aryeh Kaplan (1934-1983) é um livro sobre a experiência meditativa à luz da tradição judaica e rabínica. Por se tratar de um texto sobre a meditação judaica – mas não exclusivamente judaica –, toda a sua narrativa é um esforço constante de se entender a importância da meditação na auto-descoberta do ser, na busca do equilíbrio espiritual que desperta em cada um de nós.

Profetas, cabalistas e rabinos usaram as técnicas de meditação para alcançar um nível mais elevado de espiritualidade individual e coletiva. Tais ensinamentos, manifestos na prática da meditação, ajudavam a mergulhar nas profundezas do coração e da mente, na pureza contemplativa, verdadeiramente liberta de fluxos do mundo ordinário, do dia-a-dia, das asperezas do cotidiano.

Este caminhar pelas veredas da meditação judaica compreende uma nova fase na contemplação religiosa como um todo. Os rudimentos místicos são colocados em perspectiva à medida que o florescimento da descoberta do próprio interior, exercitada na prática da meditação, acolhe o homem nos domínios do sagrado.

O trabalho é valioso por mostrar as várias formas de se experienciar a prática da meditação em diferentes escolas Rabínicas (exoterismo, teológica, intelectual e anti-mística) ou Cabalísticas (esoterismo, iniciática, mística e meditativa) que se sucederam ao longo dos séculos.

Da obra de Ezequiel, os sábios observaram que a Obra da Carruagem ou Portão do Paraíso – a Merkaváh que conduz o homem ao Sétimo Céu – era uma importante chave mística da Meditação Profética, onde o “Estado Meditativo”, de profunda elevação da alma, se encarregava de produzir o efeito místico, bem diferente, portanto, do “Estado de Sono”, de embriaguez da inconsciência.

A completude meditativa implica necessariamente o afastamento ou isolamento contemplativo da Obra da Criação (hitbonenút). Outra importante variante meditativa é a Meditação Mântrica. Em linhas gerais, a Meditação Mântrica é composta por uma “palavra ou frase repetida seguidamente como exercício de meditação”.

Vale notar que a Meditação Mântrica pode ser praticada em grupos esotéricos – iniciáticos ou não – tendo em vista o treinamento da disciplina do grupo. Assim, frases como “Senhor do Universo” (Ribonó Shel Olám) ou palavra como “Fogo” (Shin) são instrumentos necessários para este tipo de prática de Meditação em grupo.

De todas as qualidades presentes em Meditação Judaica, podemos realçar a clareza com que tradições são examinadas pelo rabino Aryeh Kaplan. A Cabalá Rabínica busca seguir o caminho sefirótico manifesto nos mundos e caminhos da Árvore da Vida. A Cabalá Profética, por sua vez, trilha o caminho dos Nomes Divinos, de sua permutação em letras e números espirituais.

Em passagens de profetas bíblicos como Isaías e Ezequiel, por exemplo, a meditação mística revela-se uma sabedoria capaz de entender, em linguagem imanente, toda a sabedoria, força e beleza da Criação.

O dogma religioso judaico também oferece métodos de ascese através da oração meditativa. A Amidáh – “estar de pé”, em hebraico – é difundida na conduta ordinária da vida religiosa, pois consiste em três orações diárias (manhã, entardecer e noite) simbolizando a mudança do diálogo Deus-homem, através da Profecia, pelo diálogo homem-Deus, através da Oração metódica e diária. Sim, o homem busca a relação com o sagrado em uma experiência sui generis, própria e exclusiva.

Vale lembrar que a noção Tempo e Espaço só passam a existir a partir da Criação. Ser e Princípio, Deus Criado e Deus Incriado, Natureza Naturada e Natureza Naturante, Manifesta e Oculta. Em verdade, Deus é a Divina Presença que habita entre nós e em nós.

Em poucas palavras, pode-se resumir as experiências de meditação em: 1) Meditação com luz completa e inteiramente branca; 2) Letras do Tetragrama; 3) Visualização do Nada; 4) Contemplação; e 5) Mântrica.

A obra do rabino Aryeh Kaplan é um belíssimo manual de como iniciar a prática da meditação de maneira correta, de acordo com as boas práticas. Em tempos de estupidez e radicalização, a preocupação com sanidade corporal e mental é de extrema importância não só para compreendermos a realidade, mas também para suportarmos cotidianamente as dores do mundo.

*Breno Rodrigo de Messias Leite é cientista político

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