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Isso foi bom ou ruim?

Ainda no século 19, o município de Manaus fora o epicentro da economia na Amazônia, quiçá do Brasil, por um momento

Por Ramiro Hitotuzi

10 Fev 2020, 13h39

Crédito: Divulgação

A Manaus dos parques, jardins, palacetes e boulevards, que tanto evocam à Europa, foi esta, de longe, a cidade mais proeminente desse lado isolado do Brasil. Hoje, ainda se vê manifesto o orgulho oriundo, inconscientemente, da Belle Époque. Aliás, se este não configurar o maior sentimento de seus filhos barés. Haja vista os seus recém-completados 350 anos, eu, aspirando um texto onde contemplasse hábitos da urbe, alimentares, sociais e urbanísticos, pedi obsequioso para que minha rebenta primogênita me dissesse o que Manaus representava a ela em uma palavra. ‘Orgulho’ foi a palavra proferida. Continuei curiosamente e sem resistir indaguei-a: orgulho de quê? A resposta veio de chofre: ‘do Teatro Amazonas ser único’.

Na verdade toda minha ansiedade tinha uma razão: eu já esperava essa reação. Com efeito, quando se tem oportunidade de se ater um pouco mais sobre esse tema, suscitam questionamentos acerca dos nossos costumes, se são mesmos os daqui ou os de outras culturas, introjetados de maneira velada na alma desta cidade. Isso em razão que, no século 19, a autêntica fisionomia da cidade fora transformada, permanentemente, em algo mais ‘civilizado’, deste modo, merecedora da alcunha ‘Paris dos trópicos’ sendo a pioneira da luz elétrica e sede da segunda agência do Banco do Brasil, são algumas de suas posições de vanguarda, no país.

Já me peguei falando dessa forma às pessoas, em outras regiões, e elas não debitam créditos a esses comentários, demonstrando que desconhecem a história do Brasil. Acham apenas soberbas. Mas tudo isso tem fundamentação histórica.

Ainda no século 19, o município de Manaus fora o epicentro da economia na Amazônia, quiçá do Brasil, por um momento, com toda aquela opulência, advinda dos estrangeiros, sobretudo europeus, barões magnos da extração do látex, colocando a miúda Manaus na rota internacional do comércio. Diz-se que à época a Europa a conhecia, mas o Brasil ainda não. Um lugarejo que em 20 anos suplantou para 50.300, sua população de 8.500, em 1890, segundo Dias. Tudo isso me vem ao pensar a comida. Então, cogito sobre o porquê de nós, em outro tempo e espaço, como grupo social, memorando Montanari, preferirmos tais alimentos ao invés de outros, ou essa forma de preparar e não aquela.

Enfim, de onde vem o estereótipo alimentar que nos regala na atual conjuntura? Isso foi bom ou ruim para nosso desenvolvimento enquanto povo, levando em consideração mais de um século de interferência social?

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