História

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Helena Ramos e as veteranas da Guerra

Por Evaldo Ferreira

09 Fev 2020, 11h55

Crédito: Divulgação

Foram apenas 73 mulheres, mas capazes de tratar de mais de dez mil homens feridos em combate durante a Segunda Guerra. Estamos falando das enfermeiras brasileiras que, de livre e espontânea vontade partiram para a Itália para, junto com as enfermeiras americanas, atender aos feridos. E entre elas, duas amazonenses.

Uma destas enfermeiras acabou de ser imortalizada em livro, a carioca Helena Ramos, personagem central de ‘A Veterana’, trabalho escrito pelo cineasta Daniel Mata Roque que só recentemente descobriu ser Helena sua prima distante.

“A descoberta foi realmente obra do acaso. Eu já havia me integrado à preservação da memória da FEB (Força Expedicionária Brasileira), participando da Associação Nacional dos Veteranos da FEB aqui no Rio de Janeiro. Em paralelo, me dedicava à pesquisa genealógica, ajudando meu avô Olímpio Mata, como um passatempo construtivo”, contou Daniel ao Jornal do Commercio.

Em 2017, Daniel e o avô resolveram publicar o livro ‘Sob a luz de Antares’, com poesias e outros textos de autoria do seu bisavô, Oduvaldo do Nascimento Matta.

“Na organização desse material me deparei com uma peça de teatro que ele havia escrito em 1945, quando dirigia o Ginásio Wladimir Matta, em homenagem à FEB. No texto, havia especial destaque às enfermeiras e, ao contrário do expedicionário, que não tinha nome na peça, a enfermeira chamava-se Helena Ramos”, falou.

“Achei curioso. Remexendo mais papéis, localizamos o discurso de apresentação que ele leu antes encenação da peça, destacando a presença de sua prima dentre os veteranos da FEB. Era Helena Ramos”, completou.

Quem foi Helena?

Helena era funcionária administrativa do Ministério da Educação. Até 1943, não era enfermeira, nem militar. No ano seguinte, atravessou o Atlântico e foi cuidar dos feridos em hospitais de campanha próximos à linha de fogo. Na volta da guerra, retomou suas atividades como secretária e ingressou na Associação dos Ex-Combatentes do Brasil.

“Até hoje é difícil compreender o que levou essas jovens mulheres, a maioria de classe média e com uma vida estável, a se lançar em uma aventura com risco de morte. Foi mesmo o chamado da Pátria, o sentimento de ajudar o país, os seus compatriotas e de conquistar espaço em uma sociedade ainda tão masculina”, concluiu.

As enfermeiras, arvoradas ao posto de segundo tenente já na Itália, ficaram sempre nos hospitais, comandados pelos americanos. Não serviram na frente de batalha, no Batalhão de Saúde ou no resgate de feridos. A proximidade com a linha de fogo variava de acordo com o tipo de hospital (estacionamento, campanha, evacuação). Isso não as livrou dos perigos da guerra, já que estas regiões também foram atingidas por bombardeios, incêndios e minas. Algumas enfermeiras sofreram ferimentos graves em serviço, como uma das amazonenses.

“Após ‘descobrir’ Helena, iniciei uma busca sobre sua trajetória nos arquivos de família, Biblioteca Nacional e Arquivo Histórico do Exército, e chegando aos acervos das associações de veteranos e ex-combatentes pelo Brasil, contando com o apoio de Socorro Sampaio, presidente da Associação dos Veteranos da FEB, em Brasília, filha da enfermeira capitã Aracy Arnaud Sampaio”, explicou.

“O livro ‘A Veterana’ é uma pequena tentativa de ajudar a dar voz a essas mulheres, pioneiras e heroínas, às vezes injustamente esquecidas. É também uma forma de homenagear e perenizar a história de Helena na própria família, que pode dela se orgulhar. No título ‘A Veterana’ a flexão de gênero está ligada a este pioneirismo desse grupo de mulheres, as primeiras militares brasileiras. Elas foram pra guerra e lutaram dignamente”, concluiu.

As duas amazonenses

Pesquisas realizadas por Geraldo dos Anjos, do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) mostram que Graziela Afonso de Carvalho, filha do ex-governador Afonso de Carvalho, e Semirames de Queiroz Montenegro, foram as amazonenses que partiram para a Itália como enfermeiras. A primeiro-tenente Graziela seguiu na primeira turma. Era a mais velha entre as moças, tendo ultrapassado a idade máxima permitida, mas teve licença especial do Ministro da Guerra para ir adiante. Era chamada de ‘tia’ pelas demais colegas. Em 1º de novembro de 1944 escorregou e bateu a cabeça tendo que ser trazida de volta para o Rio de Janeiro. Graziela foi a primeira enfermeira da FEB agraciada com a Medalha de Campanha, em maio de 1945, recebendo-a no Hospital Central do Exército das mãos do presidente Getúlio Vargas. Foi também a primeira enfermeira da FEB a falecer, em 27 de junho de 1962.

Semirames seguiu na segunda turma e optou pelo Corpo de Enfermeiras do Transporte Aéreo, cuja função era buscar pacientes na Itália e vir dando assistência aos mesmos durante a viagem de avião até o Brasil, ou aos Estados Unidos. Após o fim da guerra, foi desconvocada e, em 1957, reconvocada para servir na Policlínica Central do Exército onde terminou seu tempo militar, tendo passado para a reserva no posto de capitã. Voltou para Manaus, casou e teve um filho.

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