Opinião

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Freud explica!

As ciências da mente humana procuram influenciar as outras áreas do conhecimento

Por Breno Rodrigo

13 Nov 2019, 18h14

Crédito: Divulgação

Estou cada vez mais convencido, por fatos e argumentos, que a compreensão deste mundo e do que vem por aí estará condicionada a características ligadas à individualidade, à mente e ao comportamento dos indivíduos em sociedade.

Desde a revolução psicanalítica iniciada pelo médico Sigmund Freud, as ciências da mente humana procuram influenciar as outras áreas do conhecimento, bem como impulsionar as mudanças culturais, estéticas, artísticas e axiológicas mais gerais. Ou seja, ao longo de todos estes anos a psicanálise tornou-se uma ciência concreta, um saber que concilia a expertise científica e as experiências humanas mais subjetivas.

Freud, em seu ensaio “Totem e Tabu”, elabora uma das mais brilhantes explanações sobre os primeiros passos da civilização. Lá está condensada a origem do sagrado, da estrutura do parentesco e da universalidade da lei da proibição do incesto.

Eis a sociedade hipotética de Freud: em tempos remotos, hominídeos viviam em hordas, isto é, agrupamentos organizados e hierárquicos, liderado pelo macho-alfa, o dominador do grupo. O macho-alfa ditava as leis e regia a ordem do grupo – a obediência era total e inquestionável. De todas as obrigações impostas ao grupo estavam as proibições sexuais, em especial a proibição de relações sexuais incestuosas envolvendo familiares e parentes consanguíneos.

Com o tempo, tal proibição sexual despertou a fúria dos outros homens do grupo, pois impulsionados pela libido desejavam ter acesso aos favores sexuais das mulheres de seu grupo, ou seja, suas familiares consanguíneas. Em rebelião, os homens matam o seu pai, o obstáculo do grupo masculino, para terem acesso aos favores sexuais. Satisfeitos de suas necessidades sexuais, porém acometidos pelo sentimento de arrependimento e de culpa por terem cometido o parricídio, os homens tentam reverter a situação desesperadora.

O então líder da horda, morto por seus filhos ambiciosos, é envolto por uma aura divina e transformado em pai ancestral daquele grupo. A deificação do pai ancestral torna-se, assim, uma verdade universal, um imperativo categórico daquele grupo na sua interlocução interna, com o mundo e todo o cosmos.

As consequências do parricídio, segundo Freud, são: a origem do sagrado e das religiões com a devoção do pai ancestral morto por seus filhos; a proibição estrutura das relações sexuais incestuosas; e a origem do sistema de parentesco, onde o casamento se dará pela busca de mulheres em outras hordas. 

Fabulosa ou não, a narrativa de Freud é um indicativo importante para entendermos também algumas categorias da política de massas do nosso tempo de crescente secularização e laicização.

Toda a experiência política do século XX foi a saga do Líder-Partido-Estado disciplinador de seu povo. As ideologias de massa, com destaque para aquelas de viés socialista (comunismo, anarquismo, nacional-socialismo etc.) apregoam uma relação de devoção do povo para com o Líder-Partido-Estado. Incapazes de resolver os seus próprios flagelos, dramas individuais e frustrações, o apelo do homem-massa pedir socorro Estado, o nosso pai ancestral.

Esta deificação do Estado, transformado em instância superior de todo o conjunto da sociedade, cria um tipo de vínculo paternal, que empobrece a alma e infantiliza o cidadão. Os fascistas, na sua apoteose bestial, assim diziam: “Tudo pelo Estado; nada fora do Estado; nada contra o Estado” (Benito Mussolini).

*Breno Rodrigo é cientista político

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