Opinião

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Éramos nove

Foi, portanto, uma surpresa triste quando em dois mil e treze perdemos nosso querido pai centenário

Por Marluce Portugaels

11 Out 2019, 11h18

Crédito: Divulgação

Somos duas gerações de filhos lá em casa. Os quatro mais velhos, os quatro mais novos e uma no meio. Nove! Cinco homens e quatro mulheres. Era assim desde muito tempo. E não nos passava pela cabeça que um dia essa matemática pudesse mudar. Mas o destino veio e mudou tudo. E mudou de tal maneira que de repente de nove passamos a sete neste triste ano de dois mil e dezenove, a partir do qual a vida nunca mais terá o mesmo sabor para nossa família. Isso porque em nossas reuniões de família, quando falta um o grupo está incompleto.

Como qualquer família feliz, a nossa é dada a celebrações. Há mesmo um calendário de festas grudado na cabeça de cada um. Os eventos vão de aniversários, a casamentos, a batizados, a celebrações tipo carnaval, páscoa, dia das mães, dia dos pais, natal, e por aí vai. Além dos terços mensais. Vivíamos tão embebidos em nosso ambiente festivo que quase esquecemos do Livro de Eclesiastes, segundo o qual somos lembrados que tudo    tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de colher; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de juntar pedras; tempo de abraçar e tempo de afastar-se de abraçar; tempo de buscar e tempo de perder; tempo de guardar e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado e tempo de falar; tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz. Também não nos dávamos conta que, justamente porque há um tempo para tudo, nossas obras serão julgadas por Deus. Por isso devemos alegrar-nos em nossas obras.

Tempo de nascer era constante em nossa família. Assim como eram tempo de rir, de dançar, de abraçar, de amar. Tempo de morrer, porém, era algo tão longínquo, tão surreal que não nos dávamos mesmo conta que tal fenômeno existisse. Morrer para nós, era como para Millôr, “há coisas que se pode perfeitamente deixar para mais tarde, morrer é uma delas”. O Dia de Finados era lembrado com respeito, mas como não tínhamos a quem visitar no Cemitério, ficávamos em casa aproveitando o feriado.

Foi, portanto, uma surpresa triste quando em dois mil e treze perdemos nosso querido pai centenário. Então, a morte existe! Que tristeza! Para nós, nosso pai era eterno.    

Nossa luta mais árdua em família foi pela vida do irmão Raimar, diabético, o segundo dos homens e o terceiro na ordem da irmandade. Raimar “morreu” e “ressuscitou” inúmeras vezes, por sequelas da diabete. Quando ele, finalmente, nos deixou, no dia vinte de fevereiro, tivemos a segunda terrível surpresa. Incredulidade! Nossa família teria a segunda Certidão de Óbito! Meu Deus, como isso foi acontecer! Dor, pânico, tristeza imensa! Estávamos diante de uma nova realidade. E como era ruim lidar com ela!

Foi, então, que veio o golpe de misericórdia. O primogênito dos homens, filho extremoso, irmão amigo, esposo amoroso, pai dedicado, amigo fiel foi ferido pela temível foice da simbólica figura onipresente na vida como na literatura. Nos livros, até que ela, a morte, tem uma aura romântica. Na vida real, porém, a morte é a negação de tudo, a ausência total, a escuridão.

No desespero, apegamo-nos à misericórdia divina ou então à razão que confirma a inexorabilidade do fato. Não há nada que se possa fazer. A não ser chorar. E rezar pedindo ao além conformação. Neste ponto entra uma personagem que nos dá alento. Pelo menos para tentar compreender o que é a morte. O livro “A vida para além da morte” (1973), de Leonardo Boff, nos ensina sobre a morte e sua aceitação por nós, viventes. Segundo Boff, assim eu compreendo, nossa vida terrena é uma espécie de preparação para a vida celeste que vem após a morte. E nós precisamos acreditar nisso. Viver em função disso. Do contrário, de nada valerá viver. Se morrer for o fim último da vida, então, por que viver?           

Perplexos diante do cruel vazio que nos é imposto pela eternidade, nossa família, nossos amigos, todos procuramos rememorar, guardar na lembrança a pessoa que foi nosso amado Raimundo Lopes Filho, colhido tão extemporaneamente de nosso convívio, de nosso meio, e, acreditamos, acolhido no Céu com festas e louvores, como acontece com os justos e puros de espírito. Nosso consolo, mesmo fugaz, neste momento de infinita tristeza, é, seguindo as medidas ditadas pela eternidade, imaginarmos que dada a nossa transitoriedade na terra, o tempo que nos separa não será longo. Logo, logo estaremos todos juntos no Paraíso.

Como dissemos a nosso pai e ao nosso outro irmão, Raimar, agora dizemos “Até Breve” ao nosso querido irmão, Raimundo, meu companheiro de folguedos e de lutas, meu cúmplice, meu amigo.

Marluce Portugaels é professora          

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