Comércio Exterior

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Eleições na Argentina devem afetar desempenho das exportações locais

Por Marco Dassori

30 Out 2019, 09h58

Crédito: Divulgação

O retorno do kirchnerismo ao poder na Argentina preocupa as lideranças de comércio exterior do Amazonas ouvidas pelo Jornal do Commercio. O temor é que a volta da corrente política que governou o país entre 2003 e 2015 também signifique a reprise de políticas protecionistas que limem o comércio exterior do Brasil e do Amazonas com o país andino. 

Todos concordam também que o acirramento de ânimos em guerrilhas verbais e ideológicas é um fator de instabilidade no comércio exterior entre os dois países, embora descartem que o conflito possa comprometer o andamento das negociações para o acordo Mercosul - União Europeia – que depende mais dos países desta última para ser concretizado.

A vitória de Alberto Fernández e de Cristina Kirchner, respectivamente o presidente e a vice-presidente, pela coalizão de esquerda Frente de Todos, foi dada como certa neste domingo (27). Com mais de 97% das urnas apuradas, a dupla somava 48,1% dos votos – contra 40,37% do atual governante, Mauricio Macri. 

Para vencer as eleições em primeiro turno na Argentina, é necessário obter 45% dos votos ou 40% e dez pontos de vantagem em relação ao segundo colocado. Alinhado inicialmente com políticas de livre mercado, o presidente da Argentina reconheceu a derrota no mesmo dia, ao cumprimentar a dupla e prometer “uma oposição saudável, construtiva e responsável” que “reafirme as conquistas alcançadas”.

O novo governo assume em 10 de dezembro, em um mandato de quatro anos, com a permissão de apenas uma reeleição. Iniciado em 2015, com a promessa de corrigir os desvios de rota da administração anterior, com políticas liberalizantes na economia, o atual governo entrega um país com inflação anual de 55%, 30% de sua população vivendo na pobreza e 10% na condição de sem-teto. 

Fernández e Macri afirmam estar preocupados com os argentinos e disseram que farão o melhor no período de transição, tendo marcado uma reunião para esta terça (29). A economia, contudo, segue dando sinais negativos, diante do grau de incerteza, levando o Banco Central da Argentina (BCRA) a estabelecer um novo limite de compra de US$ 200 por mês, até dezembro, para pessoas físicas com conta bancária. O limite era de US$ 10 mil, até o dia anterior.

‘Estudando o adversário”

O gerente executivo do CIN (Centro Internacional de Negócios) da Fieam, Marcelo Lima, se diz pessimista em relação à troca de guarda na Casa Rosada, mas avalia que, qualquer medida mais agressiva só deve ser tomada após um período de transição e adequação do novo governo.

“Acho que os quatro ou seis primeiros meses do novo governo vão servir para estudar o adversário e qualquer medida reguladora só deve ser tomada depois desse prazo. Esta é uma relação de mão dupla: a Argentina depende dos produtos e do mercado do Brasil e vice-versa. Por isso, esperamos que a ideologia não determine esse embate”, asseverou Marcelo Lima.

Lima considera que, por enquanto, o cenário não é favorável a essa relação. Observa que as incertezas em torno das eleições argentinas já vêm causando oscilações no fluxo comercial com o país vizinho, nos últimos meses e diz que as brigas internas do governo federal também não ajudam. Mas, o dirigente considera que os eventuais atritos serão limitados ao interesse comum.

“Argentina e Brasil são os principais países do Mercosul. Por isso, não creio que haverá retaliações a ponto de comprometer essa aliança. Principalmente agora, quando o bloco se prepara para estreitar relações com a União Europeia”, opinou.

Crise e intervencionismo

Na mesma linha, o coordenador da Comissão de Logística do Cieam, professor da Ufam e empresário, Augusto Cesar Barreto Rocha, também antevê políticas mais protecionistas a partir da troca de governo. “Ainda há um tempo para a transição, mas será uma tendência na conjuntura atual deles. Tanto pela crise que eles se colocaram, quanto pelo perfil de afirmações intervencionistas que vêm sendo feitas”, afiançou.

Os segmentos econômicos brasileiros mais suscetíveis ao embarreiramento comercial, conforme Rocha, seriam justamente os que comercializam intensamente com a Argentina. Em especial automóveis. O dirigente também não esboça otimismo a respeito do eventual comportamento das exportações do Amazonas, em especial dos manufaturados da Zona Franca, mas considera que o realismo e as conveniências de curto prazo triunfarão no final. 

“Acredito que a tendência será voltar a perder mercado. Na geopolítica, eles devem buscar afirmações nacionalistas e o Brasil deve ser um opositor interessante para enaltecer o estilo argentino. Houve mostras nas últimas horas. Todavia, deve ser mais sereno após a posse, pois o Mercosul fragilizado seria pior para a Argentina do que para o Brasil”, arrematou Augusto César Barreto Rocha.

 

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