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"Deve-se agregar valor aos produtos brasileiros"

Por Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com

21 Nov 2018

Crédito: Evaldo Ferreira

ENTREVISTA - Renê Luzardo - Geólogo



Nos últimos tempos muito tem se falado sobre o Nióbio e a redenção econômica do Brasil com a sua exploração (até o presidente eleito Jair Bolsonaro aposta nisso), pois o país possui mais de 98% das reservas desse metal no mundo, estimadas em 842 milhões de toneladas, cujo preço, hoje, giraria em torno de US$ 22 trilhões. E o Amazonas possui uma grande jazida de Nióbio. Mas, empolgação à parte.

Será que seria isso mesmo? O Jornal do Commercio foi ouvir o geólogo Renê Luzardo, formado pela UFRGS (1987) onde foi bolsista de iniciação científica e se especializou em Geologia Estrutural (1989). Mestre em Geologia Regional da Amazônia pela UFAM (2006), também foi professor convidado de petrologia desta instituição. Atualmente trabalha na CPRM (Serviço Geológico do Brasil), lotado desde 1994 na Superintendência Regional de Manaus.

Jornal do Commercio:
O Nióbio é, ou não, um metal raro no mundo e abundante no Brasil?
Renê Luzardo: Não. O Nióbio não é um elemento químico raro no planeta Terra, que possui uma concentração de aproximadamente 20 ppm (partes por milhão) de Nióbio. Agora, o Brasil possui atualmente as maiores reservas de minério de Nióbio do mundo, gigantescas, em relação ao que ocorre em outros países.

JC: Por que esse metal é, ou pode vir a ser, importante para a economia do país?
RL: O Nióbio é um metal que confere propriedades especiais às ligas metálicas que compõe como resistência à corrosão e supercondutibilidade elétrica. Apesar da importância do Nióbio na produção de ligas especiais, esse metal é uma commodities com super-oferta no mercado mundial e com preço relativamente baixo. Dificilmente a demanda por Nióbio aumentará.

JC: Em quais produtos o Nióbio é usado como matéria-prima?
RL: Ele é utilizado, principalmente, na produção de ligas especiais por sua vez usadas na medicina, aeronáutica, espacial e fabricação de super-condutores e eletro imãs, além de vários outros segmentos industriais.

JC: O Brasil tem mais de 98% das reservas de Nióbio do mundo. Onde estão essas jazidas no país?
RL: Como eu disse antes, o Brasil possui as maiores reservas desse minério do planeta e duas minas respondem por quase toda a produção nacional. Estão localizadas em Araxá/MG e Catalão/GO de onde extraem o elemento químico do mineral chamado de pirocloro. Existem, no Brasil, outras áreas de ocorrência de Nióbio, que também pode ser obtido a partir do mineral columbita-tantalita, principalmente na Amazônia brasileira (como, por exemplo, em São Gabriel da Cachoeira, no alto rio Negro), mas ainda são pouco conhecidas e precisam ser mais pesquisadas, principalmente por instituições brasileiras.

JC: O Brasil está ganhando dinheiro com a exploração do Nióbio?
RL: Apesar do preço relativamente baixo, acredito que sim, pois o país é bastante competitivo na produção da liga de ferro e de Nióbio.

JC: O site Wikileaks vazou documentos secretos do governo americano que incluíam as minas brasileiras de Nióbio como estratégicas para os EUA.
RL: Curioso. Se as minas de Nióbio do Brasil são tão importantes para os EUA, porque eles não procuram o minério em seu próprio território, já que o mesmo é relativamente comum?


JC:
Então, o que fazer com o Nióbio brasileiro?
RL: Deve-se agregar valor aos produtos brasileiros e não exportar apenas commodities. Agrega-se valor realizando-se pesquisas científicas com tecnologias modernas e ideias novas. E nunca parar de pesquisar e prospectar minério de Nióbio que, invariavelmente, nos levará a novas descobertas, pois esse metal possui outros importantes metais em sua composição.

Vamos aos fatos
O Brasil possui as maiores reservas de Nióbio do planeta mas, como não detém alta tecnologia para transformar esse metal em manufatura, o vende no estado puro, na verdade, uma mistura chamada de ferronióbio, e matéria-prima não é cara. Caros são os produtos resultantes dessa matéria-prima, depois revendidos para o Brasil, principalmente pela Alemanha e China, hoje, dos poucos países com tecnologia avançada para utilizar todo o potencial do Nióbio.

Ainda que o Brasil, por ser o detentor das maiores reservas de Nióbio do planeta, quisesse impor o preço do metal, não conseguiria, pois a quantidade dele usada na siderurgia e nas indústrias de alta tecnologia, é pequena e ele pode ser substituído por outros metais como o vanádio e o titânio.

A solução para o país ganhar muito dinheiro com o Nióbio seria desenvolver produtos que aumentassem o valor agregado do metal, tornando-o imprescindível para a humanidade, mas aí seriam necessários anos, anos e mais anos de investimentos em pesquisas e alta tecnologia, coisas que no Brasil são sempre deixadas para segundo plano.