Opinião

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Deslocamento do consumo e instituições

Vá entender este animal dito racional, cometendo tanta irracionalidade

Por Orígenes Martins

13 Jun 2019, 12h26

Crédito: Divulgação

Em épocas de dificuldade para explicar os fatos econômicos, sai um índice de crescimento no consumo da população brasileira neste último trimestre, índice este oficializado pelo IBGE, lógico. A pergunta além de rápida e lógica torna-se inevitável: “como pode estar havendo um aumento de consumo, se ao mesmo tempo estamos experimentando queda na produção, aumento no desemprego, até mesmo queda na renda per capita dos brasileiros?”

Mesmo sendo um tanto difícil de explicar, não é uma tarefa impossível quando se trata do elemento formador da ciência econômica, o Ser humano. No momento em que faltam recursos dos salários cortados pelo desemprego ou mesmo pela mudança para empregos menos confortáveis em termos de remuneração, ou mesmo as opções mais radicais do “fazer por conta própria”, o ser humano busca formas alternativas para não deixar de consumir. O gasto com certas despesas como a conta do celular, o cigarro ou mesmo a bebida no fim de semana, não pode ser deixada de lado, mesmo quando nem mesmo salário tem para sustentar a família. Vá entender este animal dito racional, cometendo tanta irracionalidade.

O que está acontecendo na verdade em termos de mercado, é a mudança de patamares de consumo, com a substituição dos bens pelos bens substitutos, as alterações de padrão de vida. A linha de Oferta e Procura muda totalmente de nível e o equilíbrio do mercado vai para pontos absolutamente impensados. A questão em muitos casos é saber se os produtores, principalmente eles, conseguem entender estas mudanças para conseguir adaptar seus produtos para estas novas necessidades do consumidor. Não adianta bater pé em questões como nível de qualidade ou tradição de mercado do produto, se não tiver público para consumir estas joias raras. A inteligência do verdadeiro empreendedor passa então por esta decisão difícil, mas necessária de adaptação do produto ao consumidor. Aquele que ainda acha que a obrigação é do consumidor em adaptar-se ao seu produto, é sério candidato ao fracasso.

Todo este raciocínio, baseado em um índice oficial e recente, divulgado por órgão oficial e analisado à luz dos mais claros conceitos econômicos, servem de linha de pensamento e análise para o nosso Polo Industrial de Manaus. Faz tempo que se alerta sobre a necessidade de rever os processos produtivos e os gestores tanto da Suframa quanto das empresas veem esta crítica como um xingamento à sua capacidade tecnológica. Na verdade, este alerta diz respeito muito mais a uma análise profunda e técnica em relação à adaptação de nossos produtos ao mercado e suas mudanças que à capacidade tecnológica de nosso Polo, que por sinal é de alto nível. Não adianta, porém, ter capacidade de produzir bens de alto nível, alta tecnologia e resultados impensados, sem ter para quem vender. Portanto, se o consumo está se deslocando, se adaptando, as empresas obrigatoriamente precisam seguir este deslocamento e reorganizar seus processos produtivos para não ficar simplesmente vendo o barco afundar.

Esta análise econômica não pode ficar completa sem um questionamento da nossa situação institucional vivida atualmente pela sociedade brasileira. Nas eleições tivemos claramente os eleitores deixando uma clara mensagem em relação ao seu desejo de mudança e de intolerância em relação ao sistema que durante quase duas décadas simplesmente assaltou o país da maneira mais absurda e cínica que qualquer governo jamais se atrevera a fazer. No entanto a promessa maior feita pelo novo governo, de derrubar a prática do toma-lá-dá-cá, que dominou os governos anteriores e manteve o poder dos corruptos, encontra atualmente uma barreira talvez não intransponível, visto que o Bolsonaro não está disposto a ceder, mas certamente bastante dolorida ao povo brasileiro.

Nossos congressistas ainda não entenderam ou não fazem a menor questão de entender, que a prática destes bloqueios infantis e corruptos dos assuntos estratégicos ao governo, devem ser encarados como forma de agradar ao povo brasileiro e não ao presidente ou a um partido em particular. No entanto, a prática da corrupção ficou enraizada nos três poderes e o povo brasileiro está pagando um preço bastante alto pela inércia com que aceitou e demorou para reagir. Quem sabe ações mais duras e mais sofrimentos nos bolsos do cidadão, entendendo ele que não adianta buscar culpados novos, pois os culpados estão aí há quase vinte anos, tudo isso possa acordar a massa crítica e inteligente deste país, aquela que ainda não foi emprenhada pelo ouvido. Enquanto isto, o Ministro Moro, o cara que mais fez pela justiça deste país em todos os tempos, sofre uma campanha desonesta no sentido de desestabilizá-lo, pois quem tem medo dele certamente tem rabo preso.

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