Agronegócios

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Desacordo com Grupo Ammagi sem solução viável para produtores locais

Por Marcelo Peres

19 Ago 2019, 11h17

Crédito: Divulgação

A pendenga envolvendo o grupo Ammagi sobre a comercialização do milho no mercado local continua no Amazonas. Pelo menos 300 mil produtores rurais ainda se ressentem da falta de insumos para a produção agrícola no Estado. Liderado pelo ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, o conglomerado mantém a sua posição inicial de só priorizar as suas atividades com foco no mercado externo, apesar de operar o Terminal Graneleiro de Itacoatiara (do qual é proprietário), de onde exporta seus produtos para a Europa, Ásia e a outros Estados brasileiros.  

Nos últimos dois meses, foram realizadas sucessivas reuniões entre representantes da empresa nacional, parlamentares, órgãos públicos, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil, seção Amazonas) e lideranças empresariais do setor primário na Aleam (Assembleia Legislativa do Amazonas) para convencer a empresa a mudar a sua política de exportação. No entanto, todas foram inúteis até agora devido à intransigência do grupo empresarial. As discussões sobre o caso não avançaram e o desfecho não deve acontecer tão cedo. 

As reuniões foram comandadas pela Comissão de Geodiversidade, Recursos Hídricos, Minas, Gás, Energia e Saneamento da Assembleia. Vieram de Cuiabá (MT) até diretores de primeiro escalão do gigante do setor de agronegócios para participar dos encontros, além do representante da gerência do Terminal Graneleiro de Itacoatiara. No último deles, o grupo propôs a venda de milho e de outros insumos necessários para a produção agrícola com os mesmos preços praticados no mercado externo, muito superiores aos adotados por revendedores dos produtos no mercado amazonense, segundo o presidente da Faea (Federação da Agricultura e Pecuária do Amazonas), Muni Lourenço Silva Junior.   

Alegando questões éticas, Lourenço preferiu não mencionar valores de mercado ou porcentuais sobre a venda de insumos, mas não escondeu o seu protesto contra o grupo Ammagi.  “É vergonhosa uma proposta dessas, impraticável, que só viria a prejudicar mais ainda os produtores rurais do Amazonas”, afirmou. “Não se pode trabalhar com valores que ultrapassam nossa capacidade de sobrevivência econômica no Estado. É uma posição muito arraigada e prejudicial”, acrescentou.

Segundo o deputado Sinésio Campos (PT-AM), que preside a Comissão de Biodiversidade da Aleam, na realidade, o Amazonas virou hoje um corredor de exportação para o escoamento dos grãos do grupo Amaggi. Ele divulgou uma carta aberta à população manifestando a insatisfação das lideranças políticas e empresariais do Estado com a  empresa nacional que se recusa a vender a produção de grãos para o mercado local, principalmente do milho, um dos principais insumos no setor primário.

Até o governador do Estado, Wilson Lima, fracassou na tentativa de reverter o caso junto à empresa. “Bateram a porta da frente na cara do governador, que tentou amenizar a situação dos produtores rurais”, disse uma liderança local, que preferiu não se identificar. 

Empréstimos

De acordo com o deputado Sinésio Campos, o grupo Amaggi foi beneficiado com recursos do governo amazonense (foram milhões de dólares) para a construção do seu primeiro complexo graneleiro no Estado. “Mesmo assim, a empresa não reconhece os benefícios e a liberação de recursos que permitiram a sua operacionalização de grãos no Amazonas”, disse o parlamentar. “Deveria ser grata por ter recebido essa ajuda”, acrescentou o parlamentar.

O acesso aos representantes do grupo Ammagi não é fácil. Eles preferem manter distância da imprensa. Na última reunião na Aleam, se dispuseram apenas a mencionar que todos os empréstimos contraídos junto ao governo do Amazonas foram pagos e que o foco na exportação de seus insumos deve-se a uma política interna de negócios, capitaneada pelo poderoso Blairo Maggi, ex-ministro do então governo Michel Temer. E ainda fizeram questão de evidenciar que recolhem todos os tributos pela operacionalização de grãos no Estado, informação confirmada pela Receita.

Portanto, não há nada na legislação fiscal que deponha contra a posição da empresa em só priorizar a exportação de seus produtos, segundo consultores. Mas o grupo deveria pelo menos ser mais flexível em sua política com o ‘acordo de cavalheiros’ firmado por ocasião dos empréstimos que possibilitaram a construção de seu terminal graneleiro no Estado, avaliam especialistas.

Com base em informações de lideranças agrícolas, o deputado Sinésio Campos enumerou a quantidade de insumos necessários para manter a produção no setor primário do Amazonas. Entre os principais reivindicados figuram milho (120 mil toneladas/ano), casca de soja (20 mil toneladas/ano), farelo de soja (50 mil toneladas/ano), caroço de algodão, cuim de arroz e fertilizantes, que são matérias-primas básicas essenciais para a pecuária e piscicultura no Estado.

Hoje, as poucas toneladas de milho que são vendidas no mercado local vêm através da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), adquiridas junto a pequenos e médios produtores da região Centro-Oeste. A produção local é incipiente em função do baixo teor de calcário do solo, mas um estudo recente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária)  aponta soluções com introdução de novas técnicas de plantio, capazes de tornar o Estado autossuficiente na produção desse insumo.

Lobby

Bilionário, com grande influência empresarial e política, o ex-ministro Blairo Maggi é o principal líder do lobby do setor de agronegócios que opera nos bastidores do Congresso Nacional, em Brasília. Nos últimos 42 anos, o seu grupo construiu uma eficiente rede logística que permite o transporte de grãos em seus corredores de exportação distribuídos no País. 

A holding comandada pelo lobista detém o monopólio de grãos no País e ainda pretende estender suas fronteiras de plantação de soja em direção ao Amazonas com a recuperação da estrada federal BR-319, que liga Manaus a todas as capitais do Brasil. Hoje, a empresa leva a produção de insumos pelo chamado Corredor Noroeste de Exportação, escoando grãos das regiões noroeste do Mato Grosso e sul de Rondônia por carretas até Porto Velho (RO), onde possui um porto de transbordo. A partir daí, os carregamentos seguem em comboios formados por barcaças pelo rio Madeira até o Porto Graneleiro de Itacoatiara (AM), às margens do rio Amazonas, de onde são exportados em navios para a Europa e Ásia.

Segundo analistas econômicos, há indícios de que Blairo Maggi tenha agido para favorecer suas empresas quando ocupava o cargo de ministro na época do governo Michel Temer. Só em 2016, o faturamento da holding comandada por ele chegou a US$ 3,4 bilhões. E de lá para cá, a previsão é que essas cifras devem ter dobrado, principalmente agora com a política do governo Jair Bolsonaro (PSL-SP) de estimular as atividades do agronegócio dentro das áreas de abrangência da Região Amazônica.

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