Empreendedorismo

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Cafessaí, açaí com gosto de café

O objetivo de Charley era chegar ao Mercosul, mas com seu produto amazônico ele pode atingir o mundo

Por Evaldo Ferreira @evaldo.am @JCommercio

26 Nov 2019, 20h11

Crédito: Divulgação

O açaí é um fruto que sempre fez sucesso na Amazônia, tanto que sua bebida ganhou o pomposo título de vinho de açaí. É tão generoso com quem o aprecia, que frutifica o ano inteiro, seis meses uma variedade no Amazonas e seis meses depois, outra variedade no Pará. Apreciado no Pará muito antes do que no Amazonas, o açaí recentemente ganhou o Brasil e agora começa a ir para o mundo, inclusive com outros sabores, como o café.

“Minha família é de Codajás e, há uns quinze anos meus irmãos começaram a plantar a palmeira, cujos frutos sempre venderam bem. Nos seis meses de safra, de novembro a abril, o dinheiro corre fácil no município”, contou Charley Oliveira que, em Manaus, resolveu explorar as potencialidades do fruto possuidor de um verdadeiro arsenal de nutrientes (vitaminas A, E, D, K, B1, B2, C, minerais (cálcio, magnésio, potássio, ferro), aminoácidos, antioxidantes, óleos essenciais, além de ser excelente energético natural).

“Meu envolvimento com pesquisas relacionadas a como dar novos sabores ao açaí vem desde a adolescência, mas o que motivou mesmo estas pesquisas foi a questão ecológica”, falou.

“Como em Codajás se consome muito açaí, as sementes se amontoam por todos os lados, jogadas fora. Sempre pensei numa maneira de como com o fruto, também, ganhar dinheiro com as sementes”, disse.

No final da década de 1980, ainda na escola, durante uma feira de ciências, Charley apresentou uma bebida feita à base das sementes torradas do açaí.

“Ficou horrível. Ninguém gostou, mas valeu como primeiro teste dos futuros experimentos”, riu.

Toneladas de sementes

Nos anos, e até nas décadas seguintes, Charley continuou realizando testes com as sementes de açaí em busca da bebida que agradasse amazonenses e paraenses, já que cada estado diz que sua fruta é a mais saborosa.

“Fiz vários cursos ao longo desse tempo: de torrefação de café, de seleção de grãos, de moagem, de limpeza e desinfecção dos grãos. No caso da torrefação, foram cronometrados vários tempos para se chegar à conclusão de quantos minutos seriam necessários para que o sabor da bebida ficasse agradável. Costumo dizer que queimei algumas toneladas de sementes nestes testes”, brincou.

Charley até buscou apoio em instituições de pesquisa locais que pudessem auxiliá-lo nos trabalhos, mas lamenta não ter encontrado.

“Foi o jeito ir até o Ital (Instituto de Tecnologia de Alimentos), em São Paulo, que me deu a ajuda que eu precisava”, informou.

O Ital é referência nacional na realização de atividades de pesquisa, desenvolvimento, assistência tecnológica, inovação e difusão do conhecimento nas áreas de embalagem, transformação, conservação e segurança de alimentos e bebidas. O órgão se destaca por desenvolver tecnologias que ampliam o ‘tempo de prateleira’ dos produtos e viabilizar o aproveitamento de resíduos de processamentos.

“Como resultado dos trabalhos realizados em parceria com o Ital, finalmente consegui desenvolver um produto palatável ao qual dei o nome de Cafessaí, pois tem o sabor de café. Fiz vários testes de degustação em cafés na cidade até atingir quase a nota máxima de sabor pelos degustadores, pessoas comuns”, falou.

Há três meses o Cafessaí foi lançado oficialmente, em embalagem própria, e começou a ser comercializado.

“Não usei a grafia Cafeçaí, com ‘ç’ porque o meu objetivo é o Mercosul, e nossos hermanos não utilizam esta letra”, explicou.

 

2021 em Dubai

Atualmente Codajás é o maior produtor de açaí do Amazonas, com 19 mil toneladas por safra, seguido por Anori, com oito mil, de acordo com o Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas).

“Os frutos que uso para produzir o Cafessaí vêm das fazendas de meu casal de irmãos que, há uns 15 anos, plantam açaí em Codajás em suas terras, mas o meu objetivo é, à medida que as vendas forem aumentando e a demanda pelo fruto crescer, a matéria-prima vir de uma cooperativa de produtores”, adiantou.

“Hoje estamos empacotando 300 kg/mês de Cafessaí, em embalagens de 250 g, mas o maquinário próprio, desenvolvido por mim, tem capacidade para processar três toneladas/mês de sementes”, garantiu.

“O Cafessaí pode ser consumido por qualquer pessoa que goste de café, pois o gosto é similar e eu diria até melhor, porque é adocicado. As sementes possuem de 1% a 7% de frutose, o mesmo açúcar não prejudicial à saúde que existe na banana, na maçã, no mamão, na goiaba. Você pode beber o Cafessaí sem colocar açúcar”, afirmou.

Orgânico e vegano, o produto não possui aromatizantes nem conservantes e mantém praticamente todos os nutrientes do açaí.

“Em junho estive num evento no Rio de Janeiro e o sheik Hamad Buamim, presidente da Câmara de Comércio de Dubai foi até meu estande e provou o Cafessaí. Disse que o gosto era semelhante ao café consumido em Dubai, perguntou se eu era árabe e me convidou para apresentar o produto, em 2021, durante o Encontro Mundial da Câmara de Comércio de Dubai. Acho que iremos além do Mercosul”, riu.

Quem quiser saber mais informações sobre o Cafessaí pode ligar para 9 9962-7678.