Opinião

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As entranhas das milícias no Estado

Espero que algum pensador brasileiro entre nos anais da história com teoria sobre "o poder da milícia no Estado"

Por Jonas Gomes

25 Mar 2019, 13h00

Crédito: Divulgação

O artigo aborda tema delicado, mas com potencial de ser uma grave ameaça a paz e ao desenvolvimento da nação: o crescente poder dos milicianos no Estado.

Comprei “O Livro da Política” de Paul Kelly, autor, pró-diretor e professor da teoria política na London School of Economics and Political Science, bem como editor e coeditor de 11 livros, focado no pensamento político britânico e na filosofia política contemporânea. A obra é assinada por especialistas em ciência política, ambiental, governança, reformas anticorrupção, história econômica, democracia, alguns advindos até do Banco Mundial.

A obra viaja pela evolução do pensamento político da humanidade, bebendo do conhecimento de dezenas de pensadores: Confúcio (Se desejares o bem, o povo será bom), Sun Tzu (a arte da guerra é de vital importância para o Estado), Platão (até que os filósofos sejam reais, as cidades jamais estarão a salvo dos seus males), Agostinho de Hipona (não havendo justiça, o que são os governos senão um bando de ladrões), Al-Farabi (o povo recusa o governo de homens virtuosos), Marsílio de Pádua (a igreja deveria se dedicar a imitar Cristo e abandonar seu poder secular), Simón Bolivar (um estado grande demais acaba, por fim, decadente), Mahatma Gandhi (a não violência é o primeiro artigo da minha fé), Mao Tsé-tung (o poder político vem do cano de um revólver), etc.

No futuro, espero que algum pensador brasileiro entre nos anais da história, com teoria envolvendo o tema “o poder da milícia no Estado”. E para entendê-lo, recomendo o livro “Dos Barões ao extermínio: a história da violência na Baixada Fluminense“, escrito pelo Dr. José Alves, professor titular da Universidade Federal Rural do RJ e que há 26 anos estuda as milícias do RJ. Em uma recente entrevista à EXAME, Dr. José Alves foi enfático:

1o) no RJ, as milícias estouraram na época da ditadura. Em 1967 surgiu a PM para auxiliar os militares. E a partir dai, há o surgimento dos esquadrões da morte;

2o) no final dos anos 60, as milícias surgiram como grupos de extermínio compostos de PMs e outros agentes de segurança que atuavam como matadores de aluguel, funcionando a pleno vapor em 1970;

3o) nos anos 80, surge a atuação de lideranças civis como grupos de extermínio, junto com os agentes do Estado;

4o) com a democracia, os matadores começam a se eleger nos anos 90 a vereadores, deputados e prefeitos;

5o) entre 1995 e 2000, há um protótipo do que seriam as milícias da Baixada, Zona Oeste e do RJ, focadas em grilagem com ocupações urbanas de terras;

6o) a partir de 2000, esses milicianos envolvem policiais civis e militares, bombeiros, agentes de seguranças, atuando em áreas antes do tráfico, criando uma estrutura de poder baseada na cobrança de taxas;

7o) no início eles vendem a ideia de defender a comunidade, se contrapor aos traficantes, mas com o tempo a população percebe que quem se contrapõe aos seus negócios, são mortos;

8o) eles dominam áreas pobres, na comunidade Rio das Pedras, a milícia atua no sentindo de controlar, tomar e legalizar imóveis, com acesso privilegiado de informações junto a prefeitura e cartórios. Em outras comunidades, eles controlam taxa de segurança dos comerciantes, moto-taxistas são obrigados a pagar R$ 80/semana, pipoqueiro paga R$ 50/semana, sob a alegação de garantir a segurança, mas com o passar do tempo eles passam a controlar a distribuição de água, de gás, de cigarro, de bebida, transporte clandestino de pessoas, gatonet, etc;

9o) em Duque de Caxias, há escolas públicas não abastecidas pelo sistema de água do CEDAE, então os milicianos criam um vínculo público com a prefeitura, ganham a licitação e distribuem a água a um preço absurdo por meio dos caminhões pipa. Além disso, eles são pagos para realizar execuções sumárias e há registros de que lidam com o tráfico de drogas e armas;

10o) no caso do RJ, não há ausência do Estado, a Milícia é o Estado. Em 14 anos de gestão do PT, não foi possível arranhar essa estrutura e em alguns casos o partido fez até aliança eleitoral com esses grupos;

11o) a atuação deles é forte na política, além de eleger seus candidatos, botam seus familiares para trabalhar nos gabinetes dos eleitos. Um caso dessa imoralidade é o de Flávio Bolsonaro, que por anos manteve em seu gabinete, vários parentes de milicianos, como a Valdenice Meliga, irmã de dois milicianos presos. Além dessa que assinava os cheques do deputado, havia a esposa e filha do Capitão expulso da PM, Adriano M. da Nobrega, apontado com um dos chefes do Escritório do Crime, suspeito de envolvimento na morte da vereadora Marielle e seu motorista. O assessor Queiroz, sua esposa e filhas, apontadas com movimentação financeira suspeita pelo COAF e que fugiram do MPRJ também estão neste lixo;

12o) os milicianos também adotam discurso moralista focado na família, se infiltram e atraem lideranças de igrejas evangélicas, criando uma estrutura tradicional, conservadora, obtendo a credibilidade dos fiéis;

13o) em algumas comunidades, as milícias vendem votações inteiras durante as eleições. Na Baixada Fluminense como um todo, na Zona Oeste, fecham pacote, com controle preciso do título do eleitor, local de votação de cada título, quantos votos vai ter ali, etc;

No dia 12/03, o MPRJ prendeu e acusou mais dois diabólicos, envolvidos com a morte da vereadora Marielle e seu motorista. O aposentado PM Ronnie Lessa, um dos temidos do Escritório do Crime, acusado de ser o matador, bem como o ex-PM Élcio de Queiroz (expulso da PM). Pegaram também o laranja do Lessa, seu vizinho tinha dezenas de caixas contendo 117 fuzis desmontados e farta munição. Não demorou para o nome de Jair Bolsonaro surgir na mídia, uma vez que é vizinho do Lessa, lá no luxuoso condomínio com 50 casas, cada uma de R$ 3 milhões. Também o segundo Queiroz perturbou a vida do Mito com uma foto do fã postada em seu facebook. É fato que Jair e Flávio subiram na tribuna para homenagear e/ou defender os milicianos, atuando para criticar e/ou votar contra a CPI das Milícias. Não tem como ignorar os fatos sobre como atuam para defender essa gente ruim. Exemplo, o senador Flávio apresentou em seu primeiro projeto, um dia após a prisão de Lessa e Queiroz, um projeto de Lei (PL 14551/2019) para autorizar a instalação, no país, de fábricas civis de armas de fogo e munições. Imaginando que a aberração fosse aprovada, então o vizinho exímio matador Lessa, de traficante de armas passaria a ser fornecedor do exército, dos bombeiros e até do Ministério da Defesa.

Friso que a vereadora Marielle era uma das poucas vozes dentro do parlamento que denunciava a grilagem e o terror tocado pelos milicianos nas favelas. Sinceramente, não acredito que ela foi assassinada apenas por ser negra, por defender as minorias como defendem os da esquerda para dar visibilidade as suas causas, ou algumas autoridades que querem logo encerrar o caso para blindar o real mandante. Ela foi assassinada por denunciar e ameaçar atrapalhar o amaldiçoado mundo dos negócios dos milicianos, impactando os políticos e outros graúdos. Como seria bom se o temido Ministro da Justiça alocasse mais gente da PF para elucidar logo caso, pois o ex juiz e atual governador do RJ já afastou o delegado, é o mesmo que apareceu nas eleições apoiando o atual presidente e ao lado de candidatos metidos a valentões que rasgaram a placa de homenagem a vereadora.

Assim, nobre leitor, será que agora o poder da milícia chegou forte a CD, ao Senado e ao Governo Federal?

*Dr. Jonas Gomes da Silva – Vice-Chefe do Departamento de Engenharia de Produção da FT-UFAM – jgsilva@ufam.edu.br


 

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