Manaus, 18 de Setembro de 2018
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Minha casa, meu negócio

Por: Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com
03 Set 2018, 17h39

"Posso até aplicar injeção em algum amigo que esteja precisando, mas técnico de enfermagem, e empregado, nunca mais", Adriano Ferreira - empreendedor




        Levantamento feito pelo Sebrae mostrou que cada vez mais as pessoas estão abrindo seu próprio negócio, em casa. Os motivos são vários: desemprego e dificuldade em arrumar um novo emprego, perda de direitos trabalhistas e o principal deles, o desejo de deixar de ser empregado e se sujeitar a um patrão, e se tornar um deles, sem falar da comodidade de acordar e já estar no local de trabalho. Mas nem tudo são flores. Dificuldades e problemas, em menor escala, podem ser os mesmos de um grande empreendedor.

        Curiosamente os personagens da matéria a seguir tem o mesmo nome, Adriano e Adriana, trabalham na mesma rua, no Bairro da Paz, a poucos metros um do outro, e com alimentos, e cansaram de ser empregados. Mas aí começam as diferenças. Adriana trabalha só pela manhã, servindo café regional; e Adriano à noite, com um cardápio de comida paraense.

        O técnico de enfermagem Adriano Ferreira dos Santos, é de Oriximiná, no Pará, e veio para Manaus em 2001, onde serviu o Exército, na fronteira, em São Gabriel da Cachoeira. De volta a Manaus, trabalhou em clínicas e hospitais particulares atuando na sua profissão. Mas não era aquilo que o satisfazia.

        "Em 2013 resolvi cursar a faculdade de gastronomia, porque sempre gostei de fazer comida e já pensava em abrir um restaurante", lembrou.

        Sem dinheiro para alugar um local e montar o seu restaurante, em maio do ano passado Adriano ocupou a garagem de sua casa com quatro daquelas cadeiras de plástico e começou a vender tacacá.

        O sucesso nas vendas do tacacá foi tão grande que no final do ano passado mesmo Adriano quebrou a parede que dividia a garagem, da sala de sua casa e ampliou o espaço que ganhou o nome de 'Até o Tucupi', expressão usada tanto em Manaus quanto no Pará. "Lá a gente fala pra uma mulher que está grávida. No meu bistrô eu também quero que as pessoas saiam com a barriga cheia", riu. E o cardápio aumentou, oferecendo pato no tucupi, maniçoba, farofa de camarão, pirarucu de casaca, bolinhos de piracuí, e vários outros itens.

        Neste ano, Adriano quebrou a parede que separava a sala, do seu quarto, ampliando ainda mais o bistrô e chamou um amigo para fazer a decoração, amazônica, do espaço. As cadeiras de plástico, há muito foram substituídas por dez outras, de palete. "Só falta agora eu 'invadir' o quartinho onde passei a dormir", brincou.
        O 'Até o Tucupi' só abre de quarta a domingo, das 18h30 às 22h, mas lota seus 40 lugares. "Na sexta-feira a comida acabou antes da hora porque veio uma quantidade de gente que eu não esperava. E ainda alugamos para aniversários", contou.

        O ex-enfermeiro atua diretamente na cozinha de seu bistrô e agora emprega quatro pessoas.

        "Posso até aplicar injeção em algum amigo que esteja precisando, mas técnico de enfermagem, e empregado, nunca mais", revelou.

        De domingo a domingo
        Adriana Lopes trabalhou durante três anos, de domingo a domingo, numa empresa no Polo Industrial de Manaus onde, na repetição de movimentos de uma linha de montagem, adquiriu uma LER (Lesão por Esforço Repetitivo) e foi obrigada a sair do emprego conseguindo outro num local não menos estressante: um shopping, onde também trabalhava de domingo a domingo.

        "Até que eu cansei daquilo, então, há sete anos, minha mãe deu a idéia de eu montar um café, aqui na frente de casa, na calçada, porque a parte da frente, interna, já estava alugada. E ainda tinha um porém: nem café eu sabia fazer. Mas, mais uma vez minha mãe ajudou, preparando café e sopa, enquanto eu corria atrás de quem soubesse fazer essas comidas e comprava o material do café e da sopa", contou.

        "Comecei com três mesas, dessas de plástico, na calçada, e fui fidelizando a clientela. Há dois anos a parte da frente da casa foi desocupada e eu passei pra dentro. Surgiu assim, oficialmente, o Café da Drika. Aí comecei a comprar os equipamentos: freezer, sanduicheira, forno e tudo o que o café precisava. Desde então, já quebrei duas paredes da casa para ampliar o espaço e já não está mais dando", comemorou Adriana, que trabalha junto com o marido Mateus Maciel.

        "Há sete anos deixei de ser empregada, e agora sei como, às vezes, é bom ser empregado. Continuo trabalhando diariamente. Abro aqui de domingo a domingo. E tenho uma série de responsabilidades e obrigações que antes não tinha. Às quatro horas já estamos preparando tudo para abrir o café às seis e continuamos até às 13h. À tarde vamos fazer as compras. O meu marido é quem faz as entregas, o delivery, e nas datas comemorativas, preparamos cestas de café da manhã, e é aí que a coisa pega porque o trabalho dobra", falou.
        "E aprendi a fazer comidas. Eu mesmo crio os meus pratos, faço testes e lanço no café. Apesar de toda a trabalheira, bem mais de quando eu era empregada, prefiro continuar levando adiante meu empreendimento, e digo isso aos meus sete funcionários. Se algum quiser virar patrão, já vai saber como é", concluiu.   
   
              
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Comentários (1)

  • Flashiko04/09/2018

    Ótimo esse café da Drika passei uns cinco anos tomando quase todos os dias q saudade

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