Manaus, 19 de Novembro de 2018
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Biotecnologia como alternativa econômica do Amazonas

Por: Antonio Parente
31 Ago 2018, 16h06

* Na série do Jornal do Commercio sobre a evolução do Amazonas, que no dia 05 de setembro celebra a elevação do estado à categoria de província, a matéria a seguir destaca as potencialidades do Estado daqui para a frente.


O Amazonas, da abundância das águas e da riqueza da indústria, ainda tem muito para explorar e a biodiversidade pode ser a solução.


Mau uso da biodiversidade, conhecimentos tecnológico insuficiente e falta de interesse de investimento por parte do governo, são um dos principais entraves que pesquisadores citam, na exploração das potencialidades naturais do Amazonas.
O uso da biotecnologia como ferramenta para o desenvolvimento de uma economia auto sustentável, surge como uma das muitas alternativas. Mas, conflito de interesses e protecionismo das diversidades naturais sem visão de crescimento, tornam-se um dos principais empecilhos para implementar o trabalho do setor.

Segundo o mestre em engenharia de produção e doutor em gestão da inovação em Biotecnologia, da UFAM (Universidade Federal do Amazonas), Manoel Carlos de Oliveira, é preciso que haja uma caminha integrada entre as empresas, instituições de ensino e o governo, para trabalharem juntos as potencialidades da biotecnologia no Amazonas

"Apesar de algumas ações pontuais,  essas três hélices atuam sem conversar de maneira conjunta. Temos alguns poucos empresários acreditando no potencial do setor, mas enfrentando as mesmas dificuldades que outros setores enfrentam para operacionalizar um negócio. No caso das instituições acadêmicas muitas pesquisas são realizadas, ainda que aquém de todo seu potencial, mas falta um canal que aproxime o resultado das pesquisas com o setor empresarial. No caso do governo o estabelecimento de diretrizes e políticas voltadas ao desenvolvimento da biotecnologia serão insuficientes se não houver essa integração entre as 3 pontas", explicou.

De acordo com o professor, apesar da dificuldade de quantificar monetariamente o setor, a biotecnologia tem um grande potencial para ser uma grande geradora de riquezas e empregos no Amazonas, funcionando como um elemento que irá integrar com outros setores, como as indústrias no PIM (Polo Industrial de Manaus).

"Com o uso de tecnologias inovadoras, a biotecnologia pode tornar a região um cluster do setor. Mesmo empresas que não estejam ligadas diretamente ao setor poderiam inserir em seu portfólio alguns produtos provenientes da biotecnologia regional. Temos empresas que atuam na região e já são referência no setor, como a Beraca, que fornece ingredientes para a indústria de cosméticos e cresce 10% ao ano, faturando R$ 213 milhões em 2017. Apesar de não ser amazonense, é um ótimo exemplo para mostrar o potencial do segmento", disse.

O professor explicou, que o setor alimentício, de fármacos, fitoterápicos, bebidas e a própria biotecnologia industrial são exemplos de setores que poderiam ser referências da capacidade do segmento gerar resultados positivos para o Amazonas. "Cito sempre alguns exemplos que acho fantásticos e promissores. A exemplo de pesquisas ressalto o trabalho da Professora Francisca Simas, da UFAM, que tem trabalhos e produtos que se utilizam de cogumelos amazônicos que poderiam estar já disponíveis em prateleiras de supermercados em forma de alimentos", destacou.

Outra pesquisa que gerou resultados positivos citados pelo professor, foi o trabalho realizado com o cubiu, fruta da região, que tem potencial de tornar-se  bebidas como refrigerantes, chás e sucos. Além de outras plantas que tradicionalmente não fazem parte do cardápio do Amazonense, mas que possuem alto valor nutricional. "São produtos com valor agregado bastante razoável, que saem da maior simplicidade dos extratos e dos produtos in natura, que são mais comumente vistos no mercado", disse.

Manoel destacou, que  apesar das ações pontuais da esfera governamental em incentivar o setor, transformar as ideias e pesquisas em negócios, tem sido um passo muito difícil de ser completado.

Analise

Para o professor da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) e diretor da Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazona), Augusto César, enquanto o estado não priorizar o investimento nos setores naturais, nunca haverá um desenvolvimento de uma economia alternativa, e o desperdício na exploração dos recursos naturais

"Em minha opinião o formato do não uso da biodiversidade é o nosso maior erro e precisamos mudar a forma que vem sendo feita. Parece que as mentes das lideranças brasileiras estão congeladas no tempo, perdidas em algum momento do passado. Precisamos avançar para o desenvolvimento de companhias e negócios na região. Atrair o investimento de capital humano e financeiro, abrindo-se para o mundo da ciência e do capital adentrar a floresta para produzir aqui os produtos que ajudarão o mundo em sua saúde", disse.

Augusto explica, que pela diversidade da região do Amazonas - com tantas alternativas - existe um desperdício enorme de suas potencialidade. E ressalta, que o desafio é usar o rigor científico e comercial para levar esses produtos para o mundo, respeitando a biodiversidade e o bioma da região.

"Serão produtos de classe mundial todo aqueles que nós colocarmos vontade, ciência e capacidade empreendedora para fazer ser mundial. Tambaqui, pirarucu, copaíba, andiroba, copaíba, açaí e outros. A lista é tão diversa quanto a Amazônia. Entretanto, precisamos juntar tudo isso. Até agora os resultados são pífios no que diz respeito ao que realizamos de nosso PIB a partir desta diversidade", disse.

Além disso, o professor destacou conflito de interesses dos diferentes setores e o protecionismo sem visão de crescimento que acabam virando barreira para a criação e o desenvolvimento de uma economia auto sustentável. Além de existir ideologicamente, um entendimento que domina, onde não se deve tocar na floresta e nem se deve ganhar dinheiro.

"O estado possui a arrecadação da indústria e não precisa se preocupar muito com outras fontes de renda. Ao analisar a produção inicial parece pouco interessante. Assim, prioriza o que gera mais impostos. Todavia, no longo prazo é uma decisão inadequada", explicou.

Projetos

Augusto conta, que a maior parte dos projetos criado no estado estão incompletos. E explicou que é preciso haver projetos interdisciplinares que unam capital, empresário e cientistas, com a participação de um governo mais liberal que estimule a atividade empreendedora.

"A maioria dos projetos ou tem visão acadêmica demais, ou visão empresarial sem ciência. Ou seja, muitos projetos com um único olhar. Precisamos de projetos interdisciplinares.
Não há ciência sem erros e não há empresários de sucesso sem aqueles que fracassam. Temos buscado um modelo isento de erros e isso não existe", disse.








Aplicação da Biotecnologia

De acordo com um relatório elaborado pela OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development), em 2030, a biotecnologia poderá contribuir com até 2,7% do PIB (Produto Interno Bruto) dos países industrializados e países em desenvolvimento. Orelatório alerta que os governos e a indústria devem eliminar as barreiras que atualmente estão travando um maior desenvolvimento e comercialização de biotecnologias. As barreiras citadas pelo estudo incluem desafios tecnológicos ainda por vencer, legislações, falta de investimentos, questões de aceitação social e estruturas de mercado.

Aplicações da biotecnologia

Segundo publicações de pesquisadores, a biotecnologia é utilizada na agricultura e nos setores de saúde, assim como em determinadas indústrias. Enquanto isso, muitas outras aplicações, como a medicina regenerativa, continuam nos estágios iniciais de desenvolvimento. Os autores do relatório preveem que, em 2015, cerca de metade da produção mundial de alimentos e grãos virá de variedades de plantas desenvolvidas com a ajuda da biotecnologia, os chamados transgênicos.

Os estudos apontam, que o campo da farmacogenética (que estuda como os genes de uma pessoa influenciam a resposta de seu organismo a determinado medicamento) irá influenciar o planejamento de novos testes clínicos e novas práticas de prescrição de medicamentos. Na indústria química, o valor dos bioquímicos deverá alcançar entre 12% e 20% de toda a produção química - esse dado foi de 1,8% em 2005.

Promessas da biotecnologia

As publicações apontam, que em 2030, a demanda por biotecnologia terá provavelmente crescido, acompanhando o aumento na renda da população, especialmente nos países em desenvolvimento, com uma maior demanda por serviços de saúde, bens agrícolas e produtos florestais e de pesca.

E ao mesmo tempo, as alterações climáticas poderão exacerbar muitos problemas ambientais. De acordo com o trabalho da OECD, a biotecnologia poderá ajudar a resolver muitos dos problemas de saúde e ambientais com que o mundo irá se deparar em 2030.

Bioeconomia

De acordo com um relatório publicado na Revista T&C Amazônia, a bioeconomia de 2030 deverá envolver três elementos: avançado conhecimento dos genes e dos complexos processos celulares, biomassa renovável e a integração das aplicações biotecnológicas ao longo dos diversos setores econômicos.

Os autores do estudo calculam que a biotecnologia poderá responder por 2,7% do PIB dos países industrializados em 2030, principalmente por meio do uso da biotecnologia na indústria, na agricultura e no setor de saúde. Nos países em desenvolvimento, esse dado poderá ser ainda maior, na medida que a economia dessas nações apresenta um maior peso da agricultura e da indústria e um menor peso do setor de serviços", explicou o professor.

Por dentro

Segundo um relatório elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o avanço da bioeconomia está suportado por três importantes elementos: conhecimento dos genes e dos complexos processos celulares, biomassa renovável e a integração das aplicações biotecnológicas ao longo dos diversos setores econômicos.
O relatório aponta ainda que em 2030, a biotecnologia poderá contribuir com até 2,7% do PIB dos países industrializados - hoje é menos de 1% do PIB dos países europeus - e ainda mais nos países em desenvolvimento, face ao crescimento da bioeconomia. É considerada como um novo paradigma da economia por ser vista como uma extensão da evolução biológica. O seu objetivo é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais.





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