Manaus, 16 de Janeiro de 2019
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Pressão ruralista deve bancar BR-319

Por: Marcelo Peres
04 Jan 2019, 17h49

Crédito:Divulgação
Alvo de intensos embates em governos anteriores nos últimos anos, as obras da rodovia BR-319 (que liga Manaus ao resto do país) devem ser palco de novas disputas nos bastidores do poder em Brasília durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A expectativa de lideranças políticas e empresariais do Amazonas é que o novo governo ponha um fim a uma pendenga que vem se arrastando muito, mesmo antes de Lula e Dilma, envolvendo principalmente questões de impacto ambiental.

Estudioso do modelo ZFM (Zona Franca de Manaus), o economista José Alberto Machado diz que se Bolsonaro autorizar a retomada das obras da estrada será mais por pressão da bancada ruralista e não da bancada do Amazonas no Congresso. "Pode acontecer como o caso da Funai, que agora está nas mãos do Ministério da Agricultura e tem uma ruralista comandando a pasta", avalia.

Alberto Machado afirma que os ruralistas têm interesse em concluir a estrada para ampliar as suas plantações de soja de Rondônia para outros Estados da região, principalmente o Amazonas. "É uma forma de expandir os negócios em detrimento do impacto na natureza". Para o economista, a BR-319 seria importante para ligar os municípios vizinhos e permitir a importação de produtos principalmente do Sul do país, mas a migração de pessoas e novos negócios deixariam um rastro de destruição na floresta. "Claro, muitos municípios estão isolados, mas devemos examinar com cuidado essa questão", alerta.

Ambientalistas e defensores da retomada do projeto travam uma queda de braço no Congresso Nacional de acordo com seus interesses. De um lado, os que defendem a preservação da floresta e, de outro, os que veem na conclusão das obras uma oportunidade para alavancar a economia do Estado. "É factível que o presidente Bolsonaro deverá autorizar a liberação da construção. Sabemos que a estrada é muito importante para desenvolver o Amazonas, para escoar os produtos da Zona Franca e ainda permitir um maior intercâmbio comercial com outras regiões do país", diz o deputado estadual Sidney Leite (PSD), que se elegeu para a Câmara Federal nas últimas eleições majoritárias.

Sidney Leite é conhecido como um dos parlamentares amazonenses que tem na recuperação da BR-319 uma das suas maiores bandeiras de luta. Foi assim como deputado estadual e ele promete levar a mesma defesa à Câmara em Brasília. Ele conta que esteve com Bolsonaro recentemente e o presidente sinalizou que liberaria as obras. "Ele foi sensível às nossas reivindicações", acrescenta.

O delegado Pablo Oliva, o único deputado federal eleito no Amazonas pelo mesmo partido do presidente, disse que a recuperação da BR-319 é o seu principal compromisso com a sociedade amazonense. "Serei também uma das vozes do Estado em Brasília em defesa da retomada do projeto", diz o parlamentar. "Não vejo que o presidente criará restrições para esse objetivo que mobilizará a bancada federal do Amazonas no Congresso", prevê. Segundo Pablo Oliva, as obras da estrada sempre foram uma reivindicação da população amazonense.

A esperança dos pró-BR-319 é que Bolsonaro tome uma medida drástica sobre o impasse em torno das obras da rodovia, a exemplo do que aconteceu um dia após ele assumir o cargo transferindo para o Ministério da Agricultura todas as atribuições da Funai (Fundação Nacional do Índio), antes restrita ao Ministério da Justiça. Uma atitude extrema que levará a uma revisão da demarcação das terras indígenas, principalmente na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, onde pelo menos 90% da região são propriedades da União e dos índios, segundo analistas políticos. Amazonas, Acre e Rondônia têm interesse na conclusão da estrada.

"Retórica desgastada"

O economista José Alberto Machado diz não ver sentido o argumento de lideranças políticas e empresariais de que as obras de recuperação da BR-319 são importantes para escoar os produtos fabricados na região. Segundo ele, hoje a via marítima, a navegação de cabotagem e o transporte aéreo cumprem muito bem essa função. "É uma retórica já desgastada e, com certeza, envolve outros interesses que não a ZFM", afirma. Ele conta que quando esteve nos quadros da Suframa alertou muitas vezes governos e políticos que a construção da BR-319 era prejudicial ao meio ambiente. "O problema da ZFM não é o escoamento da produção e, sim, o impacto ambiental que uma obra dessas causaria ao ecossistema. O ideal seria uma ferrovia, menos danosa e mais prática", afirma.

Segundo Alberto Machado, ambientalista de carteirinha, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (hoje Rede), durante o governo Lula sempre se opôs ao projeto e condicionou a realização de vários estudos de impactos ambientais para a liberação das obras. Mas nenhum foi suficiente para convencê-la e, pressionada, acabou abandonando o cargo. De lá para cá, apenas trechos da estrada entre Rondônia e parte de municípios do Amazonas foram recuperados, mas pelo menos 70% do percurso que dá acesso a Manaus continuam intransitáveis. E a situação fica mais grave ainda durante o período das chuvas.

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