Manaus, 16 de Novembro de 2018
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"O perigo que corre o nosso patrimônio"

Por: Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com
11 Set 2018, 16h47

Crédito:Divulgação
ENTREVISTA: Mary Del Priore, escritora e especialista em história do Brasil


Começa hoje, a partir das 11h, no Shopping Ponta Negra, o 3º Vogue Fashion's Night Out 2018, a maior celebração de modas do mundo, com lançamento de coleções, desfiles, presenças VIPs, coquetéis, ações de degustação, shows musicais, exposições e palestras, entre elas, 'A evolução da mulher na história da moda', proferida pela professora, escritora e especialista em história do Brasil, a carioca Mary Del Priore, que falou com exclusividade ao Jornal do Commercio.

Jornal do Commercio - O que significa a perda do acervo do Museu Nacional, do Rio de Janeiro?

Mary Del Priore -
O incêndio do Museu Nacional é, sem dúvida alguma, uma perda irreparável não só para a nossa geração, mas também para a geração de nossos filhos e netos.

JC - Em todo o Brasil, prédios e acervos históricos se perdem a cada dia.

MDP - Chamo atenção para o fato da enorme insensibilidade que temos, nós brasileiros, em relação ao passado e, sobretudo, aos monumentos que contam a história do nosso passado. Digo isso porque passamos, de maneira insensível, por monumentos pichados. Vimos derreter bustos e placas de bronze das praças, vimos prédios e sobrados dos séculos 18 e 19 se transformarem em estacionamentos, sem levantarmos a voz e sem reagir. Lembro também que, hoje, muitos pais preferem levar os filhos aos shoppings, ao invés de levá-los para visitas a museus, a velhas igrejas e conventos, que são espaços de um grande patrimônio e guardam a nossa identidade histórica e nacional. Não só o acervo patrimonial está desaparecendo, mas os arquivos municipais, que também não merecem os cuidados que deveriam ter das autoridades, porque os arquivos municipais são detentores da história das pequenas cidades. É nessas pequenas cidades que se dão, muitas vezes, os desvios mais importantes, pois muitos políticos se aproveitam da situação desses arquivos para fazer desaparecer as provas de suas falcatruas. O perigo que corre o nosso patrimônio não está só nos grandes monumentos, nas grandes igrejas, nos grandes museus, mas também nessa memória de papel, que pode facilmente desaparecer.
  
JC - O que a Sra. conhece sobre a história da Amazônia?

MP - Conheço muito da história da Amazônia. Coordenei o livro 'Senhores dos rios', que conta não só sobre a ocupação da Amazônia, mas a relação com as nações, bem como, o desenvolvimento dessa região que é muito rica em patrimônio natural, histórico e econômico. Conheço bastante a história das missões e das ordens religiosas, que fazem as primeiras tentativas de contato com as nações indígenas, mas também a sua integração. Conheço bem a história do baiano Alexandre Rodrigues Ferreira, esse naturalista fantástico, que tentou mandar todo o acervo, a beleza do acervo vegetal, botânico, e uma série de informações sobre as nações indígenas, para a Academia Portuguesa de Ciências, um acervo que foi, infelizmente, perdido em Portugal. Napoleão, quando invadiu Portugal, mandou que todo o acervo coletado por Alexandre Rodrigues Ferreira fosse enviado para o Museu de História Natural de Paris, porque sabia que era um acervo de grande importância.
E ainda tem a Belle Époque na Amazônia, sobre a qual escrevi. A forma pela qual os seringais construíram verdadeiras fortunas, modificaram cidades como Manaus e Belém, que queriam ser uma espécie de Paris na beira do rio Negro, no caso de Manaus. Modificou o consumo das pessoas, que passaram a importar móveis, roupas e comida, da Europa. As companhias de teatro, a ópera, a música, a dança, os professores tudo vindo da Europa, num momento de grande diálogo entre o Norte e aquele continente.
    
JC - Conde d'Eu esteve em Manaus, em 1889. Teria ele vindo criar um império para ele e Isabel, na Amazônia?

MDP - O Conde d'Eu vai até a Amazônia, aliás, a viagem que ele faz é ao longo do Nordeste e depois o Norte, numa tentativa de propaganda, eu diria, do regime imperial porque esse é o momento no qual o Partido Republicano está muito ativo, e o Conde d'Eu, que sempre foi um homem muito arguto, sabia perfeitamente que o movimento republicano ia acabar destituindo o imperador. Ele vai, então, numa espécie de missão para cativar corações e mentes no Nordeste e na Amazônia mas, como sabemos, a viagem acaba sendo mal sucedida porque, naquele mesmo ano, o golpe republicano pôs fim ao império brasileiro.  

JC - Euclides da Cunha também esteve em Manaus, em 1910, e detestou a cidade porque era quente. Se ele viesse hoje, não ficaria um dia.

MDP - Foi uma pena Euclides não ter aproveitado a belíssima paisagem da Amazônia. O calor é o de menos, aí, porque é vencido pela beleza da paisagem dos rios. Mas sabemos que Euclides era uma pessoa doente e depressiva. Daí, talvez, só ter olhos para críticas.

JC - Adiante um pouco como será sua palestra 'A evolução da mulher na história da moda', em Manaus.

MDP - Pretendo conversar com as nossas convidadas sobre as transformações do corpo da mulher brasileira, dos seus costumes, dos seus hábitos, e sobretudo, da sua mentalidade. Os anos de 1980 são uma espécie de eixo definidor das novas conquistas femininas, da chegada do biquíni, quando a pílula anticoncepcional se torna absolutamente democrática e que a sociedade brasileira entra num momento de liberdade, mas apesar de tudo isso, o que é uma tradição de patriarcalismo e machismo, é entender de onde vem isso, esse longo caminho que a mulher brasileira fez até a sua liberação.

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