Manaus, 18 de Setembro de 2018
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Agricultura sustentável contra o desmatamento

Por: Evaldo Ferreira - evaldo.am@hotmail.com
28 Ago 2018, 18h19

Crédito:Cesar Pinheiro
Trabalhos realizados pelos pesquisadores mostram que há atividades bem sucedidas como a cafeicultura e a piscicultura que podem desaparecer


A extensão da bacia amazônica na América do Sul ocupa territórios de vários países, especialmente em suas bordas, mas a maior área contínua de floresta é brasileira. Na parte ocidental, com clima tropical úmido e cruzando a linha do Equador, é no Estado do Amazonas que as bacias dos rios Negro e Amazonas se encontram, numa área designada de 'Amazônia Central'.

Foi focando na agricultura desenvolvida nessa área, cujo marco zero poderia ser Manaus, que o pesquisador do Inpa, Luiz Augusto Gomes de Souza, junto com os também pesquisadores Danilo Fernandes Silva Filho, César Augusto Ticona Benavente e Hiroshi Noda, organizou o livro 'Ciência e Tecnologia aplicada aos Agrossistemas da Amazônia Central' no qual destaca a produção de alimentos, a sustentabilidade da Amazônia, a melhoria da qualidade de vida dos povos da região e os problemas que eles enfrentam para se manter, enquanto agricultores.

"A assistência técnica é limitada, bem como as dificuldades de acesso, a necessidade de sementes selecionadas e as políticas públicas restritas que se aplicam ao setor primário e à ciência e tecnologia, limitam a expansão da produção agrícola na Amazônia", reclamou.

Trabalhos realizados pelos pesquisadores e apresentados no livro, mostram que há atividades bem sucedidas como a cafeicultura e a piscicultura, promovidas nos últimos anos, e outras secularmente não manejadas convencionalmente pelas populações tradicionais, que podem desaparecer. "São várias frutas tropicais, a malva, hortaliças como o ariá, cubiu, taioba, feijão-macuco, e outras, que sofrem risco de erosão genética comprometendo seu aproveitamento futuro e, quem sabe, desaparecimento", alertou.

Há solução para o problema

O boletim mensal do desmatamento da Amazônia Legal, elaborado pelo Imazon (Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia) mostrou que, em julho, a derrubada da floresta foi 27% maior em comparação ao mesmo mês do ano passado. De acordo com o boletim, os principais responsáveis pelo desmatamento foram Pará (37%), Amazonas (21%), Rondônia (20%), Mato Grosso (17%) e Acre (5%). As florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 356 km2 em julho de 2018. No mesmo mês do ano passado, o índice era de apenas 46 km2.

"Mas é um equívoco considerar os agricultores familiares como os responsáveis pelo incremento das taxas de desmatamento na Amazônia. A agricultura tradicional não devasta grandes áreas de floresta. Os roçados ocupam pequena parte dos agrossistemas e as capoeiras são a forma natural de restauração às perturbações decorrentes da agricultura", mostrou. "A atividade pecuária, a mineração e a expansão de cultivos econômicos, como a soja, são os principais problemas no avanço das fronteiras agrícolas brasileiras na Amazônia", acusou.

E há solução para esse problema. "Com certeza, há. Há muito tempo o Inpa desenvolve tecnologias para a produção de alimentos, fibras, óleos, fitoterápicos, resinas, madeira, pequenas criações de peixes, e várias outras formas de explorar a floresta sem a necessidade de derrubar novas áreas de mata, além de determos estratégias eficientes para a recuperação de áreas degradadas. Agora, falta boa vontade de políticos e empresários para resolver o problema", afirmou.

Entre as tecnologias desenvolvidas no Inpa, e descritas no livro, Luiz Augusto destacou algumas como a conservação de polpa de tucumã, o preparo de farinha de abóbora e de feijão-macuco, o cultivo hidropônico de cariru, e das variedades de couve-flor, o manejo de fruteiras tropicais, controle de fitopatógenos, práticas de manutenção da fertilidade do solo e muitas outras que são de interesse direto dos agricultores locais. "No Inpa nós pesquisamos e desenvolvemos as técnicas. Cabe aos interessados nos procurar que as repassamos sem custo. Está aí o livro, distribuído gratuitamente nas capacitações do projeto em Manaus e no interior do Amazonas e Pará", revelou.

        Um perigo que se aproxima

        Para Luiz Augusto, "a agricultura é a base da prosperidade de qualquer nação e a mandioca é uma das prioridades para os amazônidas, pois a farinha é a nossa principal fonte de energia. As práticas agrícolas tradicionais visam a subsistência e segurança alimentar das famílias e são bem sucedidas em seu papel. Somente avanços científicos e tecnológicos podem incrementar a produtividade dos cultivos", garantiu.

        "As tecnologias tradicionais, conceituadas em diferentes modelos de produção agroflorestal, têm recebido atenção científica mais recente, são sustentáveis e podem ser incrementadas", informou.

        "Somos contemporâneos de uma época em que a maior parte da floresta permanece em pé, e essa foi a principal herança recebida dos povos tradicionais. Mas, a fronteira agrícola amazônica, o 'arco do desmatamento', que nos separa de outras regiões do país, tem também trazido agricultores que desconhecem práticas agrícolas tradicionais amazônicas e esse é o grande perigo para a floresta. Ou revertemos essa situação agora, ou amanhã poderá ser tarde demais", previu.

        Os interessados podem solicitar o PDF do livro diretamente a Luiz Augusto pelo e-mail: souzalag@inpa.gov.br

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Comentários (2)

  • DEOLHO01/09/2018

    Um dos CAMPÕES E OS MAIORES DESMATADORES E DEVASTADORES DAS NOSSAS FLORESTAS, SÃO os PRODUTORES DE SOJA, eles são DESTRUIDORES DAS NOSSAS FAUNAS E FLORAS que atinge toda nossa BIODIVERSIDADE. É preciso estarmos sempre alerta contra esses REIS da SOJA, e não deixar nosso GOVERNO AMAZONENSE ABRIR ESPAÇOS PARA OS PLANTADORES DE SOJA que além deles DESTRUÍREM NOSSAS FLORESTAS PARA BENEFÍCIO PRÓPRIO, AINDA JOGAM MILHÕES E MILHÕES DE AGROTOXICOS NA TERRA, causando o enfraquecimento do SOLO. Conheço as CINCO REGIÕES DO NOSSO BRASIL, NORTE, CENTRO OESTE, NORDESTE, SUDESTE E SUL. mais de todas elas sinto uma tristeza imensa quando vejo QUE MATO GROSSO FOI DEVASTADA QUASE TODA, SÓ PARA O PLANTIO DESSA IMUNDA SOJA, quando vc passa por um campo imenso sem fim e vê que ali já foi uma FLORESTA e hoje nada mais é do que uma PLANTAÇÃO DE SOJA. QUE DEUS AJUDE QUE NOSSO GOVERNO AMAZONENSE NÃO ABRA PARA PLANTIO DE SOJA, se não vamos sofrer um AUMENTO DE TEMPERATURA MAIS AINDA, PODENDO CHEGAR à 45º. de calor e pode causar uma destruição em massa de animais e mesmo das pessoas que estão na região.

  • mimico netto31/08/2018

    Na verdade, seria mais prático, o aproveitamento, permanente, das várzeas, com dezenas de quilômetro de terras férteis, pós vazantes, anuais, ao longo das margens dos rios Solimões/Amazonas. Dessa maneira não mais precisaria a contínua derrubada da Floresta Amazônica, é só plantar e colher.

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