Manaus, 19 de Setembro de 2018
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Dólar a R$ 4 fere economia local

Por: Antonio Parente
23 Ago 2018, 08h17

A valorização do dólar acima dos R$ 4 nos últimos três dias, trouxe reflexos negativos para economia do Amazonas. Influenciado pela incerteza do cenário eleitoral brasileiro, a valorização da moeda americana tem impactado diretamente nos preços de matérias primas importadas e na geração de emprego no PIM (Polo Industrial de Manaus), afetando o curso da economia do estado.

Segundo o economista Ailson Rezende, até abril de 2018, as importações de insumos do PIM somavam U$ 3,119 bilhões, com a participação de 65,58% de todas as aquisições para a produção. Com o aumento dos custos que as empresas tiveram devido a alta da moeda americana, os preço de seus produtos ficaram mais elevados e seus lucros foram reduzidos.

"Esse cenário pode diminuir no futuro a capacidade que as empresas do polo industrial de Manaus têm para investir. As receitas que elas obtiveram no passado, serão usadas para cobrir esses atuais custos elevados, e isso pode eliminar a geração de empregos no futuro", disse.

De acordo com Rezende, outro fator que tem ocasionado a crescente do dólar são as eleições no Brasil. A instabilidade eleitoral tem influenciado diretamente no comportamento do mercado internacional e afetando o curso da economia. Ele ressaltou, que as incertezas da reforma política e da retomada do crescimento econômico têm sido cruciais para a possível falta de investimento de empresas no estado.

"Em um cenário político recheado de crimes de corrupção e incertezas no campo econômico, os investidores são cautelosos e conservadores. Adiando seus planos de implantar novas unidades industriais no estado enquanto não estiver decidido quem vai dirigir o país. Por isso, as eleições influenciam os investidores e são importantes para definição de investimentos nos mais diversos segmentos da economia" explicou.
De acordo com os dados do BC (Banco Central), em maio deste ano, cerca de 46,9% das empresas brasileiras possuíam dívida em dólar e não contavam com sistema de proteção contra variação do câmbio. Para Rezende, este cenário afeta diretamente as companhias que possuem dívidas em moeda estrangeira e estão instaladas no estado. "Portanto, mesmo sem fazer novos empréstimos, a empresa vai precisar desembolsar mais reais para pagar sua dívida", disse.

Para o sociólogo e docente, Márcio André Araújo, além das eleições, o câmbio afeta a expectativa local sobre a continuidade de investimentos e a sustentabilidade do modelo ZFM (Zona Franca de Manaus). Isso impõe preocupações reais com o dólar e como o próximo presidente vai ser ao modelo.

"Os agentes econômicos do mercado observam e especulam a partir das pesquisas de intenção de voto e do possível desfecho do processo eleitoral. É importante que elaborem cenários distintos para cada candidato, principalmente aqueles que realmente estão no páreo", ressaltou.

Pesquisas

Após a pesquisa eleitoral do Datafolha, que apontou a liderança do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) com 22% das intenções de voto, a moeda americana fechou ontem (22), em R$ 4,0372. Cotação que não era alcançada desde 18 de fevereiro de 2016.

"Os candidatos da centro-direita, favoráveis a propostas reformistas e de ajuste das contas públicas têm apresentado baixo desempenho nas pesquisas eleitorais. Temos como exemplo o candidato Geraldo Alckmim", disse.

Para Araújo, a baixa aceitação nas pesquisas de Geraldo Alckmin, avaliado como candidato comprometido com as demandas do mercado internacional, e com as reformas para a manutenção do equilíbrio das contas públicas, pode ter sido a questão central que contribuiu para a reação negativa do mercado financeiro internacional. Além disso, a incerteza da possível candidatura do ex-presidente Lula, condenado pela operação Lava Jato, pode dificultar ainda mais a aproximação das pesquisas real de intenção de voto.

"A especulação sobre o câmbio do dólar e o baixo índice de intenção de voto em Alckmin sugere uma preocupação do mercado financeiro sobre a condição de incerteza. Até o momento, o discurso do candidato Bolsonaro tem explicitado um programa de segurança com tendência mais 'militar' para a nação e pouco tem se manifestado a respeito de investimentos, infraestrutura e projeto de desenvolvimento nacional. A própria incerteza no processo de candidatura de Lula dificulta mais a aproximação das pesquisas para a real intenção de voto", disse.

Araújo reforçou, que próximo presidente do país eleito democraticamente, deverá se preocupar em manter a estabilidade do dólar e criar uma solução ao problema do desemprego, que atinge próximo de 14 milhões entre a população economicamente ativa. E citou alguns setores da economia que podem se beneficiar com a alta da moeda americana.

"É interessante pensar que num cenário de alta do dólar, os exportadores, principalmente do agronegócio, que recebem nessa moeda, devem gostar até certo ponto de sua crescente valorização ante o real", disse.

Por dentro

Pelo sexto pregão consecutivo, o dólar fechou ontem (22) em alta no valor de R$ 4,0559 na venda, maior nível desde 16 de fevereiro passado. Ontem (21), a moeda norte-americana encerrou o dia ultrapassando os R$ 4, pela primeira vez desde fevereiro de 2016. Para analistas econômicos, o mercado financeiro reage às incertezas do cenário político e às indicações de aumento dos juros pelo Banco Central dos Estados Unidos, influenciando um movimento no fluxo de capital nas demais bolsas de valores.

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