Manaus, 19 de Setembro de 2018
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Quem te viu, quem te vê

Por: João de Matos Suzano
30 Jul 2018, 19h01

Foi o que se viu. É o que se vê. O tempo passa. O mundo evolui. O homem não muda. Por vezes, involuiu. Permanece obtuso em suas crenças e aptidões, guiado por interesses quase sempre mesquinhos e personalíssimos que o afastam da essência de sua criação. A perspectiva do poder embrutece, corrompe e nos leva por caminhos pelos quais jamais algum dia imaginaríamos transitar.

A Bíblia diz: orai e vigiai. Eu digo: fiquemos permanentemente atentos para não trair a límpida foz de nossa essência, enquanto criaturas divinas que pretendemos ser. Celebramos alianças descabidas. O inimigo, transformamos em amigo. O detrator, em comparsa. A sede de conquistas penetra as veias e envenena o sangue. Perdemos a noção de nossas certezas e transformamos o certo em errado. Somos residentes de um hospício chamado Universo.

Assim somos nós, o mundo em que vivemos. Nascemos, crescemos e nos tornamos adultos. Assumimos cargos e funções de alta importância. Somos respeitados. Detemos o poder em nossas mãos. Nossas palavras e atos decidem destinos de muitas pessoas. A empáfia e a ganância nos levam para os caminhos da insensatez. Quem somos nós? O que pretendemos da vida? Onde queremos chegar?

As minhas palavras iniciais seriam frias e sem o menor sentido se colocadas a esmo, "Bem Escritas", até podem ser, mas surgiriam mortas e solitárias em folha de papel. Adquirem, porém, sentido amplo, se dispostas em contexto abrangente, atual e vivo, na razão direta com a realidade bruta dos nossos tempos, onde a mediocridade assola as ações humanas, as vaidades endurecem os sentimentos, os personalismos se agigantam, o desamor se instala e a corrupção dos valores éticos e morais transformam os homens em algozes da sociedade da qual fazem parte, transformando a saúde e a educação em dejetos, secundárias e sem valor, desprovidas da qualidade suficiente para engrandecer, sublimar e fazer grandiosa uma nação.

O nosso Brasil vive um momento político, moral e econômico dos mais graves de toda a sua história. Denúncias de corrupção e julgamentos de personalidades importantes no cenário nacional pululam nos quatro cantos do país, trazendo como consequência natural condenações múltiplas para os envolvidos em suas teias. Escândalos financeiros, dilapidação do erário, e falcatruas e conchavos dos mais diversificados vieram à tona, denegrindo a imagem da nação no exterior, além de causar estupefação geral em toda a sociedade brasileira.

Os dias se sucederam e, ao invés de observarmos uma diminuição do quantitativo de denúncias, mais e mais elas afloraram nos canteiros dos absurdos, feito monstros em filmes de terror, emergindo das profundezas dos lodaçais e das areias movediças, para ameaçar de destruição a sociedade e o homem de bem no Brasil.

Preocupante é constatar que nada acorre gratuitamente. O processo é ordenadamente orquestrado, milimetricamente calculado, a partir da concepção da teia sistêmica de corrupção, instalada com o objetivo final bem definido de destruição da forma de sociedade hoje vigente e desejada pela maioria esmagadora da população brasileira, por oferecer liberdade de ação, de expressão, e mais: possibilidade de crescimento individual e o desenvolvimento da nação.

Tais pensamentos espúrios, os danos provocados em sua concepção e as consequências advindas não são resultantes de pensamentos e atitudes individuais, mas de procedimentos sistêmicos, repito, elaborados por uma minoria com ideologias nefastas, onde as palavras dignidade e escrúpulo passaram longe para darem lugar à mentira, ao engodo e às falcatruas. Iludidos seremos nós se acreditarmos na fala mentirosa dos canalhas e cafajestes em cujas mentes inexiste a palavra probidade, ou despudoradamente negligenciarmos a avaliação das consequências que poderão advir.

Sou pessimista? Acredito que não. Procuro ser realista o suficiente para não me deixar envolver pelo canto da sereia e entender, sem romantismos, que um delinquente contumaz jamais deixará, voluntariamente, de utilizar os subterfúgios criminosos que os levaram ao poder, cujas benesses hoje desfrutam, pelo simples fato de que, se o perderem, as suas próximas passadas serão em direção às barras da justiça e, provavelmente, às grades de uma cadeia.

Como imaginar um delinquente não utilizando a propina e a fraude para atingir os seus objetivos escusos, tendo a consciência plena de que esses dois "artifícios", assim os chamemos, são os instrumentos mais apropriados para mantê-los no poder e garantir-lhes a impunidade?

Idiotas seremos nós, renovo minha fala, se assim acreditarmos. A corrupção é passível de existir em todo ser humano. O que desconhecemos é onde ela se instala. Querer impingir o raciocínio de que em uma determinada instituição ou que no meio de um determinado grupo de pessoas, por se considerarem diferenciadas, não há que se ter a menor desconfiança de que haja corruptos e a corrupção instalada é pretender ser CÍNICO o suficiente para, descaradamente, catalogar o resto da sociedade como um bando de imbecis para transformar humanos como nós em INTOCÁVEIS DEUSES.

Desçam os degraus do vosso ilusório pedestal, caríssimos e intocáveis "deuses". Esse monumento não existe e a história da humanidade nos oferece singularíssimos exemplos de "jurisprudência da vida", onde incontáveis seres divinizados sucumbiram nos meandros de sua própria empáfia, atirados no poço infinitamente profundo da realidade, literalmente pelas mãos de uma plebe indignada com os desvarios desses "deuses de areia", cujas atitudes configuram um verdadeiro acinte à nossa inteligência e um desafio aos nossos brios. Este é o meu recado aos seres intocáveis.

Aproximam-se as eleições no Brasil e cada cidadão, por mais desinformado que seja, tem alguma noção de tudo o que se passa no país, na limitação básica e compreensível do seu intelecto e capacitação cultural. Não é tempo de "vacas gordas". Vivemos a negritude dos dias de "vacas magérrimas" e doentias, relegadas à mingua em nossos pastos. O país encontra-se no limiar do caos, ou nele próprio.
Posturas particulares viciadas e políticas partidárias inescrupulosas, com características específicas, em vai e vem de cima para baixo e de um lado para o outro, com o objetivo claro da locupletação pessoal, transitam livremente nos canteiros do dia a dia para transformar os cidadãos de bem em reféns, encurralados e prontos para o abate.

Alega-se que o exercício desse vai e vem, da possibilidade do contraditório e do livre pronunciamento poderia constituir o mais salutar "Estado Democrático de Direito". Tal alegação existiria verdadeira se as partes discordantes, ou mesmo conflitantes, fossem compostas, as duas, por "cidadãos de bem", o que realmente não ocorre.
Na verdade, o que existe é um bando de criminosos dos mais perigosos, protegidos pelas baias das cavalariças da impunidade, sob a tutela de uma legislação espúria, costurada ponto a ponto para oferecer subterfúgios mil aos "criminosos de colarinho branco", cínicos em seus paletós e gravatas importados, apátridas e inescrupulosos.

Do outro lado, os brasileiros, homens de bem e cidadãos íntegros, desesperadamente lutam para, democraticamente, expurgar da vida política do país toda essa canalha que, em tese, prefiro não nominar, por ser papel da justiça fazê-lo, acreditando que os valores da ética e da moral conquistarão "espaços dantes jamais concebidos". Estarão certos? Ainda será possível? Estou cético: Acredito, sinceramente que não, mas, democrata que sou, declino de minha crença, sem deixar de lado, à Gonzaguinha, o meu "Grito de Alerta".

Entendo que, bem conhecendo os "facínoras de plantão", por mais uma vez estaremos caindo no engodo do palavreado fácil daqueles que promoveram o caos, aguardando, pacientemente, à espreita, por qualquer descuido nosso para poder agir. Eles se fazem de cordeiros, mentem descaradamente, mas são lobos famintos de poder, mordomias e regalias.

Posso estar enganado, reconheço, pois há, dentre os que acreditam ser possível, cidadãos cultos que, por força de suas conquistas, muito mais bem informados do que eu estão. Mas não podemos nos permitir, qualquer que seja a nossa linha de pensamento, deixar de permanecer em permanente vigília, voz firme e clara, denunciando o que tiver que ser denunciado.

Ouso repetir: não há que se descuidar um segundo que seja. A escória possui o seu nicho, repleto de criminosos da mesma laia, de apaniguados mercenários e da ignorância deliberadamente plantada, constituindo parte significativa da população.

Cada um de nós tem o dever de transformar-se em guardião vigilante e permanente, para se contrapor ao instrumento do mal, usando contra eles o mesmo antídoto usado contra as picadas das peçonhas, o próprio veneno, e, neste caso particular, o que de único deles se pode aproveitar, a MILITÂNCIA SEM TRÉGUAS., objetivando conscientizar o cidadão de bem pouco informado sobre as falcatruas por eles perpetradas, este o caminho único a seguir para que não seja necessário nos valer da outra opção, não descartável, mas que, paradoxalmente, para se vitimizarem, eles gostariam que fosse utilizada: a força.
Eles se fazem de cordeiros, mas são lobos famintos. Venderão caro sua derrota. Julgado por eles necessário: fraldarão urnas eleitorais, ao menor descuido; comprarão os ainda não corrompidos, mas corruptíveis; lutarão até o fim para permanecerem intocáveis; acusarão o homem de bem de fazer o que eles fazem; de ser o que eles são.

Não nos iludamos. Eles serão, por todo o sempre, aquilo que são. Jamais mentirão, pois, na verdade, representam a própria mentira ambulante.

* é escritor e coronel da Aeronáutica. E-mail: suzanojms@gmail.com

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